Alguém na rua acenava para mim, agitando os dois braços de forma desesperada, quando vi uma cascata de cabelos vermelhos-cor-de-fogo, meu coração deu um solavando e parecia que sairia pela boca, era Kessi...
Abri a janela me debrucei no para-peito e sorri de orelha-á-orelha para ela, Kessi tinha os cabelos vermelhos compridos até a cintura, olhos verdes delineados com um lápis preto, seios fartos, cintura fina, usava uma calça jeans e um casaco preto. Kessi era linda, perfeita e minha melhor amiga.
Fazia algum tempo que não saíamos juntas, ou pra tomar um porre ou pra apenas sair na rua e sentar na calçada olhando estrelas, costumávamos fazer isso nas sextas-feiras á noite. Mas nos ultimos tempos Kessi estava de castigo, e eu morrendo de saudades dela.
Troquei de roupa rápido, arrumei meu cabelo, passei o lápis de olho habitual, calçei minha bota preta até os joelhos, vesti meu jeans, meu casaco de frio e sai pela porta tentando não fazer barulho.
O hall da casa estava escuro, provavelmente Atlze e Detlef haviam saído, dormindo, com certeza eles não estavam. Tranquei a porta do quarto, peguei as chaves de casa, cruzei a porta.
Kessi se aproximou de mim e me deu um abraço apertado, senti um cheiro de menta misturado com bergamota, adorava o perfume de bergamota que Kessi usava, era perfeito. Aquela mistura de aromas com uma pitada de cigarro e chicletes que ela habitualmente mascava.
- Garota, te procurei na estação hoje mais cedo mas nem te encontrei, estava na esperança de você está lá - disse com um sorriso radiante.
- Nem deu pra passar lá, aula... - disse Kessi de forma breve e sorridente. Já não chovia mais, porém a calçada continuava molhada.
- Onde vamos hoje? - perguntei.
- Ah... Em uma praça qualquer, o de sempre... - respondeu Kessi me cruzando seus dedos nos meus e assim fomos andando pela madrugada á fora.
Senti o cheiro de cigarro em Kessi e a vontade em fumar me veio novamente, foi ai que lembrei que meu maço havia acabado mesmo, pedi um cigarro á Kessi e ela me estendeu sua caixinha de cigarro azul-escura e me ofereceu seu esqueiro, ascendi e dei um longo trago soltando a fumaça no céu, que parecia um veludo coberto por pérolas brancas.
Passamos por dentro da estação do metrô, estava vazia, algumas pessoas cruzavam o hall de entrada da estação e embarcavam no metrô, depois de atravessarmos a estação, seguimos em frente em direção á uma pequena praça que existia proxima ao outro lado da estação, os postes de luz iluminavam o centro da praça, um grupo de pessoas estavam aglomerados em alguns bancos da praça, jogavam baralho e rodavam uma garrafa de amontila entre o grupinho.
Kessi e eu nos sentamos debaixo de uma árvore, a grama estava fria por causa do vento da noite, encostamos no tronco e ficamos de mãos dadas, bem próximas uma da outra. Ficamos um bom tempo sem nos falarmos, ouvindo apenas o barulho das pessoas conversando e os carros na rua. A madrugada era agitada.
- Senti sua falta durante a semana - disse encarando Kessi e olhando profundamente em seus olhos, eles brilhava, eu podia ver meu reflexo neles, Kessi sorriu e concordou com a cabeça, passou a mão pelos meus cabelos curtos e meio desgadanhados, raramente penteava cabelo. Seus dedos magros desembaraçavam as mechas loiras do meu cabelo e eu segurei sua mão de forma carinhosa.
Meu rosto estava tão próximo do seu que senti seu hálito de cigarro misturado com o chicletes de tuti-fruti, dei um abraço apertado nela e me senti totalmente aconchegada nele, sentia a maciez de seu corpo no meu e minha vontade era de ficar assim pra sempre com ela, era um carinho que eu sentia que eu nem mesma sabia explicar.
- Também senti sua falta "L" - finalmente Kessi disse alguma coisa, sua voz falhou - sinto falta de nossas madrugadas juntas, nossas risadas no meio da noite, de matar aula pra ficarmos juntas, quando vamos tomar um café naquela cafeteria da esquina, quando saímos tarde da noite para nos encontrarmos, quando estamos juntas com a galera, quando você vai lá pra casa... O que tá acontecendo com a gente? Por que estamos nos afastando tanto?
- Realmente não sei, tenho andado meio... Estranha e sozinha ultimamente - percebi que lágrimas saltavam dos olhos verdes de Kessi, de alguma forma aquilo deu um nó na garganta, e eu senti que devia algo á ela...
E de alguma forma devia... Eu havia prometido ir em sua casa durante a semana, não apareci, ela me ligou e eu não retornei e nem atendi... O que estava acontecendo? A unica coisa que pude fazer foi beijar seu rosto e lhe dá mais um abraço apertado.
-Me desculpe Kessi - disse com uma voz doce, sussurrando em seu ouvido - você sabe o quanto és importante pra mim, que você é minha melhor amiga, essa semana eu estava passando por problemas internos, e eu não sabia o que fazer, se não te procurei e nem te falei nada, foi pra não te preocupar...
Kessi me olhou novamente, ela sorriu de forma simples, concordou com a cabeça e eu ouvi um "desculpo" fraco que saiu de seus lábios vermelhos, o motivo que me fez afastar dela durante a semana veio á tona. O cheiro do perfume de Kessi penetrava minhas narinas junto com o cheiro do cigarro.
Tudo aquilo me deixava estremamente excitada e uma vontade enorme e quase incontrolável de beijar Kessi me veio á cabeça. Sim, Kessi era minha melhor amiga, e sim, eu estava apaixonada por ela... Não foi uma coisa de imediato, eu conhecia Kessi fazia uns 8 meses e nos tornamos tão intímas de uma forma muito rápida.
Nos conhecemos em uma dessas madrugadas á fora, Kessi é uma criança ainda, era dois anos mais nova que eu e estava descobrindo as coisas da vida, ela tinha muito o que aprender sobre a vida nas ruas e nas madrugadas...
Já me apaixonei por outras garotas (e garotos também...), já tive vários casos com elas, mas nenhuma dessas apaixonites foi igual ao o que sinto por Kessi. Me culpava todos os dias por gostar dela da forma que gostava, ela era uma criança aos meus olhos e não teria maturidade nenhuma em encarar esse problema de frente, não saberia lidar com isso... Afinal, não é todo dia que uma garota se declara pra você né?
Claro que ela não desconfiava de nada sobre meus sentimentos, achei que a solução para esquece-la seria me afastar dela, mas acabei magoando-a... E pensa nela todos os dias... Cheguei á ir em frente ao prédio onde ela mora umas duas vezes durante a semana depois da aula, me sentava na calçada e ficava lá... Durante horas...
Sempre que escutava o barulho de alguém chegando pegava minha mochila e saía correndo, na segunda vez (para minha má sorte) a mãe dela me viu, me encarou de forma ameaçadora, de fato ela não gostava MESMO de mim, atribuia totalmente á mim a culpa por Kessi ser do jeito que era. Os pais nunca encaram de frente o problema REAL de seus filhos aprontarem todas, chegarem tarde em casa, irem mal na escola, sempre foi um amigo que influenciou. O que nem sempre acontecia.
Depois do episódio com a mãe dela, não voltei mais, não telefonei e nem nada... Preferi fugir desse 'problema' á encará-lo de frente, mas de uma coisa eu estava convicta : não revelaria nada á Kessi sobre meus sentimentos.
Afastei Kessi de mim, ela me olhou de modo indagador, fingi não perceber a expressão no rosto dela e sua pele branca ficar levemente enrubrecida.
- Me desculpe Kessi, de verdade, além de estar passando por problemas internos, estive meio doente - menti, Kessi com certeza notou o tom de descaso em minha voz.
- Por que não me avisou? - perguntou de forma indignada - Eu dava um jeito de ir lá te ver.
- Não quero criar problemas entre você e sua mãe... - respondi de forma breve tentando não encarar Kessi nos olhos, olhei para minha bota e fiquei assim por um bom tempo, Kessi nada disse, apenas encostou sua cabeça em meu ombro.
- "Ich Liebe Dich" - disse Kessi, aquilo me fez estremecer, meus olhos arregalaram e senti meu rosto queimar, suspirei e acenei com a cabeça para Kessi, dei um beijo em sua testa, ela ergueu os olhos para mim e sorriu.
Ficamos horas assim, o grupinho que jogava cartas se levantou e saiu ás gargalhadas pela noite á fora, me deu saudades dos velhs tempos em que me encontrava com a antiga turma, nos reuníamos na estação do metrô e ficavamos a madrugada inteira bebendo e jogando.
A turma estava sumida, não os via fazia um mês, Klaus outro dia foi lá em casa me procurar, demos uma volta pela rua e depois ficamos no meu quarto conversando e rindo, relembrando nossos episódios pela rua...
Klaus era meu melhor amigo desdos 15 anos, estudamos juntos e ele sempre esteve comigo, nas melhores e nas piores horas, sempre um ombro em que pude chorar, chegamos até ficarmos um tempo juntos, não demos muito certo, até hoje não entendemos muito porque, mas a amizade era PERFEITA. O bom foi que depois que tudo acabou o que restou foi o sentimento de irmandade, éramos como irmãos. Kessi tinha um pouco de ciúmes de Klaus...
- Vamos lá pra casa? Agora? - perguntou Kessi depois de algum tempo, a encarei de modo sério - mamãe está viajando... Não se preocupe - apressou-se em dizer.
Fiquei calada durante vários segundos e não respondi, meu silencio deixou Kessi atordoada e anciosa. A pergunta que borbulhava dentro de mim era: "Será que eu conseguiria me controlar?" A resposta não veio á minha cabeça e eu lancei esse desafio á mim: ficar perto de Kessi e aceitar as coisas do jeito que elas são...
- Claro, por que não? Amanhã não precisamos acordar mesmo - dei um sorriso sincero para ela.
Já passava das 4h da madrugada, pegamos o metrô até a casa de Kessi, demoramos uns 20 minutos para chegar lá. Cruzamos a porta de entrada, Kessi tirou seu enorme casaco preto e pendurou no cabideiro, o apartamento aonde ela morava com sua mãe era bastante confortável e espaçoso.
Fomos até a cozinha prepara algo para comer, tinha um pouco de cerveja preta no congelador, tiramos uma garrafa e dividimos no bico. Caminhamos até o quarto de Kessi, nos sentamos no tapete encostadas na parede, tirei meu casaco, minha blusa, a calça jeans, ficando apenas de calçinha e sutiã. Kessi fez a mesma coisa.
Procurei não prestar tanta atenção nas curvas de seus seios perfeitos e de sua cintura fina, ela deitou em meu colo e dividimos um cigarro, ela começou a mexer no pingente em forma de meia-lua de minha gargantilha preta. Comecei a afagar seus cabelos longos e macios enquanto conversávamos.
De repente o sono nos invadiu, deitamos na cama, viramos uma de frente para a outra, nos encaramos por alguns momentos e sussurrei um 'boa noite' para ela. Fiquei algum tempo olhando Kessi dormir e depois de algumas horas, peguei no sono...