Os dias com Klaus iam se tornando cada vez melhores e eu me sentia relativamente feliz ao lado dele, mas sabe quando você sente que está faltando alguma coisa? Pois é, era assim que eu me sentia. Desde que mudei para a casa de Klaus, não vi meus irmãos e muito menos recebi noticias deles, já não me importava com eles e duvido que eles estavam pouco se fudendo para mim... Eles já imaginavam onde eu estava.
Quanto á me sentir incompleta, eu realmente não sabia o que estava faltando, mais tarde, eu descobriria o que era. Eu tinha uma casa, um namorado que me amava e um trabalho que eu gostava, no final do ano, Klaus e eu estávamos planejando em viajar para Kiel e realizar o itém número seis da minha lista.
O itém três estava praticamente realizado, pra quem não lembra, era ter uma familia. Me sentia nova para ter filhos e não sabia ao certo se queria ter um, Klaus sonhava com uma menina, mas ter filhos não estava nos nossos planos pelo menos por uns cinco anos juntos, queríamos curtir a vida enquanto éramos jovens.
De fato não voltei mais á escola, e com o passar dos dias, a idéia de voltar me parecia totalmente absurda, Klaus insistia falando que devia pelo menos terminar o colegial, mas para quê? Não me fazia a menor falta.
- Você devia ir pelo menos para prestar contas, você parou de ir sem ao menos falar com a diretora ou fechar sua matricula... – comentou Klaus outro dia.
- Eu sei mas... – ficava totalmente sem justificativa para rebater com ele, como sempre, ele tinha razão em alguma coisa e isso me deixava irritada ás vezes. - Por que não vai lá amanhã? – disse Klaus rindo da minha cara de aborrecida.
- Okay Klaus, você venceu... – disse cedendo. – Eu vou lá amanhã falar com a diretora e fechar as ‘contas’.
Me virei para o lado terminando de dobrar as roupas que havia lavado na semana passada, de repente sinto uma mão em minha cintura me puxando e me beijando na boca. Como SEMPRE me entreguei á Klaus o abraçando fortemente contra meu corpo.
Caimos na cama rindo dando leves selinhos na boca de Klaus, a barba dele estava começando á crescer irritando levemente minha pele, amava quando ele deixava a barba crescer.
- Sabe o que a gente podia fazer amanhã depois que você voltasse da escola? – perguntou Klaus olhando profundamente para meus olhos.
- Hum... – disse após dá um beijo longo nele.
- Almoçar naquele restaurante Kartoffelhaus na Karl-Liebknecht-Straße, o que acha? – propos Klaus com um sorriso no rosto. Arregalei os olhos, aquele restaurante era super caro e a comida deliciosa, o que Klaus estava pretendendo?
- Mas... Lá é tão caro! – finalmente disse.
- Eu sei... Mas a ocasião é especial – disse Klaus de um jeito misterioso e com um ar um pouco romantico. Nunca liguei realmente para romantismo e nunca havia conhecido esse lado de Klaus... Bom, parece que eu ia ficar conhecendo amanhã.
Estava super anciosa para ver o que Klaus estava planejando amanhã, e tentei me lembrar qual seria o motivo para tudo aquilo, mas não me lembrei...Durante o dia, arrumei a casa, ajudei Klaus á organizar as coisas no estúdio e sai para comprar cigarros de cereja, como custavam mais caro, tentava fumar menos cigarros possiveis por dia, mas acabava que tinha que comprar um maço todos os dias.
Já tentei parar de fumar por várias vezes, mas como todos os viciados em drogas licitas, quanto mais cedo se começa, mais complicado é largar o vicio depois, e esse era meu caso, comecei aos 14 anos e desde então o máximo que fiquei sem fumar foram 6 meses. Mas todas as vezes que via meus amigos fumando, não resistia, tinha que dar um trago.
Cheguei em casa, o sol já estava se pondo e Klaus estava sentado em sua poltrona habitual, no quarto olhando pela janela, adquirira o mesmo hábito que eu com nossa convivencia. Cheguei, ascendi o cigarro e passei um para ele. O abracei por trás e fiquei assim com ele, por um tempo, depois me virei e o beijei na boca.
Passamos a noite juntos novamente, dessa vez, sem trocarmos uma palavra, senti um nó na garganta e uma vontade enorme de dizer EU TE AMO para Klaus, até então, nunca havia dito essas palavras para ele. Olhei para o rosto dele, como sempre, calmo e tranquilo, dei um sorriso mas ele não viu, não disse o que queria dizer, não importava, ainda não estava pronta para dizer isto á ele...
No dia seguinte, levantei cedo e tomei meu café, Klaus ainda dormia profundamente em nosso quarto, subi as escadas novamente, droga! Havia esquecido de pegar meu casaco; era mais um dia frio em Berlim. Antes de sair dei uma ultima olhada no rosto de Klaus, sorri. Desci as escadas correndo abri a porta e mergulhei no vento frio da manhã cortando meu rosto.
(...)
O falatório da diretora Schirmer parecia que nunca teria um fim, falava coisas que eu já estava cansada de saber, e não cansava de repetir sobre a importancia da minha permanencia na escola... “Okay, sei que é totalmente errado abandonar a escola em meu último ano de colegial diretora Shirmer...” pensei, claro que ouvi todos aqueles sermões calada, mas minha língua já estava coçando para dizer tudo o que estava pensando.
A voz dela foi me dando agonia e uma vontade enorme de pular pela janela em direção ao pátio da escola foi crescendo dentro de mim, olhava para todos os cantos da sala de menos para o rosto de sapo murcho dela.
- Então, srta. Schultz – dei uma discreta risada que pra minha sorte a diretora não ouviu, havia tempos que as pessoas não me tratavam pelo meu sobrenome e ouvi-lo novamente era engraçado. – Aqui estão os formulários para a srta preencher...
Peguei o maço de papéis, tinha umas oito páginas no minimo para eu preencher, pedi uma caneta e comecei a preenche-los ali mesmo...Demorei mais tempo do que pretendia para conseguir acertar as coisas, olhei no relógio da escrivaninha da diretora Shirmer, estava um pouco atrasada para meu almoço com Klaus e ficava cada vez mais ansiosa.
Quando finalmente terminei de preencher tudo, meus pulsos estavam doendo de tanto escrever, me levantei silenciosamente e sai da sala indo em direção ao pátio da escola. Minha vida naquele lugar passou com um filme em minha cabeça.
Respirar o ar da rua me fez me sentir melhor e toda aquela ansiedade havia passado, tomei o metrô e desci no centro da cidade rumo em direção ao Kartoffelhaus Restaurant, dei uma olhada nas mesas e não vi Klaus lá, estava atrasada fazia uma hora, onde será que Klaus estava?Me sentei em uma mesa perto da janela e fiquei olhando as pessoas passarem pela rua, o garçom veio me perguntar se eu aceitava alguma coisa, apenas sorri e disse : “Não, muito obrigada, estou esperando meu namorado, quando ele chegar, pediremos alguma coisa”, o homem concordou com a cabeça e se retirou me deixando sozinha com meus pensamentos.
Se passaram mais uma hora e nada de Klaus aparecer, aquela ansiedade que havia passado quando sai da sala da diretora tomou conta de mim novamente, sai do restaurante e fui até um telefone público em frente ao estabelecimento ligar para casa. O telefone chamou inúmeras vezes mas Klaus não atendeu, voltei para dentro do restaurante esperar mais algum tempo, uma enorme vontade de chorar invadiu meu peito. Senti uma fina lágrima brotar em meus olhos e rolar por minhas bochechas, limpei com as costas da mão, me levantei mais uma vez e fui embora.
Estava totalmente decepcionada com Klaus, andava desorientada pela rua sem ao menos ver as pessoas em minha frente, comecei a correr desesperada e chorar mais ainda. Não sabia para onde estava ainda, só queria fugir dali. Uma dor forte invadiu meu peito, o que era aquilo? A imagem de Klaus veio repentinamente em minha cabeça, olhei para o relógio da estação do metrô, o que aconteceu com Klaus?
Decidi voltar para casa e ver se ele estava lá, peguei o metrô e Klaus não saia de minha cabeça por todo o caminho, desci na estação perto de nossa casa, fui andando alguns quarteirões até avistar uma aglomeração de pessoas na rua faziam uma roda em volta de alguma coisa, fiquei na ponta dos pés para ver o que era.
Percebi que a confusão estava exatamente na porta do estúdio de Klaus.Senti um nó em minha garganta e novamente as lágrimas quiseram brotar de meus olhos, fui me apertando entre as pessoas até chegar no centro da roda, um policial fazia algumas anotações no papel, olhei para baixo, meus olhos não acreditavam no que eu via... Não... Não era aquilo que estava acontecendo, nada daquilo estava acontecendo comigo...
Meus olhos estavam emaranhados de lágrimas e a única coisa que consegui enxergar era um buquê de rosas ao lado de um corpo caído na calçada...