domingo, 23 de maio de 2010

7 - Espelho....


Na saida da escola, uma multidão de estudante se empurravam para passar e irem embora para suas casas, era mais um fim de semana. "Por onde andará a Babsi?", essa pergunta não saia de minha cabeça por todo o trajedo da escola até minha casa.

A última vez que vira Babsi (a garota dos cabelos cor-de-rosa chicletes) estava totalmente pálida, magra e com os olhos fundos. As más linguas da escola diziam que Basi andava se prostituindo na Estação Central e que estava totalmente dependente das drogas.

Lembro de Babsi nas noitadas; era uma garota ousada, não tinha medo de se arriscar e pra ela , não existia o meio termo: era TUDO ou NADA. Admirava a personalidade de Babsi, o jeito dela de encarar as coisas, porém, discordávamos em vários pontos.

Sempre caminhava em passos largos e olhando ao meu redor, com as mãos no bolso da blusa de frio. As folhas das árvores estavam caídas na calça e quando pisei em cima delas, estas estalaram.

Me sentei em um banco da praça, debaixo daquelas árvores secas. O tempo estava meio frio e o céu nublado, crianças agasalhadas corriam no centro da praçinha. Nunca liguei realmente para crianças, mas uma delas me chamou atenção; uma garotinha loira, cabelos curtos até o queixo, sardas salpicadas em seu rosto branco, corria de um lado para o outro brincando com seu enorme labrador.

Fiquei observando-a durante alguns minutos, ela se virou e olhou para mim, mais uma coisa nela me chamou a atenção; seus olhos eram exatamente da cor dos meus, um verde da cor das folhas de outono. Ela ficou me encarando e abriu um largo sorriso para mim. Sorri para ela e acenei; ela era exatamento igual á mim quando eu era pequena (de idade, porque pequena eu sou até hoje).

A garotinha veio correndo em minha direção e o enorme labrador corria e latia atrás dela, ela parou na minha frente. Olhei para ela, bem nos olhos, era como se tivesse me olhando no reflexo de um espelho.

- Como você se chama? - perguntou a menina quebrando os breves segundos de silencio entre nós.

- Me chamo "L" - respondi sorrindo para ela.

- Que legal! Seu nome é a primeira letra do meu... - disse a garota sorrindo também, a sinceridade em seu sorriso era clara.

- E você? Como se chama? - perguntei.

- Laysla - respondeu a garotinha me encarando - seus olhos - ela se aproximou mais de mim e colocou a mão em meu rosto - são iguais aos meus!

Acenei com a cabeça e sorri mais uma vez, convidei Laysla para se sentar ao meu lado, a garota concordou com a cabeça e se sentou perto de mim, o labrador subiu no banco e ficou deitado ao lado de Laysla.

- Como seu cachorro se chama, Laysla? - perguntei apon tado para o labrador que ofegava.

- Bill - Laysla sorriu e passou a mão no pelo cor de creme do cachorro, Bill deu um latido e lambeu o rosto da dona.

Foi uma cena engraçada de se observar, uma garotinha de mais ou menos uns cinco anos de idade sentado ao lado de uma jovem (no caso eu) de 18 anos e um cachorro labrador deitado no banco da praça.

Laysla era EXATAMENTE igual á mim quando tinha sua idade, e não era só na aparencia, no jeito de conversar também me fazendo lembrar de minha infância, coisa que eu sempre procurava esquecer...

Ficamos conversando um bom tempo, Laysla tinha seis anos e faria sete em fevereiro (exatamente no mesmo dia em que eu completaria dezenove; 16 de fevereiro), morava com seus pais em uma casa perto daquela praça, tinha uma irmã e um irmão mais velho. Gostava muito de cachorros e adorava vim na praçinha brincar.

Por várias vezes, Laysla insistia em perguntar sobre minha vida, eu apenas ria e falava:

- Sou mais conhecida como "L", tenho 18 anos, farei 19 no mesmo dia que você, tenho dois irmãos mais velhos e moro em uma casa perto da Estação do metrô! Não há mais nada a se falar sobre mim...

- Mas você não se chama "L" - insistiu Laysla franzindo o cenho - qual o seu nome de verdade?

Eu ri, ri bem alto, o que fez Laysla arregalar os olhos.

- A verdade é que não falo o meu nome - disse passando a mão pelos cabelos lisos e macios da menina - só meus irmãos e um amigo meu sabem.

- Fala pra mim - os olhos de Laysla brilhavam e a expressão no rosto dela era de anciedade. Finalmente me deixei por vencer.

- Okay, mas é segredo viu? - cheguei minha boca perto do ouvido de Laysla e sussurrei meu nome para ela. A garota sorriu e disse:

- Sei nome é lindo! Mas pode deixar, não vou contar á ninguém. É uma promessa...

Uma mulher alta, loira, cabelos longos e ondulados estava á alguns metros de nós, ela chamava por Laysla, a garota se levantou e saiu correndo em direção á mulher, virou para trás e gritou:

- Foi bom te conhecer, "L"!

Acenei para Laysla que foi ao encontro da mãe que a recebeu com um abraço calorouso, Bill, o labrador corria atrás das duas fazendo farfalhar as folhas secas no chão. Olhei para o Sol que se punha no horizonte pintando o céu de rosa, a noite logo cairia como um veludo negro...