terça-feira, 18 de maio de 2010

6 - Cicatrizes...

Durante a semana depois daquele fim de semana, comecei a frequentar a casa de Klaus novamente, sempre que voltava da escola passava a tarde lá e só voltava á noite (isso quando voltava) bem de tardinha...

Nem sempre ficávamos, na maioria das vezes conversávamos sobre tudo; sobre o curto tempo que ficamos sem nos vermos, contei á ele sobre Kessi e minha atração por ela e sobre a confusão dentro de mim:

- Ah, você sabe, eu não sou de ninguém, e como sempre, não sei o que quero e muito menos o que to sentindo... - comentei com Klaus em uma quarta-feira á tarde, estava sentada na com as pernas jogadas no braço da poltrona do quarto de Klaus dando uma tragana no cigarro de palha. Klaus apenas riu como sempre me respondeu com uma voz calma:

- Eu não entendo sua atração por mulheres, sinceramente. Você nem sabe ao certo quando surgiu né?

Naquele momento, apenas dei de ombros, mas a pergunta de Klaus martelou em mim cabeça o resto da semana, de vez em quando me pegava pensando no assunto enquanto estava sentada no chão de madeira do quarto olhando pela janela o movimento da rua, comendo uma barra enorme de chocolate de canela.

Kessi não apareceu durante a semana, ela telefonou outro dia e parecia bastante irritada por causa da última sexta, "Volto quando puder, não me procure nem tão cedo" (qual parte do NÃO ME PROCURE NEM TÃO CEDO ela não entendeu?) dizia o bilhete que rabisquei pra Kessi na manhã do dia seguinte.

Era meu jeito; sumir do nada e aparecer mais do nada ainda. Kessi odiava isso, mas era meu jeito...

Continuei indo até a estação de metrô todos os dias, nos fins da tarde, na maioria das vezes ia com Klaus, porém não encontrava ninguém conhecido. Nunca mais vi o fotógrafo e com o passar dos dias sua imagem foi sumindo de minha mente.

- A galera sumiu mesmo - comentei com Klaus enquanto caminhávamos até minha casa no final da tarde.

- Uhum - respondeu Klaus olhando para mim, amava o jeito dele andar, sempre com as mãos no bolso, um cigarro na boca e fones no ouvido. Fiquei nas pontas dos pés e roubei o cigarro da boca de Klaus e dei um trago - Outro dia encontrei com Rudy, estava sentado em um dos bancos daquela praça do outro lado da Estação. Ele tava muito magro e o braço cheio de picadas.

Já esperava isso de Rudy, desda época em que saíamos juntos ele já se drogava. Um dia era maconha, no outro heroína e aos poucos Rudy ia se acabando. Ele não era o único da turma, Axel, Stella, Babsi e Kurt também, eu nunca havia mexido com esse tipo de coisa.

Era algo irônico, uma garota totalmente perdida no mundo como eu nunca havia mexido com isso. Klaus também não, nós viamos o quanto nossos amigos iam para o fundo do poço por causa disso. Minha vida podia ser fora do comum, mas não seria por causa das drogas, não precisava disso.

Quando chegamos em frente minha casa, parei na entrada, tirei as chaves do bolso e destranquei a porta, Atlze estava sentada em sua habitual poltrona preta e rasgada de frente para a televisão. Klaus se dava relativamente bem com meus irmãos, não era de fato uma relação de amizade.

Meus irmãos nunca tiveram um espírito protetor comigo e nunca reclamaram do fato de chegar altas horas da madrugada, mesmo porque eles quase não ficam em casa. Atlze e Detlef trabalhavam durante o dia e no fim da tarde iam em casa e saiam, a rotina deles é essa á cinco anos. Nunca trabalhei e como são meus irmãos que bancam a maioria das despesas, acho que não pretendo trabalhar nem tão cedo.

Subimos até o quarto (sotão) e ficamos lá, como sempre. Já havia uns dois dias que não ficava com Klaus. Quanto á Kessi não voltei á procurá-la depois de seu telefonema e na maioria das vezes, até pensava em aparecer na escola dela, mas a idéia se dispersava de minha cabeça como o vento na copa das árvores.

Antes daquela sexta, só sabia pensar em Kessi e não nego o quanto ela é atraente para mim, mas agora não á via mais como um "objeto" de desejo, era como se fosse mais uma de minhas amigas (tudo bem que tinha um sentimento especial por ela, mas já não era tão forte assim). É, essa é a "L" no campo amoroso, um dia gosta muito de uma pessoa, mas se aparecer algéum mais interessante, ela esquece muito fácil. Depois de minha "volta" aos velhos tempos com Klaus não sentia mais tanta falta assim de ficar com garotas.

O tempo estava meio frio e o céu totalmente cinza, com certeza iria chover... Adorava tempos de chuva. Uma pilha de livros estava em cima da minha cama, com lápis, cadernos e folhas de provas espalhadas pelo chão.

Me joguei na cama enquanto Klaus se sentou na poltrona do meu quarto, fiquei olhando para o teto, um dos meus cadernos estava em cima da mesa de cabeceira, Klaus o pegou e sua boca se mexeu dando um leve sorriso.

- Sabe... Não vou mais procurar a Kessi - eu disse de repente me levantando em um salto e caminhando em direção á Klaus. Me sentei no colo dele me ajeitando perfeitamente em seu corpo.

- Ela tem pais que se preocupam com ela, tem uma escola boa, amigos normais, um apartamento ótimo, futuro garantido e eu só estragaria a vida dela... Ela tem a vida que... - parei, senti um pequeno ardor nos olhos, percebi que ia chorar, virei o rosto, detestava que as pessoas me vissem chorando, mesmo que essa pessoa fosse Klaus, mais era tarde demais, Klaus já havia visto, me puxou para mais perto dele e eu deitei a cabeça em seu peito - Ah... Esquece! - não conseguia conter as lágrimas, elas já rolavam pelo meu rosto.

- Não há vergonha nenhuma em chorar "L" - disse Klaus, sua voz era doce e me dava conforto, me apertei mais aind anele e deixei as lágrimas rolarem, fiquei assim, não disse uma palavra, Klaus também nada disse, ele entendia perfeitamente que nesses momentos o silêncio me fazia bem.

Adormeci assim, no colo de Klaus, enquanto dormia, senti um balançar. um colchão macio e cobertas quentes em meu corpo, olhei pelo canto do olho e vi que estava em minha cama, olhei pela janela, o céu estava totalmente escuro sem nenhuma estrela.

Klaus dormia sentado na poltrona de frente para minha cama. Me levantei, cutuquei Klaus acordando-o meio assustado, fiz sinal de silêncio para ele, sorri, puxei sua mão e o conduzi até minha cama.

Nos deitamos e ele começou a mexer em meus cabelos (adorava quando ele fazia isso), olhei novamente em seus olhos iluminados pela luz fraca do abajour e ele sorriu para mim, dando um beijo em minha testa, dormirmos logo em seguida.

No dia seguinte não fui á escola, dormi até tarde e passei o resto da manhã no meu quarto enrolada em minhas mantas, fumando meu cigarro e tomando meu café. Klaus foi trabalhar, tinha um cliente ás 3h da tarde, mas disse que voltava á noite dormiria novamente lá em casa

O resto da semana foi a mesma coisa, ia pra escola de manhã, voltava á tarde para casa ou ia para a casa de Klaus. A escola era um lugar indiferente para mim, ia com uma certa frequência nas aulas (embora eu fiquei mais fora de sala do que dentro) e na maioria das vezes não prestava atenção no que os professores diziam, e dúvido que eles sabiam quem eu era. Eu não passava de um número na lista de chamada.

Babsi era minha amiga de escola, éramos de salas diferentes, mas passávamos os intervalos juntas, fumando no pátio da escola ou jogando baralho. Babsi também era da turma, tinhamos a mesma idade, apenas meses de diferença (eu era de Fevereiro e ela de Abril).

Fazia um mês que Babsi não ia na escola, já tive uns rolos doidos com ela enquanto estávamos chapas e nosssa amizade não passava de noitadas e porres. Mas eu gostava dela, estávamos no "mesmo barco"

Digamos que Babsi realmente fazia falta na escola e ás vezes até sentia falta da turma na madrugada. Éramos de escolas diferentes e alguns foram até expulsos e não faziam mais nada além de se drogarem e passarem as tardes nas ruas.

Na sexta fui á escola, procurei por Babsi mas não á encontrei, de longe avistei uma de suas amigas, e esta me disse que Babsi havia largado a escola. Meus olhos se arregalaram e a menina continuou andando até sua sala. Confesso que senti um tremendo vazio no peito, então era isso, eu estava sozinha na escola...