Sempre tive vontade de colocar um alargador de 8 mm na minha orelha esquerda. Quando completamos duas semanas juntos, Klaus me deu um alargador preto com uma estrela azul florescente no meio. Desde então, fui alargando aos poucos durante a semana, até que no dia que Klaus me entregou o presente, o buraco já estava no tamanho certo.
Os dias com Klaus eram maravilhos, ele me ensinou os oficios de tatuador e aos poucos fui aprendendo até ter minha primeira cliente; uma conhecida de Klaus de uns vinte anos que queria tatuar uma borboleta pequena no pescoço, eu era boa em desenhos e gostava de tatuagens.
Passava as tardes dormindo na cama de Klaus (que agora era NOSSA cama) ou tatuando as pessoas, de noite saíamos depois do trabalho e iamos em alguns barzinhos no centro da cidade, na volta, passavamos no parque e ficávamos lá, sentados conversando e olhando a lua.
Planejávamos nosso futuro (quem diria, "L" planejando o futuro), falávamos de nossos sonhos, nossas vontades... Nunca me abri TOTALMENTE com alguém, nem mesmo com Klaus, nunca falei sobre meus traumas ou sobre minhas fraquezas... (eu sou o tipo de pessoa que odiava se sentir vulnerável perante as outras, principalmente na frente de quem eu gostava muito), Klaus também nunca perguntou e nem mesmo tocou no assunto, ele sabia que eu fugia desse tipo de conversa.
Estava me dando bem nos ramo das tatuagens e nunca imaginei gostar tando do meu trabalho. Sim, esse era o MEU trabalho e eu finalmente tinha meu próprio dinheiro. Ajudava Klaus com as despesas da casa e o que sobrava, gastávamos nos bares e com cigarro, outro dia mesmo fumei um cigarro de cereja MARAVILHOSO (eu e minha paixão por cerejas) e desde então viciei nele deixando de lado o de menta.
Quando completei dois meses de tatuadora resolvi me tatuar, desde então me sentia um pouco insegura e sem jeito de tatuar meu próprio corpo. Fiz o símbolo do meu signo (aquário) no meu tornozelo esquerdo. Era uma tatuagem simples, mas gostei bastante.
Depois pedi á Klaus que tatuasse uma clave de si na minha nuca... Pensava seriamente em fazer várias tatuagens pelo meu corpo, mas particularmente não gostava muito de tatuagens grandes...
Klaus não possuia muitas tatuagens, umas cinco no máximo, todas elas em seu braço direito. Era o tipo de tatuador que não mostrava muito seu trabalho. Nossos clientes eram bem diversificados gente de todo tipo, geralmente Klaus atendia homens e eu as mulheres, tinhamos uma média de uns seis clientes por dia (tatuagens eram demoradas de se fazer).
Até hoje a tatuagem mais interessante que fiz foi em Yurika, uma garota oriental de cabelos negros e mexas roxas. Adora o estilo dela. Yurika era uma velha amiga de Klaus dos tempos da escola, era uma pessoa super simpática e meiga, já havia feito algumas tatuagens com Klaus, mas essa, ela quis fazer comigo; uma enorme gueixa envolta com cerejeiras em flor ocupando suas costas por inteiro. Foram precisas três seções para concluir a tatuagem, mas valeu á pena o esforço, o resultado foi mais que satisfatório.
Em um sábado de tarde, estava sentada na poltrona preferida de Klaus, com as pernas cruzadas, olhando pela janela o dia nublado, Klaus estava lá embaixo no estúdio tatuando um cliente e eu me distraia com meu cigarro de cereja.
Estava apenas de sutiã e uma calça comprida, o tornozelo á mostra com o simbolo de aquário... (duas ondinhas) fiquei olhando a tatuagem por horas e fiquei pensando no quanto me enquadrava nas caracteristicas aquarianas... E uma coisa que mais me perguntava todos os dias era: Aquarianos também amam?
Aquário não era o signo do amor, o amor era justamente um campo onde o aquariano se sentia desconfortável, aquarianos gostam de coisas exatas, da razão, e o amor era uma coisa não exata, fazendo-o se senti totalmente vulneravel (lembram-se uma vez que comentei que odiava me sentir vulnerável?)... Ás vezes me sentia uma pessoa totalmente incapaz de amar outra... Posso parecer totalmente confusa e perdida (não só pareço como sou né?) e amar, com certeza me deixaria MAIS confusa e perdida...
Klaus terminou a tatuagem e subiu até o quarto, estava totalmente cansado, tatuar exigia muita concentração, (não sabia como eu, uma pessoa tão distraída conseguia tatuar alguém), se jogou na cama e ficou respirando fundo.
Fazia um bom tempinho que eu e Klaus não faziamos amor, e aquele clima frio me deixava totalmente excitada, me aproximei da cama me sentando e fazendo com que Klaus encostasse em mim e comecei a massagear suas costas.
- Você tá tenso... - comentei apertando seus musculos.
- É... - respondeu Klaus dando um suspiro - cansou tatuar aquele dragão no Hans... Finalmente consegui terminar...
- E ai? Ele gostou? - perguntei sorrindo.
- Aham... Me dá um trago? - pediu Klaus, passei o cigarro pra ele e depois beijei seu pescoço fazendo-o estremecer. Todas as noites com Klaus eram maravilhosas e me sentia super-bem com ele, e muito bem disposta no dia seguinte.
- Te amo muito "L" - sussurrou Klaus em meu ouvido enquanto estávamos deitados, enrolados em lençóis bebendo uma garrafa de rum e fumando cigarros de cerejas...
Essa rotina durou umas duas semans... Até minha grande frustração...