quarta-feira, 2 de junho de 2010
14 -Voltando á estaca Zero
Senti meu estômago remexer e um gosto de bile na minha boca, me segurei para não vomitar; o corpo de Klaus estava coberto por um plástico preto bem diante dos meus olhos. Fiquei perplexa, não conseguia me mexer e nem falar nada, a fisgada no meu coração voltou a doer.
As pessoas cochichavam entre si ao meu redor mas não consegui entender o que diziam, o policial continuava á fazer anotações em sua prancheta de madeira. Klaus...? Não estava acontecendo nada daquilo, fechei os olhos e preferi pensar que tudo aquilo não passava de um sonho e que Klaus estava lá dentro do estúdio, me esperando voltar com um sorriso no rosto e um cigarro de cereja pendurado na boca. Como ele sempre estivera...
(....)
Acordava durante as noites e olhava para o lado á procura de Klaus, ele ainda não havia voltado e meu corpo anciava pelo dele, me levantava e olhava pela janela e depois custava á pegar no sono novamente, ás vezes passava noites em claro... Esperando uma pessoa que não ia voltar.
Vários clientes de Klaus vieram me visitar durante a semana e saberem como eu estava, essa era a pergunta: Como você está? Apenas dava um leve sorriso e dizia : "Vou melhorar..." Yurika vinha várias vezes na semana, me fazia compania e ficávamos a tarde inteira conversando...
- Eu... Prefiro acreditar que Klaus não morreu... - comentei dando um leve gole na caneca de chá quente que ela havia preparado para nós duas, em uma tarde fria no fim da semana. - Acho que... é a única forma de não encarar a realidade, prefiro pensar que ele está viajando e que um dia vai cruzar aquela porta com um sorriso nos lábios, cabelos atrapalhados pelo vento e barba por fazer e de braços abertos em um abraço...
Chorei, como nunca havia chorado... Pela primeira vez chorei a morte de Klaus, já fazia duas semanas que ele havia morrido e desde então não chorara a morte dele, não acreditava, não aceitava que aquilo estava acontecendo.
Yurika me abraçou, me abraçou bem forte e retribui seu abraço me sentindo um pouco confortável, chorei, desesperei, sem ter vergonha de está chorando na frente de uma pessoa que não conhecia tão bem assim... Ela entendeu perfeitamente e ficou em silêncio, sem palavras do tipo : "Ele era uma boa pessoa" ou "Foi porque Deus quis", palavras que pessoas te dizem para consolar em momentos como esse mas que na verdade não resolvem nada.
Descarreguei toda minha tristeza daquelas duas semanas ali, com Yurika, a realidade estava vindo agora, e já era hora de aceitar que Klaus não retornaria, que eu nunca veria aquele sorriso novamente, nem ouviria sua risada nem sentiria sua boca na minha, e tudo aquilo me doía, me fazia falta e eu não conseguia aceitar o fato de não ter dito EU TE AMO quando pude...
Até hoje, a imagem dele sorrindo, meu nó na garganta em dizer essas palavras á ele ficam em minha cabeça e me assombram á noite... Digamos que não entrei em depressão, mas decaí bastante. Fumei mais cigarros por dia voltando ao velho hábito de comprar mais os de menta do que os de cereja. Voltei á beber e passar minhas noites na estação de metrô , sentada no hall de entrada.
Diversas vezes me perguntei: E agora? O que será de você "L"? Você tinha uma vida que julgava quase perfeita, um homem ao seu lado que te amava e te apoiava, um trabalho de que gostava, uma casa, planos futuros, e agora... Tudo havia evaporado como a chuva da calçada e eu estava novamente perdida no mundo, como me encontrei antes de rever Klaus...