segunda-feira, 31 de maio de 2010

13 – Flores na calçada

Os dias com Klaus iam se tornando cada vez melhores e eu me sentia relativamente feliz ao lado dele, mas sabe quando você sente que está faltando alguma coisa? Pois é, era assim que eu me sentia. Desde que mudei para a casa de Klaus, não vi meus irmãos e muito menos recebi noticias deles, já não me importava com eles e duvido que eles estavam pouco se fudendo para mim... Eles já imaginavam onde eu estava.

Quanto á me sentir incompleta, eu realmente não sabia o que estava faltando, mais tarde, eu descobriria o que era. Eu tinha uma casa, um namorado que me amava e um trabalho que eu gostava, no final do ano, Klaus e eu estávamos planejando em viajar para Kiel e realizar o itém número seis da minha lista.

O itém três estava praticamente realizado, pra quem não lembra, era ter uma familia. Me sentia nova para ter filhos e não sabia ao certo se queria ter um, Klaus sonhava com uma menina, mas ter filhos não estava nos nossos planos pelo menos por uns cinco anos juntos, queríamos curtir a vida enquanto éramos jovens.

De fato não voltei mais á escola, e com o passar dos dias, a idéia de voltar me parecia totalmente absurda, Klaus insistia falando que devia pelo menos terminar o colegial, mas para quê? Não me fazia a menor falta.

- Você devia ir pelo menos para prestar contas, você parou de ir sem ao menos falar com a diretora ou fechar sua matricula... – comentou Klaus outro dia.

- Eu sei mas... – ficava totalmente sem justificativa para rebater com ele, como sempre, ele tinha razão em alguma coisa e isso me deixava irritada ás vezes. - Por que não vai lá amanhã? – disse Klaus rindo da minha cara de aborrecida.

- Okay Klaus, você venceu... – disse cedendo. – Eu vou lá amanhã falar com a diretora e fechar as ‘contas’.

Me virei para o lado terminando de dobrar as roupas que havia lavado na semana passada, de repente sinto uma mão em minha cintura me puxando e me beijando na boca. Como SEMPRE me entreguei á Klaus o abraçando fortemente contra meu corpo.

Caimos na cama rindo dando leves selinhos na boca de Klaus, a barba dele estava começando á crescer irritando levemente minha pele, amava quando ele deixava a barba crescer.

- Sabe o que a gente podia fazer amanhã depois que você voltasse da escola? – perguntou Klaus olhando profundamente para meus olhos.

- Hum... – disse após dá um beijo longo nele.

- Almoçar naquele restaurante Kartoffelhaus na Karl-Liebknecht-Straße, o que acha? – propos Klaus com um sorriso no rosto. Arregalei os olhos, aquele restaurante era super caro e a comida deliciosa, o que Klaus estava pretendendo?

- Mas... Lá é tão caro! – finalmente disse.

- Eu sei... Mas a ocasião é especial – disse Klaus de um jeito misterioso e com um ar um pouco romantico. Nunca liguei realmente para romantismo e nunca havia conhecido esse lado de Klaus... Bom, parece que eu ia ficar conhecendo amanhã.

Estava super anciosa para ver o que Klaus estava planejando amanhã, e tentei me lembrar qual seria o motivo para tudo aquilo, mas não me lembrei...Durante o dia, arrumei a casa, ajudei Klaus á organizar as coisas no estúdio e sai para comprar cigarros de cereja, como custavam mais caro, tentava fumar menos cigarros possiveis por dia, mas acabava que tinha que comprar um maço todos os dias.

Já tentei parar de fumar por várias vezes, mas como todos os viciados em drogas licitas, quanto mais cedo se começa, mais complicado é largar o vicio depois, e esse era meu caso, comecei aos 14 anos e desde então o máximo que fiquei sem fumar foram 6 meses. Mas todas as vezes que via meus amigos fumando, não resistia, tinha que dar um trago.

Cheguei em casa, o sol já estava se pondo e Klaus estava sentado em sua poltrona habitual, no quarto olhando pela janela, adquirira o mesmo hábito que eu com nossa convivencia. Cheguei, ascendi o cigarro e passei um para ele. O abracei por trás e fiquei assim com ele, por um tempo, depois me virei e o beijei na boca.

Passamos a noite juntos novamente, dessa vez, sem trocarmos uma palavra, senti um nó na garganta e uma vontade enorme de dizer EU TE AMO para Klaus, até então, nunca havia dito essas palavras para ele. Olhei para o rosto dele, como sempre, calmo e tranquilo, dei um sorriso mas ele não viu, não disse o que queria dizer, não importava, ainda não estava pronta para dizer isto á ele...

No dia seguinte, levantei cedo e tomei meu café, Klaus ainda dormia profundamente em nosso quarto, subi as escadas novamente, droga! Havia esquecido de pegar meu casaco; era mais um dia frio em Berlim. Antes de sair dei uma ultima olhada no rosto de Klaus, sorri. Desci as escadas correndo abri a porta e mergulhei no vento frio da manhã cortando meu rosto.

(...)

O falatório da diretora Schirmer parecia que nunca teria um fim, falava coisas que eu já estava cansada de saber, e não cansava de repetir sobre a importancia da minha permanencia na escola... “Okay, sei que é totalmente errado abandonar a escola em meu último ano de colegial diretora Shirmer...” pensei, claro que ouvi todos aqueles sermões calada, mas minha língua já estava coçando para dizer tudo o que estava pensando.

A voz dela foi me dando agonia e uma vontade enorme de pular pela janela em direção ao pátio da escola foi crescendo dentro de mim, olhava para todos os cantos da sala de menos para o rosto de sapo murcho dela.

- Então, srta. Schultz – dei uma discreta risada que pra minha sorte a diretora não ouviu, havia tempos que as pessoas não me tratavam pelo meu sobrenome e ouvi-lo novamente era engraçado. – Aqui estão os formulários para a srta preencher...

Peguei o maço de papéis, tinha umas oito páginas no minimo para eu preencher, pedi uma caneta e comecei a preenche-los ali mesmo...Demorei mais tempo do que pretendia para conseguir acertar as coisas, olhei no relógio da escrivaninha da diretora Shirmer, estava um pouco atrasada para meu almoço com Klaus e ficava cada vez mais ansiosa.

Quando finalmente terminei de preencher tudo, meus pulsos estavam doendo de tanto escrever, me levantei silenciosamente e sai da sala indo em direção ao pátio da escola. Minha vida naquele lugar passou com um filme em minha cabeça.

Respirar o ar da rua me fez me sentir melhor e toda aquela ansiedade havia passado, tomei o metrô e desci no centro da cidade rumo em direção ao Kartoffelhaus Restaurant, dei uma olhada nas mesas e não vi Klaus lá, estava atrasada fazia uma hora, onde será que Klaus estava?Me sentei em uma mesa perto da janela e fiquei olhando as pessoas passarem pela rua, o garçom veio me perguntar se eu aceitava alguma coisa, apenas sorri e disse : “Não, muito obrigada, estou esperando meu namorado, quando ele chegar, pediremos alguma coisa”, o homem concordou com a cabeça e se retirou me deixando sozinha com meus pensamentos.

Se passaram mais uma hora e nada de Klaus aparecer, aquela ansiedade que havia passado quando sai da sala da diretora tomou conta de mim novamente, sai do restaurante e fui até um telefone público em frente ao estabelecimento ligar para casa. O telefone chamou inúmeras vezes mas Klaus não atendeu, voltei para dentro do restaurante esperar mais algum tempo, uma enorme vontade de chorar invadiu meu peito. Senti uma fina lágrima brotar em meus olhos e rolar por minhas bochechas, limpei com as costas da mão, me levantei mais uma vez e fui embora.

Estava totalmente decepcionada com Klaus, andava desorientada pela rua sem ao menos ver as pessoas em minha frente, comecei a correr desesperada e chorar mais ainda. Não sabia para onde estava ainda, só queria fugir dali. Uma dor forte invadiu meu peito, o que era aquilo? A imagem de Klaus veio repentinamente em minha cabeça, olhei para o relógio da estação do metrô, o que aconteceu com Klaus?

Decidi voltar para casa e ver se ele estava lá, peguei o metrô e Klaus não saia de minha cabeça por todo o caminho, desci na estação perto de nossa casa, fui andando alguns quarteirões até avistar uma aglomeração de pessoas na rua faziam uma roda em volta de alguma coisa, fiquei na ponta dos pés para ver o que era.

Percebi que a confusão estava exatamente na porta do estúdio de Klaus.Senti um nó em minha garganta e novamente as lágrimas quiseram brotar de meus olhos, fui me apertando entre as pessoas até chegar no centro da roda, um policial fazia algumas anotações no papel, olhei para baixo, meus olhos não acreditavam no que eu via... Não... Não era aquilo que estava acontecendo, nada daquilo estava acontecendo comigo...

Meus olhos estavam emaranhados de lágrimas e a única coisa que consegui enxergar era um buquê de rosas ao lado de um corpo caído na calçada...

sábado, 29 de maio de 2010

Parte Dois





12 - Aquarianos também amam?




Sempre tive vontade de colocar um alargador de 8 mm na minha orelha esquerda. Quando completamos duas semanas juntos, Klaus me deu um alargador preto com uma estrela azul florescente no meio. Desde então, fui alargando aos poucos durante a semana, até que no dia que Klaus me entregou o presente, o buraco já estava no tamanho certo.

Os dias com Klaus eram maravilhos, ele me ensinou os oficios de tatuador e aos poucos fui aprendendo até ter minha primeira cliente; uma conhecida de Klaus de uns vinte anos que queria tatuar uma borboleta pequena no pescoço, eu era boa em desenhos e gostava de tatuagens.

Passava as tardes dormindo na cama de Klaus (que agora era NOSSA cama) ou tatuando as pessoas, de noite saíamos depois do trabalho e iamos em alguns barzinhos no centro da cidade, na volta, passavamos no parque e ficávamos lá, sentados conversando e olhando a lua.

Planejávamos nosso futuro (quem diria, "L" planejando o futuro), falávamos de nossos sonhos, nossas vontades... Nunca me abri TOTALMENTE com alguém, nem mesmo com Klaus, nunca falei sobre meus traumas ou sobre minhas fraquezas... (eu sou o tipo de pessoa que odiava se sentir vulnerável perante as outras, principalmente na frente de quem eu gostava muito), Klaus também nunca perguntou e nem mesmo tocou no assunto, ele sabia que eu fugia desse tipo de conversa.

Estava me dando bem nos ramo das tatuagens e nunca imaginei gostar tando do meu trabalho. Sim, esse era o MEU trabalho e eu finalmente tinha meu próprio dinheiro. Ajudava Klaus com as despesas da casa e o que sobrava, gastávamos nos bares e com cigarro, outro dia mesmo fumei um cigarro de cereja MARAVILHOSO (eu e minha paixão por cerejas) e desde então viciei nele deixando de lado o de menta.

Quando completei dois meses de tatuadora resolvi me tatuar, desde então me sentia um pouco insegura e sem jeito de tatuar meu próprio corpo. Fiz o símbolo do meu signo (aquário) no meu tornozelo esquerdo. Era uma tatuagem simples, mas gostei bastante.

Depois pedi á Klaus que tatuasse uma clave de si na minha nuca... Pensava seriamente em fazer várias tatuagens pelo meu corpo, mas particularmente não gostava muito de tatuagens grandes...

Klaus não possuia muitas tatuagens, umas cinco no máximo, todas elas em seu braço direito. Era o tipo de tatuador que não mostrava muito seu trabalho. Nossos clientes eram bem diversificados gente de todo tipo, geralmente Klaus atendia homens e eu as mulheres, tinhamos uma média de uns seis clientes por dia (tatuagens eram demoradas de se fazer).

Até hoje a tatuagem mais interessante que fiz foi em Yurika, uma garota oriental de cabelos negros e mexas roxas. Adora o estilo dela. Yurika era uma velha amiga de Klaus dos tempos da escola, era uma pessoa super simpática e meiga, já havia feito algumas tatuagens com Klaus, mas essa, ela quis fazer comigo; uma enorme gueixa envolta com cerejeiras em flor ocupando suas costas por inteiro. Foram precisas três seções para concluir a tatuagem, mas valeu á pena o esforço, o resultado foi mais que satisfatório.

Em um sábado de tarde, estava sentada na poltrona preferida de Klaus, com as pernas cruzadas, olhando pela janela o dia nublado, Klaus estava lá embaixo no estúdio tatuando um cliente e eu me distraia com meu cigarro de cereja.

Estava apenas de sutiã e uma calça comprida, o tornozelo á mostra com o simbolo de aquário... (duas ondinhas) fiquei olhando a tatuagem por horas e fiquei pensando no quanto me enquadrava nas caracteristicas aquarianas... E uma coisa que mais me perguntava todos os dias era: Aquarianos também amam?

Aquário não era o signo do amor, o amor era justamente um campo onde o aquariano se sentia desconfortável, aquarianos gostam de coisas exatas, da razão, e o amor era uma coisa não exata, fazendo-o se senti totalmente vulneravel (lembram-se uma vez que comentei que odiava me sentir vulnerável?)... Ás vezes me sentia uma pessoa totalmente incapaz de amar outra... Posso parecer totalmente confusa e perdida (não só pareço como sou né?) e amar, com certeza me deixaria MAIS confusa e perdida...

Klaus terminou a tatuagem e subiu até o quarto, estava totalmente cansado, tatuar exigia muita concentração, (não sabia como eu, uma pessoa tão distraída conseguia tatuar alguém), se jogou na cama e ficou respirando fundo.

Fazia um bom tempinho que eu e Klaus não faziamos amor, e aquele clima frio me deixava totalmente excitada, me aproximei da cama me sentando e fazendo com que Klaus encostasse em mim e comecei a massagear suas costas.

- Você tá tenso... - comentei apertando seus musculos.

- É... - respondeu Klaus dando um suspiro - cansou tatuar aquele dragão no Hans... Finalmente consegui terminar...

- E ai? Ele gostou? - perguntei sorrindo.

- Aham... Me dá um trago? - pediu Klaus, passei o cigarro pra ele e depois beijei seu pescoço fazendo-o estremecer. Todas as noites com Klaus eram maravilhosas e me sentia super-bem com ele, e muito bem disposta no dia seguinte.

- Te amo muito "L" - sussurrou Klaus em meu ouvido enquanto estávamos deitados, enrolados em lençóis bebendo uma garrafa de rum e fumando cigarros de cerejas...

Essa rotina durou umas duas semans... Até minha grande frustração...

11 - Se dando uma chance de ser Feliz....



Acabei ficando na casa de Laysla e fiquei conhecendo os pais da menina, foram super atenciosos e receptivos comigo. Imagino como deve ter sido estanho para eles chegar em casa após um longo dia de trabalho e se deparar com uma garota que eles nunca viram na vida conversando com sua filhinha de apenas seis anos.

Dormi no quarto de hospedes, o colchão era macio, os travesseiros fofos e a colcha quente, apesar de todo esse conforto não consegui dormir, meus pensamentos estavam á mil por hora. No dia seguinte acordei bem cedo, tomei um farto café da manhã, os pais de Laysla já haviam saido para o trabalho e me ofereci para levar a menina á escola.

- Seus pais foram muito legais comigo - comentei brevemente com Lasyla enquanto esperávamos o metrô. A escola de Laysla ficava no centro de Berlim.

Na volta, pequei o mesmo metrô e parei na Estação perto da casa de Klaus, ao invés de ir para casa, a rua estava cheia de pessoas apressadas indo para seus serviços. As portas do Estúdio de Tatuagem de Klaus já estavam abertas e estranhei de vê-las assim, logo de manhã cedo.

Olhei para o céu, apesar de está em tempos de chuva, o céu estava azul, sem nenhuma nuvem, respirei fundo e caminhei sorrindo até o estúdio, á medida que fui me aproximando, vi o vulto de Klaus mexendo em alguma coisa lá dentro.

Cruzei a porta, até então, Klaus não havia notado minha presença, dei um leve pigarro fazendo-o se virar com um movimento brusco. Nos encaramos em silêncio sem trocarmos uma palavra, se passaram alguns minutos e continuamos assim. Aquele silêncio de certo modo, me deixava constrangida e confesso que no momento que vi Klaus, meu coração disparou e todas as palavras de Laysla vieram em minha cabeça.

- É... Precisamos conversar... - decidi dizeralguma coisa, Klaus concordou com a cabeça sem tirar os olhos de mim. - Você tá muito ocupado?

Klaus olhou para os potes de tinta espalhados pela mesa, ficou mais alguns instantes em silêncio até que finalmente concluiu:

- Não... Tudo bem, não podemos adias essa conversa... - então, começou a juntar as tintas - Vamos dá uma volta?

Esperei Klaus arrumar as coisas e fechar o estúdio, saimos caminhando vagamente pela rua, como sempre.

- Aonde vamos? - perguntei olhando para ele.

- Pra onde você quiser - ele olhou para mim, me dando um sorriso, á quanto tempo não via ele sorrindo...

- Vamos naquele parque no centro de Berlim? Tá um dia lindo hoje...

Pegamos o metrô na Estação e em dentro de 15 minutos chegamos no centro, andamos mais uns quatro quarteirões até chegarmos na entrada do Parque. Apesar de ser meio de semana o
Volkspark Friedrichshain estava cheio, adoro ir em parques no meio de semana, particularmente em dia de Sol, deitar na grama verde, olhar as novens, sentir cheirinho de algodão doce e pipoca quentinha, o barulho das crianças correndo e brincando, aquele clima familia... (Esse era o lado frágil e sentimental da "L"... FAMILIA)

Segurei firmemente a mão de Klaus e nos sentamos debaixo de uma árvore na grama, de frente para o lago, deitei a cabeça no ombro dele, me sentia totalmente segura ao seu lado e era bom sentir isso novamente após dias sem vê-lo.

- Foi aqui que planejamos nossa lista - comentou Klaus me abraçando pelos ombros.

-É... - concordei - foi á três anos atrás... E sabe de uma coisa... Desde então minha vida não mudou muito de lá pra cá...

Klaus riu.

- A minha vida começou á mudar um pouco quando te conheci... E sabe de uma coisa "L"... - comentou Klaus olhando para o reflexo das árvores ao nosso redor no lago - eu nunca gostei de uma menina como gosto de você e... quando te conheci achei a achei super interessante, seu jeito de se mostrar independente, esse seu ar distante e distraido e sua maneira de encarar as coisas...

Eu ainda ficava ruborizada com as palavras de Klaus, e quando achei que ele havia me dito tudo naquela noite, estava totalmente enganada. Respirei fundo e olhei para ele, bem nos olhos, mais uma vez meu coração disparou e o beijei. Estava tudo decidido, eu ficaria com Klaus e me daria uma chance de ser feliz...

Comecei a planejar tudo em minha mente; largaria a escola, aprenderia a tatuar, ajudaria Klaus em seu trabalho, realizaria a maior parte dos iténs de minha lista ao lado dele e viveriamos felizes...

10 - Maturidade

"E esse itém faz parte da minha lista á três anos e ele é te fazer minha... Só minha e pra todo o sempre..." As palavras de Klaus ecoavam em minha mente e não saiam de minha cabeça por sequer um minuto; eu estava surtando.

Desda aquela noite não vi mais Klaus e sau de sua casa no domingo de manhã com a promessa que o procuraria com uma resposta. Ele apenas sorriu e acenou pra mim com um ar despreocupado porém ancioso.

Estava totalmente confusa em relação á meus sentimentos por Klaus. E confesso que na maioria das vezes me pegava sonhando acordada e me imaginando em uma casa com um enorme jardim na frente, deitada na grama de mãos dadas com ele em uma cidadizinha qualquer no interior da Alemanha.

Seria ótimo viver essa vida com Klaus e realizar todos os ités da minha lista ao lado dele... Mas ficava me perguntando se Klaus realmente é a pessoa certa pra mim... (se é que existe pessoa certa pra mim...)

O amor? O que era isso? Ainda me perguntava todos os dias sobre esse sentimento que as pessoas dizem sentir pelas outras e se era isso que sentia por Klaus. Não fazia a menor idéia que rumo minha vida tomaria daqui pra frente, mas sentia uma enorme necessidade de mudar as coisas...

Parei de ir á escola... Não tinha estômago para encarar os professores e não pretendia voltar nem tão cedo (ou talvez nunca...), passava os dias andando de metrô ou vagando pelas ruas do centro da cidade...

Voltei á praçinha onde encontrara Laysla pela primeira vez, sempre ir lá nos finais das tardes e ficava até o anoitecer... Em uma terça feira á tarde estava sentada tranquilamente, fumando meu cigarro de menta, olhando para o nada quando de repente sinto uma coisa molhada lambendo minha mão esquerda, era Bill, o cachorro de Laysla.

Brinquei com o enorme labrador e segundos depois Laysla apareceu na minha frente com um sorriso no rosto. A garota usava uma boina preta, vestido de manda comprida cor de creme e um casaco marrom.

- Oi "L" - disse a garota ainda sorrindo para mim - lembra de mim?

Concordei com a cabeça e sorri para ela, apaguei o cigarro na sola do meu all-star surrado e me levantei colocando as mãos no bolso do meu casaco (como de costume).

- Já té meio tarde... - comentou Laysla olhando o pontei do relógio da praçinha que marcava 7h da noite. Na verdade, 7h da noite era cedo pra mim (uma garota largada) mas não para uma garotinha como Laysla.

-Quer que te leve até em casa? - me ofereci de forma educada, Laysla balançou a cabeça indicando um "sim" e seguimos caminhando até uma rua cheia de casas com cercas baixas de madeira.

Durante o trajeto até a casa de Laysla fui conversando com a garota, achava engraçado o fato de conseguir manter umas conversa com uma menina bem mais nova que eu.

- Você parece meio distante "L"... - comentou Laysla repentinamente, olhei de relance para ela e vi que esta, me olhava de forma curiosa. Era como se estivesse tentando ler meus pensamentos e entrar em minha mente.

- Problemas... - respondi tentando demonstrar um pouco de indiferença.

- Que tipo de problemas? - perguntou Laysla.

- Pessoais... são problemas que sempre estiveram comigo, não me leve á mal, mas não quero falar sobre isso... - a imagem de Klaus veio em minha cabeça.

- Sabe o que eu acho "L"? - disse Laysla

- Hum?

- Eu não sei nada sobre você ou sobre sua vida, mas... Acho que você tem medo das pessoas te machucarem e tem medo de dá uma chance a si mesma de ser feliz...

De repente, a garotinha de seis anos deu lugar á uma mulher mais amadurecida, arregalei os olhos com as palavras de Laysla e lágrimas quiseram brotar de meus olhos. Chegamos em frente á uma casa grande, de dois andares no final da rua. Nada disse á Laysla quanto á suas palavras e nem as lágrimas rolaram por meu rosto.

- É aqui!- anunciu Laysla - vamos entrar?

Hesitei um pouco e abria boca para falar algo, mas senti a pequena mão da menina puxando a minha e me conduzindo para dentro da casa abrindo a porta de madeira com um estalo. O hall da casa era todo de tábua corrida com móveis luxuosos e uma enorme lareira acesa na sala de estar. Uma escada de madeira em espiral se encontrava ao lado do sofá.

Laysla continuou me puxando até a escada de madeira que levava até um corredor no andar de cima, as paredes eram repleta de fotos, provavelmente da familia. Amenina me levou até uma porta de mogno avermelhada no final do corredor.

Entrei no comodo onde era o quarto de Laysla; uma cortina cor de rosa-bebê cobria a janela que dava de frente para a rua, bonecas de porcelana de todos os jeitos e cores lotavam as prateleiras de madeira do quarto, a cama de Laysla era grande o suficiente para caber duas pessoas.

A menina pendurou seu casado e sua boina no cabideiro do quarto, fiz o mesmo com meu casaco de frio.

- Não tem ninguém em casa? - perguntei me sentando no tapete fofo do quarto.

- Tem a governanta, mamãe e papai devem chegar mais tarde - disse Laysla se sentando perto de mim.

Ficamos alguns breves minutos em silêncio, observava cada detalhe do quarto de Laysla, os ursos de pelúcia em cima da cama, o enorme guarda-roupa no canto do quarto,livros infantis em cima do criado...

- Quer chocolate quente? - ofereceu Laysla sorrindo.

- Eu... Adoraria! - aceitei meio sem jeito.

Laysla se levantou em um salto e desceu as escadas correndo, seus passos ecoavam pelo corredor da casa. Em dentro de cinco minutos, Laysla voltou trazendo duas canecas fumegantes de chocolate quente, aceitei uma e dei um gole sentindo o liquido quente descer por minha garganta.

-"L"... - chamou Laysla de mansinho, olhei para ela - Você... Gosta de alguém?

- Bom... - já não me assustava mais com as perguntas repentinas de Laysla, alias, esperava tudo dela agora - Eu não sei ao certo...

- Como assim? - perguntou a menina rindo.

- Na verdade... Gosto muito de uma pessoa... Muito mesmo... Mas...

- Mas o que?

- Tenho... Receio, não sei, não é isso, gosto muito dessa pessoas mas não sei se gosto do mesmo modo que ela gosta de mim - eu não acreditava que estava falando isso com Laysla, simplesmente saiu de minha boca sem eu perceber.

- E quem é essa pessoa?

- É... um amigo meu, o nome dele é Klaus - pronunciar o nome de Klaus me fez estremecer.

- Hum... - disse Laysla pensativa - E ele gosta MUITO de você?

Concordei com a cabeça, Laysla sorriu e completou:

- Então por que não dá uma chance pra ele?

Se fosse definir Laysla com uma palavra, essa palavra seria MATURIDADE, era inacreditável que essa menina falava essas coisas comigo, Laysla simplesmente havia dito tudo o que eu precisava ouvir. Sorri para ela mais uma vez e sussurrei um OBRIGADO...





domingo, 23 de maio de 2010

9 - Klaus...

Klaus Hermam nasceu em Hamburgo, se mudou com sua familia para Berlim quando tinha apenas quatro anos de idade. Klaus tinha uma irmã mais nova; Ilsa Hermann á queme ele era muito apegado.

Quando tinha 12 anos seus pais se separaram e Ilsa ficou com sua mãe enquando Klaus ficou com o pai, sua mãe voltou com sua irmã para Hamburgo e desde então, ele nunca mais as viu. A relação de Klaus com o pai não era das melhores, os dois viviam brigando por motivos idiotas, então, quando Klaus completou 16 anos, resolveu ir morar sozinho. Terminou o colegial e começou a mexer com tatuagens montando um estúdio mais tarde...

Até então, os relacionamentos amorosos de Klaus eram sempre os mesmos: garotinhas de escola que só queriam ficar com caras mais velhos. Perdeu a virgindade aos 15 com uma mulher mais velha que se prostituia na Estação Central de Berlim (como a maioria dos caras), bem no dia do seu aniversário (6 de fevereiro). Começou a fumar e beber, porém nunca mexeu com qualquer tipo de droga.

Certo dia, em um dos intervalos da escola, até então monotonos, Klaus vê uma gartoa que lhe chama atenção; não era uma deusa grega, era baixa, loira (como uma tipíca garota alemã) e olhos claros (aparentemente verdes). Ele nunca havia visto essa garota na escola.

Não foi dificil conversar com a novata, ela logo se juntou á turma de Klaus e a cada dia que passava, ela se tornava cada vez mais interessante para ele e a vontade de tê-la para ele era maior.

O forte de Klaus não era o amor, e aquele era seu ultimo ano na escola, enquanto era o primeiro dela. Os dias foram passando e outro problema surgiu para Klaus... A garota era bissexual, isso de fato, não era REALMENTE um problema para ele....

Klaus foi se aproximando da garota e com um ou dois porres, os dois ficaram amigos, amigos de verdade. O beijo demorou á sair, mas quando aconteceu, foi mágico, espetácular, e Klaus não conseguia parar de pensar nela por um segundo.

Embora os dois trocarem os "eu te amo", Klaus não sentia que dissera sobre todos os seus sentimentos com essas palavras, era muito mais que isso, era mais complexo, era uma obsceção pela garota largada que sempre usava uma gargantilha com pingente de meia lua e que atendia pelo nome de "L", mas qual era o nome dela? Isso ninguém sabia...

"L" era um total mistério para Klaus e isso a deixava cada vez mais atraente para ele, era um enigma que ele decifraria á qualquer custo. Com o passar dos dias, os dois foram ficando mais próximos, mais unidos, ficavam com frequência, não era um namoro, era mais um rolo... Certa vez "L" confidenciou á Klaus que era virgem e não havia tido muitos namoros desde então...

"- Um dia "L", vou te fazer mulher..." - disse Klaus á ela quando os dois voltavam para casa , a garota riu e concordou com a cabeça, aquilo havia se tornado uma promessa...

Klaus anciava por esse dia, até que ele chegou, "L" era a garota perfeita para ele, e o desejo de tê-la para sempre foi aumentando. A noite com "L" foi especial, era como se fosse a primeira vez para ele ( e literalmente a primeira vez para ela), era como se fossem um só.

Depois daquela noite, tudo ficou perfeito, mas com o passar dos dias, "L" parecia mais distante, até que os dois ficaram meses sem se ver. A vontade de ir atrás dela invadia Klaus, mas este perdia a coragem de tomar essa atitude com medo de parecer fraco e bobo apaixonado na frente da garota que ele achava mais foda.

"Será que aquele tempo que passamos juntos não significou nada para ela?" essa pergunta invadia a mente de Klaus todos as noites...

O reencontro aconteceu quando Klaus finalmente decide procurá-la, "L" parecia mais madora e cada vez mais bonita e sensual. Os dois conversaram a tarde inteira... Uma semana depois "L! aparece na casa de Klaus pedindo para que ele tatuasse duas cerejas em cada ombro dela. Neste dia, Klaus e "L" tiveram uma volta aos velhos tempos e desde então, os dois ficaram "juntos" novamente.

Da primeira vez que eles ficaram, Klaus não teve "coragem" de expor seus sentimentos para "L", mas dessa vez, ele não deixaria passar, falaria tudo o que sentia e tudo o que ele mais queria...

8 - Sentimentos...


Meu encontro com Laysla, a "volta" com Klaus, o sumiço de Basi e uma revira-volta com, Kessi, tudo isso me deixava anciosa fazendo os maços de cigarro dobrarem. Antes, fumava um maço por dia, agora eram dois, quando não tinha cigarro, comia chocolate ou tomava café.

Atlze e Detlef já quase não voltava para casa, quase nãos os via mais e as poucas vezes que nos viamos não trocávamos muitas palavras além de "Está acabando o açúcar" ou "Preciso de 20 marcos".Como meus irmãos e eu não cozinhávamos, eu sempre comia na rua ou na escola, Klaus sabia cozinhar e raras vezes ia em sua casa para almoçar.

Contei á Klaus sobre o episódio com Laysla, ele riu e disse:

- Que legal, minha "L" se sentiu uma garotinha novamente...

-Cala a boca Klaus! - mas eu não pude conter o riso, dei um tapa no braço dele fazendo um estalo, ficamos um tempo rindo e depois de nos 'recompormos', nos encaramos seriamente - Minha vida passou como um filme em minha cabeça e confesso que o que eu mais queria era poder viver aquilo tudo novamente... Foi dificil lembrar e não sentir saudades...

Estávamos sentados no para-peito da janela enorme do quarto de Klaus. O tempo estava nublado, era dias de chuva e o ar estava úmido. Me apertei mais em meu casaco preto até os joelhos e comecei a brincar com o pingente de minha gargantilha.

Ficamos em silêncio por alguns minutos, Klaus olhava para o nada com um ar pensativo, olhei para ele e fiquei tentando adivinhar no que ele estava pensando. Me identificava muito com ele, se fosse homem, com certeza seria como Klaus, o mesmo jeito de pensar e agir.

- Faz quanto tempo que você não fica com uma menina, "L"? - perguntou Klaus repentinamente.

- Ah... - disse depois de algum tempo pensando. - A ultima vez foi com Babsi naquela quinta á noite, você tava junto...

-Então faz uns dois meses né? - concluiu Klaus.

- Por ai... - disse de forma simples e não demonstrando importancia.

- Ainda tem vontade de ficar com Kessi?

- Já te falei sobre isso...

- A questão não é essa... - disse Klaus olhando seriamente para mim - Você querer e você fazer é diferente, o que quero dizer é se você gosta MESMO dela...

- Olha... - comecei á dizer, depois parei para pensar um pouco - gostar eu gosto, muito! Mas o melhor para ela, não me inclui...

Klaus riu.

- "L" o pedaço de mau caminho! - brincou ele. Senti meu rosto queimar e percebi que estava totalmente enrubrecida. Eram raras as vezes que ficava vermelha com Klaus...

Klaus olhou bem nos meus olhos, passou a mão pelo meu rosto e me encarou, me senti imobilizada. Seu rosto estava tão próximo do meu que conseguia sentir sua respiração... Sua boca estava á poucos centimetros da minha que podia beijá-lo. Esperei qualquer ação dele, fechei meus olhos, não beijava Klaus á algumas semanas...

Um gato miou na rua fazendo Klaus e eu nos afastarmos, o beijo não aconteceu, confesso que fiquei meio frustrada mas disfarcei com um pigarro. Me virei para o lado, o gato havia sumido e procurei algum objeto para focar e me distrair. De repente, sinto uma mão puxando meu rosto e uma lingua roçando na minha. Me entreguei totalmente ao beijo de Klaus. Um conforto e uma felicidade invadiu meu peito.

Minhas mãos percorreram as costas de Klaus até sua nuca, mexendo em seus cabelos, ele fez a mesma coisa comigo, mas com uma de suas mãos ficou em minha cintura. Klaus me carregou me tirando da janela e me levando até á poltrona do quarto, ele se sentou e me colocou em seu colo, ficamos nos beijando por um tempo. Quanto mais o beijava, mais anciava por ele.

O beijo foi diminuindo o ritmo até pararmos, nos encaramos por breves segundos e o abracei bem forte.

- Vou esquecer a Kessi - eu sussurrei com a cabeça deitada no ombro de Klaus, minha voz saiu meio falhada mas ele entendeu perfeitamente.

Klaus nada disse, apenas passou a mão em meus cabelos. Nos beijamos novamente, dessa vez por mais tempo, Klaus afastou meu rosto do seu, olhou no fundo dos meus olhos e disse:

- Vou fazer você esquecer a Kessi...

Dei um meio sorriso e voltei á beijá-lo, percebi que Klaus queria mais, então comecei a despi-lo, suas mãos grandes e firmes procuraram os botões de minha blusa desabotoando-os calmamente, já não me importava mais nada, mas sempre me culpava por ter essa conduta com Klaus; Sexo, ficadas e amizade.

Achava injusto "brincar" com os sentimentos das pessoas (embora já tenha feito isso por várias vezes), Klaus nunca se abriu comigo em relação á isso... Mas eu já imaginava... Sempre que ficávamos juntos, esse sentimento de culpa não importava, só queria aproveitar esses momentos com ele e eu estava sentindo falta disso, do seu corpo no meu e suas caricias...

Mais uma vez passamos a noite juntos, não tinhamos muito o que falar, então passamos a maior parte do tempo em silêncio ouvindo apenas o barulho dos carros na rua. Ficamos a noite inteira acordados, eu gostava do silêncio mas sentia que deviamos conversar e esclarecer as coisas, botar tudo á limpo, só assim me sentiria mais tranquila.

A expressão no rosto de Klaus era calma e serena, deitei no peito nu dele e me apertei em seu corpo fechando os olhos e sentindo um leve cheiro de menta misturado com canela. Cheiros LITERALMENTE me excitavam.

Klaus estendeu a mão pegando um maço de cigarro amassado em cima do criado, tinha apenas um cigarro, Klaus o colocou na boca e ascendeu, deu um trago e passou o cigarro para mim.

- Itém numero três - falou Klaus com uma voz entre risos.

- Hum... - eu ri e disse pensativa, não conseguia lembrar exatamente do itém numero três de minha lista - Não lembro...

- Então me fala o numero nove, o útimo da lista...

- Tocar violão... - respondi entre risos, Klaus deu uma gargalhada gostosa, ficamos rindo por um tempo - Mas é verdade... Me fala um seu então...

- Itém numero quatro então... Montar um estúdio de tatuagem no centro e ganhar muito dinheiro com isso.... - respondeu Klaus.

- Itém numero seis... Ir até Kiel para ver o mar e visitar minha cidade natal... Frankfurt...

Olhei para baixo, uma enorme angústia batem em meu peito, Klaus não notou, o que me deixou mais tranquila. A angustia foi embora quando Klaus abriu a boca para falar:

- Vamos tornar as coisas mais interessantes... Vou falar o item numero dois - arregalei os olhos, quanto mais próximo do um, mais importante aquele item era... Nem no dia que comentamos sobre nossa Lista de coisas á fazer antes de morrer, Klaus me revelou os itens próximos do um... Ele fez um ar de suspense ... - Ter uma familia...

A voz de Klaus falhou e vi seu rosto corar levemente, fiquei de frente para ele puxando o lençol me cobrindo até a altura dos seios.

- Sabe... esse é um dos iténs da minha lista também... se não me engano o itém três é esse - comentei pegando o cigarro da boca de Klaus.

- Mas o mais importante para mim, é o itém numero um... e ele tá aqui, na minha frente, um metro e cinquenta, cabelos loiros até o pescoço, olhos de cor indefinida, como as folhas do outono, seios fartos e cerejas tatuadas no ombro... - meu coração acelerou de forma descontrolada, encarei Klaus de maneira incrédula, antes que perguntasse alguma coisas, Klaus completou - e esse itém faz parte da minha lista á três anos e ele é te fazer minha... Só minha e pra todo o sempre....

A sinceridade no rosto de Klaus era evidente, o tempo parou ao meu redor, não conseguia pensar em mais nada. Fiquei totalmente perplexa e não disse nada, mexi minha boca mas o som não saiu.

Klaus se encostou na cabeceira da cama e continuou me olhando, o cigarro acabou e eu me sentia cada vez mais anciosa, ele parecia tranquilo e todo seguro de si, pelo o que conhecia de Klaus, deve ter sido dificil pra ele me dizer essas coisas...

Me lembrei da primeira vez que ficamos juntos pra valer, os motivos de não termos "dado certo" até hoje não foram esclarecidos na minha cabeça e eu procurava não pensar nesse assunto, mas ali, naquele momento não dava para fugir, embora minha vontade fosse de sair correndo e fingir que nada daquilo estava acontecendo. Esse não era o jeito "L" de resolver as coisas...

- Eu preciso... Pensar nas coisas e em tudo o que tá acontecendo na minha vida - foi o que finalmente consegui dizer tentando não olhar nos olhos de Klaus...


7 - Espelho....


Na saida da escola, uma multidão de estudante se empurravam para passar e irem embora para suas casas, era mais um fim de semana. "Por onde andará a Babsi?", essa pergunta não saia de minha cabeça por todo o trajedo da escola até minha casa.

A última vez que vira Babsi (a garota dos cabelos cor-de-rosa chicletes) estava totalmente pálida, magra e com os olhos fundos. As más linguas da escola diziam que Basi andava se prostituindo na Estação Central e que estava totalmente dependente das drogas.

Lembro de Babsi nas noitadas; era uma garota ousada, não tinha medo de se arriscar e pra ela , não existia o meio termo: era TUDO ou NADA. Admirava a personalidade de Babsi, o jeito dela de encarar as coisas, porém, discordávamos em vários pontos.

Sempre caminhava em passos largos e olhando ao meu redor, com as mãos no bolso da blusa de frio. As folhas das árvores estavam caídas na calça e quando pisei em cima delas, estas estalaram.

Me sentei em um banco da praça, debaixo daquelas árvores secas. O tempo estava meio frio e o céu nublado, crianças agasalhadas corriam no centro da praçinha. Nunca liguei realmente para crianças, mas uma delas me chamou atenção; uma garotinha loira, cabelos curtos até o queixo, sardas salpicadas em seu rosto branco, corria de um lado para o outro brincando com seu enorme labrador.

Fiquei observando-a durante alguns minutos, ela se virou e olhou para mim, mais uma coisa nela me chamou a atenção; seus olhos eram exatamente da cor dos meus, um verde da cor das folhas de outono. Ela ficou me encarando e abriu um largo sorriso para mim. Sorri para ela e acenei; ela era exatamento igual á mim quando eu era pequena (de idade, porque pequena eu sou até hoje).

A garotinha veio correndo em minha direção e o enorme labrador corria e latia atrás dela, ela parou na minha frente. Olhei para ela, bem nos olhos, era como se tivesse me olhando no reflexo de um espelho.

- Como você se chama? - perguntou a menina quebrando os breves segundos de silencio entre nós.

- Me chamo "L" - respondi sorrindo para ela.

- Que legal! Seu nome é a primeira letra do meu... - disse a garota sorrindo também, a sinceridade em seu sorriso era clara.

- E você? Como se chama? - perguntei.

- Laysla - respondeu a garotinha me encarando - seus olhos - ela se aproximou mais de mim e colocou a mão em meu rosto - são iguais aos meus!

Acenei com a cabeça e sorri mais uma vez, convidei Laysla para se sentar ao meu lado, a garota concordou com a cabeça e se sentou perto de mim, o labrador subiu no banco e ficou deitado ao lado de Laysla.

- Como seu cachorro se chama, Laysla? - perguntei apon tado para o labrador que ofegava.

- Bill - Laysla sorriu e passou a mão no pelo cor de creme do cachorro, Bill deu um latido e lambeu o rosto da dona.

Foi uma cena engraçada de se observar, uma garotinha de mais ou menos uns cinco anos de idade sentado ao lado de uma jovem (no caso eu) de 18 anos e um cachorro labrador deitado no banco da praça.

Laysla era EXATAMENTE igual á mim quando tinha sua idade, e não era só na aparencia, no jeito de conversar também me fazendo lembrar de minha infância, coisa que eu sempre procurava esquecer...

Ficamos conversando um bom tempo, Laysla tinha seis anos e faria sete em fevereiro (exatamente no mesmo dia em que eu completaria dezenove; 16 de fevereiro), morava com seus pais em uma casa perto daquela praça, tinha uma irmã e um irmão mais velho. Gostava muito de cachorros e adorava vim na praçinha brincar.

Por várias vezes, Laysla insistia em perguntar sobre minha vida, eu apenas ria e falava:

- Sou mais conhecida como "L", tenho 18 anos, farei 19 no mesmo dia que você, tenho dois irmãos mais velhos e moro em uma casa perto da Estação do metrô! Não há mais nada a se falar sobre mim...

- Mas você não se chama "L" - insistiu Laysla franzindo o cenho - qual o seu nome de verdade?

Eu ri, ri bem alto, o que fez Laysla arregalar os olhos.

- A verdade é que não falo o meu nome - disse passando a mão pelos cabelos lisos e macios da menina - só meus irmãos e um amigo meu sabem.

- Fala pra mim - os olhos de Laysla brilhavam e a expressão no rosto dela era de anciedade. Finalmente me deixei por vencer.

- Okay, mas é segredo viu? - cheguei minha boca perto do ouvido de Laysla e sussurrei meu nome para ela. A garota sorriu e disse:

- Sei nome é lindo! Mas pode deixar, não vou contar á ninguém. É uma promessa...

Uma mulher alta, loira, cabelos longos e ondulados estava á alguns metros de nós, ela chamava por Laysla, a garota se levantou e saiu correndo em direção á mulher, virou para trás e gritou:

- Foi bom te conhecer, "L"!

Acenei para Laysla que foi ao encontro da mãe que a recebeu com um abraço calorouso, Bill, o labrador corria atrás das duas fazendo farfalhar as folhas secas no chão. Olhei para o Sol que se punha no horizonte pintando o céu de rosa, a noite logo cairia como um veludo negro...


terça-feira, 18 de maio de 2010

6 - Cicatrizes...

Durante a semana depois daquele fim de semana, comecei a frequentar a casa de Klaus novamente, sempre que voltava da escola passava a tarde lá e só voltava á noite (isso quando voltava) bem de tardinha...

Nem sempre ficávamos, na maioria das vezes conversávamos sobre tudo; sobre o curto tempo que ficamos sem nos vermos, contei á ele sobre Kessi e minha atração por ela e sobre a confusão dentro de mim:

- Ah, você sabe, eu não sou de ninguém, e como sempre, não sei o que quero e muito menos o que to sentindo... - comentei com Klaus em uma quarta-feira á tarde, estava sentada na com as pernas jogadas no braço da poltrona do quarto de Klaus dando uma tragana no cigarro de palha. Klaus apenas riu como sempre me respondeu com uma voz calma:

- Eu não entendo sua atração por mulheres, sinceramente. Você nem sabe ao certo quando surgiu né?

Naquele momento, apenas dei de ombros, mas a pergunta de Klaus martelou em mim cabeça o resto da semana, de vez em quando me pegava pensando no assunto enquanto estava sentada no chão de madeira do quarto olhando pela janela o movimento da rua, comendo uma barra enorme de chocolate de canela.

Kessi não apareceu durante a semana, ela telefonou outro dia e parecia bastante irritada por causa da última sexta, "Volto quando puder, não me procure nem tão cedo" (qual parte do NÃO ME PROCURE NEM TÃO CEDO ela não entendeu?) dizia o bilhete que rabisquei pra Kessi na manhã do dia seguinte.

Era meu jeito; sumir do nada e aparecer mais do nada ainda. Kessi odiava isso, mas era meu jeito...

Continuei indo até a estação de metrô todos os dias, nos fins da tarde, na maioria das vezes ia com Klaus, porém não encontrava ninguém conhecido. Nunca mais vi o fotógrafo e com o passar dos dias sua imagem foi sumindo de minha mente.

- A galera sumiu mesmo - comentei com Klaus enquanto caminhávamos até minha casa no final da tarde.

- Uhum - respondeu Klaus olhando para mim, amava o jeito dele andar, sempre com as mãos no bolso, um cigarro na boca e fones no ouvido. Fiquei nas pontas dos pés e roubei o cigarro da boca de Klaus e dei um trago - Outro dia encontrei com Rudy, estava sentado em um dos bancos daquela praça do outro lado da Estação. Ele tava muito magro e o braço cheio de picadas.

Já esperava isso de Rudy, desda época em que saíamos juntos ele já se drogava. Um dia era maconha, no outro heroína e aos poucos Rudy ia se acabando. Ele não era o único da turma, Axel, Stella, Babsi e Kurt também, eu nunca havia mexido com esse tipo de coisa.

Era algo irônico, uma garota totalmente perdida no mundo como eu nunca havia mexido com isso. Klaus também não, nós viamos o quanto nossos amigos iam para o fundo do poço por causa disso. Minha vida podia ser fora do comum, mas não seria por causa das drogas, não precisava disso.

Quando chegamos em frente minha casa, parei na entrada, tirei as chaves do bolso e destranquei a porta, Atlze estava sentada em sua habitual poltrona preta e rasgada de frente para a televisão. Klaus se dava relativamente bem com meus irmãos, não era de fato uma relação de amizade.

Meus irmãos nunca tiveram um espírito protetor comigo e nunca reclamaram do fato de chegar altas horas da madrugada, mesmo porque eles quase não ficam em casa. Atlze e Detlef trabalhavam durante o dia e no fim da tarde iam em casa e saiam, a rotina deles é essa á cinco anos. Nunca trabalhei e como são meus irmãos que bancam a maioria das despesas, acho que não pretendo trabalhar nem tão cedo.

Subimos até o quarto (sotão) e ficamos lá, como sempre. Já havia uns dois dias que não ficava com Klaus. Quanto á Kessi não voltei á procurá-la depois de seu telefonema e na maioria das vezes, até pensava em aparecer na escola dela, mas a idéia se dispersava de minha cabeça como o vento na copa das árvores.

Antes daquela sexta, só sabia pensar em Kessi e não nego o quanto ela é atraente para mim, mas agora não á via mais como um "objeto" de desejo, era como se fosse mais uma de minhas amigas (tudo bem que tinha um sentimento especial por ela, mas já não era tão forte assim). É, essa é a "L" no campo amoroso, um dia gosta muito de uma pessoa, mas se aparecer algéum mais interessante, ela esquece muito fácil. Depois de minha "volta" aos velhos tempos com Klaus não sentia mais tanta falta assim de ficar com garotas.

O tempo estava meio frio e o céu totalmente cinza, com certeza iria chover... Adorava tempos de chuva. Uma pilha de livros estava em cima da minha cama, com lápis, cadernos e folhas de provas espalhadas pelo chão.

Me joguei na cama enquanto Klaus se sentou na poltrona do meu quarto, fiquei olhando para o teto, um dos meus cadernos estava em cima da mesa de cabeceira, Klaus o pegou e sua boca se mexeu dando um leve sorriso.

- Sabe... Não vou mais procurar a Kessi - eu disse de repente me levantando em um salto e caminhando em direção á Klaus. Me sentei no colo dele me ajeitando perfeitamente em seu corpo.

- Ela tem pais que se preocupam com ela, tem uma escola boa, amigos normais, um apartamento ótimo, futuro garantido e eu só estragaria a vida dela... Ela tem a vida que... - parei, senti um pequeno ardor nos olhos, percebi que ia chorar, virei o rosto, detestava que as pessoas me vissem chorando, mesmo que essa pessoa fosse Klaus, mais era tarde demais, Klaus já havia visto, me puxou para mais perto dele e eu deitei a cabeça em seu peito - Ah... Esquece! - não conseguia conter as lágrimas, elas já rolavam pelo meu rosto.

- Não há vergonha nenhuma em chorar "L" - disse Klaus, sua voz era doce e me dava conforto, me apertei mais aind anele e deixei as lágrimas rolarem, fiquei assim, não disse uma palavra, Klaus também nada disse, ele entendia perfeitamente que nesses momentos o silêncio me fazia bem.

Adormeci assim, no colo de Klaus, enquanto dormia, senti um balançar. um colchão macio e cobertas quentes em meu corpo, olhei pelo canto do olho e vi que estava em minha cama, olhei pela janela, o céu estava totalmente escuro sem nenhuma estrela.

Klaus dormia sentado na poltrona de frente para minha cama. Me levantei, cutuquei Klaus acordando-o meio assustado, fiz sinal de silêncio para ele, sorri, puxei sua mão e o conduzi até minha cama.

Nos deitamos e ele começou a mexer em meus cabelos (adorava quando ele fazia isso), olhei novamente em seus olhos iluminados pela luz fraca do abajour e ele sorriu para mim, dando um beijo em minha testa, dormirmos logo em seguida.

No dia seguinte não fui á escola, dormi até tarde e passei o resto da manhã no meu quarto enrolada em minhas mantas, fumando meu cigarro e tomando meu café. Klaus foi trabalhar, tinha um cliente ás 3h da tarde, mas disse que voltava á noite dormiria novamente lá em casa

O resto da semana foi a mesma coisa, ia pra escola de manhã, voltava á tarde para casa ou ia para a casa de Klaus. A escola era um lugar indiferente para mim, ia com uma certa frequência nas aulas (embora eu fiquei mais fora de sala do que dentro) e na maioria das vezes não prestava atenção no que os professores diziam, e dúvido que eles sabiam quem eu era. Eu não passava de um número na lista de chamada.

Babsi era minha amiga de escola, éramos de salas diferentes, mas passávamos os intervalos juntas, fumando no pátio da escola ou jogando baralho. Babsi também era da turma, tinhamos a mesma idade, apenas meses de diferença (eu era de Fevereiro e ela de Abril).

Fazia um mês que Babsi não ia na escola, já tive uns rolos doidos com ela enquanto estávamos chapas e nosssa amizade não passava de noitadas e porres. Mas eu gostava dela, estávamos no "mesmo barco"

Digamos que Babsi realmente fazia falta na escola e ás vezes até sentia falta da turma na madrugada. Éramos de escolas diferentes e alguns foram até expulsos e não faziam mais nada além de se drogarem e passarem as tardes nas ruas.

Na sexta fui á escola, procurei por Babsi mas não á encontrei, de longe avistei uma de suas amigas, e esta me disse que Babsi havia largado a escola. Meus olhos se arregalaram e a menina continuou andando até sua sala. Confesso que senti um tremendo vazio no peito, então era isso, eu estava sozinha na escola...







segunda-feira, 10 de maio de 2010

5 - Velhos Tempos....



- Você continua LITERALMENTE a mesma "L", com as mesmas manias - comentou Klaus beijando levemente meus lábios.

Eu estava encostada no peito nu dele, nossas roupas estavam espalhadas pelo chão do quarto de Klaus e a fumaça e o cheiro de cigarro de menta impregnava o ar, deixando o ambiente com um leve toque familiar...

Fazia meses e meses desda última vez que me deitei com Klaus, não faziamos amor á um bom tempo. Foi como se tudo aquilo fosse novo, Klaus me fez me sentir mulher novamente, coisa que não sentia á um bom tempo.

De alguma forma aquele momento me fez me lembrar da minha primeira vez (que foi com Klaus). Estávamos juntos fazia uns 6 meses, e ele nunca havia tocado no assunto. Claro que vontades sempre surgiam naqueles beijos mais quentes...

Era um fim de tarde de Outono, lembro que caia uma chuva gostosa e matamos aula no dia para ficarmos juntos. Klaus me chamou para ficarmos de boa na casa dele, fazia alguns meses que ele estava morando sozinho. Fomos pára lá, subimos até o quarto dele como de costume, já havia ficado sozinha com ele DIVERSAS vezes e nunca aconteceu nada.

Esse dia foi diferente, Klaus estava mais carinhoso comigo, não que ele estivesse planejando alguma coisa, foi algo totalmente expontaneo, foi incrível, MÁGICO, um dos melhores dias da minha vida.

Depois da primeira vez, faziamos toda semana, duas ou três vezes, se bobeasse todos os dias. Cada vez ia ficando mais e mais Perfeito. Aquele momento com Klaus era único, era como se fossemos um só.

Eu estava revivendo aquilo novamente, embora Klaus tenha dito que continuo a mesma, havia algo diferente na "L" que nem eu mesma sabia explicar... (Claro, além das novas tatuagens de cereja).

Ouvir o coração de Klaus bater me tranquilizava, o som de sua respiração, o hálito do cigarro de menta (amava aquele cheiro, pra mim era a melhor coisa do mundo). Tudo aquilo me lembrava os velhos tempos...

E realmente, aquilo dava saudades, já tentamos voltar várias vezes, já tivemos enúmeras recaídas, ficávamos muito, mas era uma coisa que nem eu sabia explicar, muito menos Klaus. Amava Klaus como amigo e como irmão, gosava de ficar com ele, me sentia bem, confiava nele, estivemos juntos no inicio e estaremos até o final.

Continuamos deitados durant algum tempo, começou a escurecer e uma chuva fininha começou a cair (me lembrando mais ainda aquela tarde de Outono), me enrolei mais ainda nas cobertas de Klaus e ele me encolveu em seus braços. Olhei para os olhos azuis dele que vagavam pelo quarto, olhando a chuva cair pela janela de frente pra cama.

- Quer um café? - ofereceu Klaus voltando os olhos para mim e me dando um beijo na testa.

Concordei com a cabeça, ele se levantou, vestiu uma calça jeans e foi até a cozinha, sem blusa. Me levantei e fui até o guarda-roupa dele, procurando uma de suas blusas que tanto gostava de usar, peguei uma preta de manga comprida que vinha até minhas coxas, a gola ficava larga caindo deixando meu ombro á mostra.

Voltei para a cama, cruzei as pernas e puxei as cobertas até o queixo, Klaus entrou no quarto trazendo duas canecas de café e estendeu uma para mim, aceitei sorrindo. Klaus se sentou de frente para mim e ficou me observando enquanto levava á caneca á boca e tomava um gole, sorri novamente e perguntei:

- O que foi?

- Nada, tava só te olhando - Klaus respondeu de um modo meio sonhador e displicente - como sempre eu to te olhando...

Ficamos mais alguns minutos em silêncio apenas tomando o café, amarrei um pedaço do cabelo mas algumas mechas teimosas ficaram soltas. Klaus se aproximou de mim, colocou as mãos em volta de minha cintura e me beijou, minhas mãos percorreram seu pescoço, sua nuca, as orelhas, remexendo seus cabelos.

- Eu não entendo... - disse com uma voz baixa, quase um sussurro.

- O que? - perguntou Klaus.

- Por que a nossa história nunca tem um fim, sempre estamos juntos, ficamos novamente...

Klaus deu uma risada e depois deu um gole em sua caneca e passou a mão em meu rosto. Isso era uma pergunta sem resposta.

- "L", você pode ter crescido, mas para mim continua aquela mesma garotinha ingênua que quando a encontrei não era nem metade da mulher que é hoje...

Sorri de modo simples e puxei ele para perto de mim, deitando sua cabeça em meus seios, comecei a afagar seus cabelos pensando em tudo o que aconteceu. A chuva ainda caía branda e serena na rua , o céu já estava completamente escuro a luz tênue do Abajur de Klaus iluminava o quarto, eu só queria ficar assim com Klaus e não pensar em mais nada...

4 - Itém nº 5....

Acordei bem cedo no dia seguinte, Kessi ainda dormia profundamente ao meu lado, levantei e me vesti sem fazer barulho, fui até o banheiro, lavei o rosto , passei a mão nos cabelos e voltei até o quarto, Kessi ainda não havia acordado, rabisquei um bilhede rápido e deixem na beirada da mesa-de-cabeceira ao lado da cama de Kessi.

Fechei a porta sem fazer barulho, minhas botas estavam perto da porta de entrada do apartamento, calçei-as rapidamente e procurei as chaves da casa, destranquei a porta, abri sem fazer barulho, tranquei novamente e joguei a chave por baixo da porta.

Desci as escasas correndo e sai para a rua, o vento frio da manhã gelou meu rosto branco, andei até a estação do metrô. Klaus era tatuador e seu estúdio ficava á poucos metros dali, não estava muito á fim de voltar para casa, olhei no relógio da estação e o ponteiro marcava 8h da manhã.

Klaus com certeza ainda não havia aberto o estúdio, não havia problema, sua casa ficava nos fundos, iria lá assim mesmo, fui caminhando em direção á casa de com uns 10 minutos cheguei lá, toquei o interfone e uma voz totalmente embargada de sono atendeu:

- Oi? - era a voz de Klaus.

- Klaus! Aqui é a "L", abre ai pra mim... - eu disse com um tom de voz animada.

- Vem cá, to aqui nos fundos. - disse Klaus, e pelo som de sua voz, percebi que ele estava sorrindo.

A portinha ao lado do estúdio abriu com um estalido, empurrei e entrei, havia um longo corredor azul-escuro que dava para os fundos do estúdio onde Klaus morava.

Klaus era beeeem mais alto que eu (grande coisa!), moreno, olhos azuis, pele branca, uma barba meio mal feita, magro e possuia algumas tatuagens em seu braço direito e nas costas. Ele usava uma blusa de manga comprida e calça social marrom. Klaus sorriu ao me ver e estendeu seus braços magros em um abraço.

- Que surpresa te ver aqui tão cedo - a voz grossa e rouca de Klaus me tranquilizava, estava com saudades de ouvir essa voz, ele me deu a mão e me puxou para dentro da casa, estava totalmente bagunçada.

Klaus nunca foi um exemplo de organização, já fui em sua casa inúmeras vezes desde que ele se mudou para os fundos do estúdio e sempre estivera do mesmo jeito, cheio de roupas espalhadas pela casa, copos sujos, cinzeiros lotados de sobras de cigarro, e garrafas de cerveja empilhadas em um canto qualquer da sala.

-Ah, fui dormir na casa de Kessi ontem á noite e aproveitando que tava por perto, decidi ver um velho rosto amigo - disse de forma sorridente.

Klaus sorriu de volta e me indicou uma poltrona para me sentar, foi até a cozinha que imendava com a sala e trouxe duas canecas de café e um maço de cigarro. Aceitei uma das canecas, peguei um cigarro e ascendi.

- Você não muda mesmo "L" - comentou Klaus rindo. A propósito, Klaus é uma das poucas pessoas que conhece meu nome verdadeiro além de meus irmãos, ele nunca contou á ninguém de nossa turma e nem mesmo ousou me chamar pelo meu nome, embora ele insista em dizer que meu nome é lindo.

- Não mesmo, mas não sou mais aquela mesma garotinha que conheceu á três anos atrás...

- Não, mas você entendeu, velhos hábitos nunca mudam - respondeu Klaus, entendi perfeitamente do que ele falava, desde quando ele me conheceu, tenho uma mania de fumar cigarro e tomar um gole de café junto...

- Se lembra dos meus projetos de vida? Aquela tarde que os sentamos na rua no banco da praça vendo as folhas das árvores caírem e que comentamos sobre nossa "Lista de coisas a fazer antes de morrer?" - aquele dia veio em minha cabeça como um filme, isso fazia um ano mais ou menos. Lembro que minha lista tinha 9 itens e até hoje não realizei nenhum deles.

- Claro que lembro, estávamos mais chapados que tudo - Klaus riu - Pra variar - não deixei de rir com o comentário de Klaus.

- É... Mas o que eu disse era verdade! E eu vim aqui hoje, além de te ver e passarmos o resto do dia juntos, foi para realizar o itém número 5 da lista - comentei em tom sério.

Klaus abriu um sorriso enorme, pelo visto ele se lembrava do itém 5.

- Fico feliz que tenha me escolhido para realizar esse itém - disse Klaus de maneira sincera - Então... Vamos começar?

Eu me levantei e dei um abraço apertado em Klaus que me carregou, e começamos a rir juntos. A energia que Klaus emanava me deixava totalmente forte e segura, era por isso que gostava tanto dele... E gostava de ficar perto dele...

Terminei de tomar o meu café e fumar meu cigarro, Klaus foi lá dentro e buscou os instrumentos para fazer o "Itém nº 5". Tirei minha blusa, ficando apenas de sutiã, não tinha vergonha de Klaus, afinal nos conheciamos intimamente também.

- Vai ser aqui mesmo? - perguntou Klaus, Ok, eu e ele já não tinhamos mais nada fazia um bom tempo, mas Klaus não deixava de me olhar de forma desejosa, afinal ele era homem. Concordei com a cabeça, Klaus trabalhou a manhã inteira, quando foi dando o horário do almoço estávamos famintos. Fizemos uma pausa para o lanche e fomos até a cozinha preparar alguma coisa para a gente comer.

Depois de matarmos a fome, retornamos ao trabalho, enquanto Klaus trabalhava no "Item 5" não deixei de reparar em seu rosto concentrado no que fazia, ele franzia o cenho com força e de uma forma sensual, eu ri relembrando de algumas coisas, ele olhou para mim e perguntou do que eu tava rindo... "Nada", respondi segurando o riso, ele sorriu e continuou o trabalho, quando foi umas duas horas da tarde, ele terminou, parou e admirou sua arte.

-Modestia parte, não é porque foi trabalho meu, mas ficaram lindas em você, te deixaram mais sensual, mais gostosa! - comentou Klaus, eu ri e ele me entregou um espelho que ficava na gaveta da comoda da sala.

Olhei para meu reflexo, lá estava eu, com o sutiã preto, pouquissimas sardas perto dos seios fartos (sim, meus seios eram grandes), olhos esverdeados delineados com um lápis creon, gargantilha preta com um pingente de meia-lua, cabelos até o queixo desfiados e uma franja jogada de lado, meio loira. O itém nº 5 estava lá, pronto ; duas cerejas tatuadas em cada ombro, perto da alça do sutiã.

Sorri para minha imagem, meus olhos brilhavam ao ver as tatuagens, ficaram realmente lindas e perfeitas. Klaus tinha razão, as cerejas de fato, dava um ar de sensualidade; mistério e sensualidade, esses eram os significados das cerejas, e esse era o "Item nº 5" da minha lista.

Senti as mãos de Klaus me envolverem em um abraço, observei nossa imagem refletida no espelho, a cabeça de Klaus estava encostada em meu ombro, e seus cabelos lisos roçavam no meu pescoço, ele encarava nossa imagem com o mesmo ar pensativo que o meu.

Ergui minhas mãos e acariciei seus cabelos, ele deu uma fungada em meu pescoço me fazendo arrepiar da cabeça aos pés. Uma enorme saudade da época que ficamos juntos bateu em mim. Klaus era uma espécia de "rolo" meu, depois de termos terminado nosso compromisso sério, perdi as contas das vezes que ficamos por fora...

De fato, Klaus significava muita coisa para mim, foi com ele que perdi minha virgindade, que tomei os porres, ele que SEMPRE esteve comigo. Sempre ficávamos juntos depois das saídas, eu ia pra casa dele, passava a semana lá, faziamos amor a noite toda (e no dia seguinte também), não íamos á aula e ficavamos na casa dele , eu vestia uma de suas blusas que ficavam enorme em mim, e ficava assim o dia todo, era SÓ nós dois e mais ninguém...

Fumávamos, ele tocava violão para mim, enchiamos a cara, só ele me fazia me sentir especial, só ele me enlouquecia (em todos os sentidos)... Amor? Não sei se acredito nesse tipo de coisa ou se é isso que sinto/sentia por Klaus, só sei que curti á beça tudo o que vivi com ele e que sua companhia é fundamental para mim e não sei o que seria da minha vida sem ele...

- Sinto falta de tudo o que vivemos - a voz de Klaus ecoou em minha mente , seu sussurrou me fez extemecer novamente, tudo o que eu mais queria naquele momento era matar saudades dos velhos tempos... - Quando te vi sem blusa de novo, me veio uma vontade enorme de te ter novamente "L"... De te fazer só minha...

Me virei e Klaus beijos as cerejas em meu ombro, o lugar ainda estava meio vermelho.

- Só essa tarde - eu Sussurrei em seu ouvido...




sábado, 8 de maio de 2010

3 - As coisas como elas são...

O barulho de alguma coisa batendo na janela ecoou pelo quarto me fazendo dá um pulo da cama, acordei assustada, e meu coração batia de forma acelerada, caminhei apreensiva até a janela do sotão e olhei para a noite estrelada a procura do que podia ser o barulho.

Alguém na rua acenava para mim, agitando os dois braços de forma desesperada, quando vi uma cascata de cabelos vermelhos-cor-de-fogo, meu coração deu um solavando e parecia que sairia pela boca, era Kessi...

Abri a janela me debrucei no para-peito e sorri de orelha-á-orelha para ela, Kessi tinha os cabelos vermelhos compridos até a cintura, olhos verdes delineados com um lápis preto, seios fartos, cintura fina, usava uma calça jeans e um casaco preto. Kessi era linda, perfeita e minha melhor amiga.

Fazia algum tempo que não saíamos juntas, ou pra tomar um porre ou pra apenas sair na rua e sentar na calçada olhando estrelas, costumávamos fazer isso nas sextas-feiras á noite. Mas nos ultimos tempos Kessi estava de castigo, e eu morrendo de saudades dela.

Troquei de roupa rápido, arrumei meu cabelo, passei o lápis de olho habitual, calçei minha bota preta até os joelhos, vesti meu jeans, meu casaco de frio e sai pela porta tentando não fazer barulho.

O hall da casa estava escuro, provavelmente Atlze e Detlef haviam saído, dormindo, com certeza eles não estavam. Tranquei a porta do quarto, peguei as chaves de casa, cruzei a porta.

Kessi se aproximou de mim e me deu um abraço apertado, senti um cheiro de menta misturado com bergamota, adorava o perfume de bergamota que Kessi usava, era perfeito. Aquela mistura de aromas com uma pitada de cigarro e chicletes que ela habitualmente mascava.

- Garota, te procurei na estação hoje mais cedo mas nem te encontrei, estava na esperança de você está lá - disse com um sorriso radiante.

- Nem deu pra passar lá, aula... - disse Kessi de forma breve e sorridente. Já não chovia mais, porém a calçada continuava molhada.

- Onde vamos hoje? - perguntei.

- Ah... Em uma praça qualquer, o de sempre... - respondeu Kessi me cruzando seus dedos nos meus e assim fomos andando pela madrugada á fora.

Senti o cheiro de cigarro em Kessi e a vontade em fumar me veio novamente, foi ai que lembrei que meu maço havia acabado mesmo, pedi um cigarro á Kessi e ela me estendeu sua caixinha de cigarro azul-escura e me ofereceu seu esqueiro, ascendi e dei um longo trago soltando a fumaça no céu, que parecia um veludo coberto por pérolas brancas.

Passamos por dentro da estação do metrô, estava vazia, algumas pessoas cruzavam o hall de entrada da estação e embarcavam no metrô, depois de atravessarmos a estação, seguimos em frente em direção á uma pequena praça que existia proxima ao outro lado da estação, os postes de luz iluminavam o centro da praça, um grupo de pessoas estavam aglomerados em alguns bancos da praça, jogavam baralho e rodavam uma garrafa de amontila entre o grupinho.

Kessi e eu nos sentamos debaixo de uma árvore, a grama estava fria por causa do vento da noite, encostamos no tronco e ficamos de mãos dadas, bem próximas uma da outra. Ficamos um bom tempo sem nos falarmos, ouvindo apenas o barulho das pessoas conversando e os carros na rua. A madrugada era agitada.

- Senti sua falta durante a semana - disse encarando Kessi e olhando profundamente em seus olhos, eles brilhava, eu podia ver meu reflexo neles, Kessi sorriu e concordou com a cabeça, passou a mão pelos meus cabelos curtos e meio desgadanhados, raramente penteava cabelo. Seus dedos magros desembaraçavam as mechas loiras do meu cabelo e eu segurei sua mão de forma carinhosa.

Meu rosto estava tão próximo do seu que senti seu hálito de cigarro misturado com o chicletes de tuti-fruti, dei um abraço apertado nela e me senti totalmente aconchegada nele, sentia a maciez de seu corpo no meu e minha vontade era de ficar assim pra sempre com ela, era um carinho que eu sentia que eu nem mesma sabia explicar.

- Também senti sua falta "L" - finalmente Kessi disse alguma coisa, sua voz falhou - sinto falta de nossas madrugadas juntas, nossas risadas no meio da noite, de matar aula pra ficarmos juntas, quando vamos tomar um café naquela cafeteria da esquina, quando saímos tarde da noite para nos encontrarmos, quando estamos juntas com a galera, quando você vai lá pra casa... O que tá acontecendo com a gente? Por que estamos nos afastando tanto?

- Realmente não sei, tenho andado meio... Estranha e sozinha ultimamente - percebi que lágrimas saltavam dos olhos verdes de Kessi, de alguma forma aquilo deu um nó na garganta, e eu senti que devia algo á ela...

E de alguma forma devia... Eu havia prometido ir em sua casa durante a semana, não apareci, ela me ligou e eu não retornei e nem atendi... O que estava acontecendo? A unica coisa que pude fazer foi beijar seu rosto e lhe dá mais um abraço apertado.

-Me desculpe Kessi - disse com uma voz doce, sussurrando em seu ouvido - você sabe o quanto és importante pra mim, que você é minha melhor amiga, essa semana eu estava passando por problemas internos, e eu não sabia o que fazer, se não te procurei e nem te falei nada, foi pra não te preocupar...

Kessi me olhou novamente, ela sorriu de forma simples, concordou com a cabeça e eu ouvi um "desculpo" fraco que saiu de seus lábios vermelhos, o motivo que me fez afastar dela durante a semana veio á tona. O cheiro do perfume de Kessi penetrava minhas narinas junto com o cheiro do cigarro.

Tudo aquilo me deixava estremamente excitada e uma vontade enorme e quase incontrolável de beijar Kessi me veio á cabeça. Sim, Kessi era minha melhor amiga, e sim, eu estava apaixonada por ela... Não foi uma coisa de imediato, eu conhecia Kessi fazia uns 8 meses e nos tornamos tão intímas de uma forma muito rápida.

Nos conhecemos em uma dessas madrugadas á fora, Kessi é uma criança ainda, era dois anos mais nova que eu e estava descobrindo as coisas da vida, ela tinha muito o que aprender sobre a vida nas ruas e nas madrugadas...

Já me apaixonei por outras garotas (e garotos também...), já tive vários casos com elas, mas nenhuma dessas apaixonites foi igual ao o que sinto por Kessi. Me culpava todos os dias por gostar dela da forma que gostava, ela era uma criança aos meus olhos e não teria maturidade nenhuma em encarar esse problema de frente, não saberia lidar com isso... Afinal, não é todo dia que uma garota se declara pra você né?

Claro que ela não desconfiava de nada sobre meus sentimentos, achei que a solução para esquece-la seria me afastar dela, mas acabei magoando-a... E pensa nela todos os dias... Cheguei á ir em frente ao prédio onde ela mora umas duas vezes durante a semana depois da aula, me sentava na calçada e ficava lá... Durante horas...

Sempre que escutava o barulho de alguém chegando pegava minha mochila e saía correndo, na segunda vez (para minha má sorte) a mãe dela me viu, me encarou de forma ameaçadora, de fato ela não gostava MESMO de mim, atribuia totalmente á mim a culpa por Kessi ser do jeito que era. Os pais nunca encaram de frente o problema REAL de seus filhos aprontarem todas, chegarem tarde em casa, irem mal na escola, sempre foi um amigo que influenciou. O que nem sempre acontecia.

Depois do episódio com a mãe dela, não voltei mais, não telefonei e nem nada... Preferi fugir desse 'problema' á encará-lo de frente, mas de uma coisa eu estava convicta : não revelaria nada á Kessi sobre meus sentimentos.

Afastei Kessi de mim, ela me olhou de modo indagador, fingi não perceber a expressão no rosto dela e sua pele branca ficar levemente enrubrecida.

- Me desculpe Kessi, de verdade, além de estar passando por problemas internos, estive meio doente - menti, Kessi com certeza notou o tom de descaso em minha voz.

- Por que não me avisou? - perguntou de forma indignada - Eu dava um jeito de ir lá te ver.

- Não quero criar problemas entre você e sua mãe... - respondi de forma breve tentando não encarar Kessi nos olhos, olhei para minha bota e fiquei assim por um bom tempo, Kessi nada disse, apenas encostou sua cabeça em meu ombro.

- "Ich Liebe Dich" - disse Kessi, aquilo me fez estremecer, meus olhos arregalaram e senti meu rosto queimar, suspirei e acenei com a cabeça para Kessi, dei um beijo em sua testa, ela ergueu os olhos para mim e sorriu.

Ficamos horas assim, o grupinho que jogava cartas se levantou e saiu ás gargalhadas pela noite á fora, me deu saudades dos velhs tempos em que me encontrava com a antiga turma, nos reuníamos na estação do metrô e ficavamos a madrugada inteira bebendo e jogando.

A turma estava sumida, não os via fazia um mês, Klaus outro dia foi lá em casa me procurar, demos uma volta pela rua e depois ficamos no meu quarto conversando e rindo, relembrando nossos episódios pela rua...

Klaus era meu melhor amigo desdos 15 anos, estudamos juntos e ele sempre esteve comigo, nas melhores e nas piores horas, sempre um ombro em que pude chorar, chegamos até ficarmos um tempo juntos, não demos muito certo, até hoje não entendemos muito porque, mas a amizade era PERFEITA. O bom foi que depois que tudo acabou o que restou foi o sentimento de irmandade, éramos como irmãos. Kessi tinha um pouco de ciúmes de Klaus...

- Vamos lá pra casa? Agora? - perguntou Kessi depois de algum tempo, a encarei de modo sério - mamãe está viajando... Não se preocupe - apressou-se em dizer.

Fiquei calada durante vários segundos e não respondi, meu silencio deixou Kessi atordoada e anciosa. A pergunta que borbulhava dentro de mim era: "Será que eu conseguiria me controlar?" A resposta não veio á minha cabeça e eu lancei esse desafio á mim: ficar perto de Kessi e aceitar as coisas do jeito que elas são...

- Claro, por que não? Amanhã não precisamos acordar mesmo - dei um sorriso sincero para ela.

Já passava das 4h da madrugada, pegamos o metrô até a casa de Kessi, demoramos uns 20 minutos para chegar lá. Cruzamos a porta de entrada, Kessi tirou seu enorme casaco preto e pendurou no cabideiro, o apartamento aonde ela morava com sua mãe era bastante confortável e espaçoso.

Fomos até a cozinha prepara algo para comer, tinha um pouco de cerveja preta no congelador, tiramos uma garrafa e dividimos no bico. Caminhamos até o quarto de Kessi, nos sentamos no tapete encostadas na parede, tirei meu casaco, minha blusa, a calça jeans, ficando apenas de calçinha e sutiã. Kessi fez a mesma coisa.

Procurei não prestar tanta atenção nas curvas de seus seios perfeitos e de sua cintura fina, ela deitou em meu colo e dividimos um cigarro, ela começou a mexer no pingente em forma de meia-lua de minha gargantilha preta. Comecei a afagar seus cabelos longos e macios enquanto conversávamos.

De repente o sono nos invadiu, deitamos na cama, viramos uma de frente para a outra, nos encaramos por alguns momentos e sussurrei um 'boa noite' para ela. Fiquei algum tempo olhando Kessi dormir e depois de algumas horas, peguei no sono...









terça-feira, 4 de maio de 2010

2 - Chuva, Cigarro e Chocolate

Continuei andando vagamente pela rua enquanto a chuva caia de modo preguiçoso acumulando nas poças da calçada. Faltava poucos quarteirões até minha casa, minha roupa já estava enxarcada da chuva.

Parei a calçada de minha casa e me sentei ali, fodas se estava chuvendo e se eu ia pegar um resfriado (coisa que eu tinha com frequencia) e levar uma bronca dos meus dois irmãos mais velhos, já não me importava, olhava o movimento da rua vagamente, joguei o capuz do casaco na minha cabeça, me inrolei em minha mochila deitando a cabeça nela, e fiquei assim, por muito tempo... Não sei se passaram horas ou apenas minutos, só sei que fiquei em um transe hipnótico, acordei com uma batidinha de leve em meu ombro e a voz calma de meu irmão.

-"L", não vai entrar não? - perguntou Atlze de modo vago, ele tinha um aroma de canela e café.

Lancei um olhar meio vago para ele, ao redor dos meus olhos as olheiras eram profundas, acenei com a cabeça, levantei e acompanhei meu irmão do meio até a cozinha, meu cabelo tava todo molhado, minha roupa pingando e meu irmão mais velho estava sentado na mesa, tomando uma caneca de café e me encarava de modo sério.

O encarei por breves segundos antes de fazer mensão de subir as escadas que levavam até meu quarto, os degraus rangeram enquanto eu subia a escada, enxarcando a casa toda. Detlef, meu irmão mais velho, nada disse, apenas ficou me olhando subir as escadas, e resmungo algo para Atlze quando bati a porta do meu quarto.

Joguei a mochila em um canto qualquer do quarto, nem prestei atenção, tirei o casaco molhado, pendurei no cabideiro, a blusa preta e joguei por cima da mochila, o tenis e a calça jeans, deitei na cama, olhando pro teto, morrendo de vontade de ascender um cigarro e fumar uns 3 ou 4 direto. Pra passar a vontade do cigarro, lembrei que tinha uma barra de chocolate de pimenta na minha mochila, me sentei na cama, puxei a mochila, revirei os bolsos e lá estava a barra intacta que havia comprado antes de ir pra escola e me esqueci de comer.

Mordi um pedaço do chocolate, e em poucos minutos comi a barra inteira. A vontade de fumar havia passado, sabia que meus irmãos tinham cigarro, mas odiavam dividir o maço comigo, não que eu fumasse tudo, mas eles odiavam isso.

Sequei meus cabelos na toalha, vesti um moletom preto de frio, fiquei sentada no chão de madeira do quarto, olhando pela janela a chuva caindo lá fora... Amanhã é sábado e eu não precisava ir á escola.

E sim... Meu quarto era no sotão da casa


Parte um




1 - Apresentando "L", uma garota normal com manias diferentes

Os pingos de chuva batem em meu rosto enquanto corro, o metrô sai silencioso da estação como uma cobra gigante alastrando mato adentro, quando olho para trás ele já sumiu na curva. As pessoas passam por mim mas fingem que não me vê.

Chego á estação do metrô ofegante de tanto correr, a mochila pesada faz minhas costas doerem, olho ao meu redor procurando um rosto amigo. Não encontro ninguém, paro para respirar saindo do caminho das pessoas... Me encosto em uma parede de tijolos e afasto os cabelos de meu rosto.

Minhas mãos percorrem o bolso de meu casaco preto e surrado á procura do maço de cigarro de menta, finalmente o encontro, era o ultimo cigarro, atiro a caixa vazia em uma lixeira próxima, o esqueiro não pega.

De repente vejo uma mão estendendo um esqueiro novo para mim, olho de relance para a pessoa, era um jovem, alto, loiro (como um tipico alemão), olhos azuis e sorriso no rosto.

- Obrigada... - agradeço retribuindo o sorriso. Meus olhos percorrem o rapaz de cima á baixo. Ele possuia uma máquina fotográfica pendurada no pescoço.

- Por nada... - diz o rapaz, devolvo o esqueiro, dou uma tragada e solta a fumaça longe dele.

-Desculpe, não tenho nenhum cigarro para lhe oferecer, esse era o ultimo. - digo sem graça, arrumo a mochila nas costas, enfio as mãos no bolso, com o cigarro pendurado na boca, solto meus cabelos que estavam presos em um mini rabo-de-cavalo.

- Não tem problema... É... Qual seu nome? - pergunta o rapaz de um modo educada, por que diabos ele queria saber meu nome?

-Ah... Sou mais conhecida como "L", pelo menos todos me chamam assim... Quanto ao meu nome prefiro não comentar - respondo de forma breve, dando um leve sorriso.

- Eu sou o Dereck... Okay "L", se prefere ser chama assim... Para onde está indo? - pergunta Dereck de modo educado...

Toda aquela gentileza dele me deixava sem graça, achava estranho, a estação do metrô ao lado da minha casa era um dos lugares que eu mais frequentava, e nunca, nesse tempo todo que venho aqui alguém parava para conversar comigo.

- Estou voltando para casa, acabei de vim da escola. - respondi.

- Certo... Está chovendo... Mora aqui perto? - perguntou.

- Sim... Eu gosto de andar na chuva... - respondi de forma breve. - Então... A gente se vê por ai...

Sai andando sem ao menos ouvir o que ele resmungou, só ouvi um breve pedido de "Espere..." Mas não esperei, aquele rapaz era de uma certa forma, estranho... Estranho de uma forma boa e estranhamente familiar... Parecia que o conhecia de algum lugar.

Enquanto voltava para casa, meus pensamentos giravam em torno dele, não que eu realmente me interessasse facil por caras assim, alias, nenhum tipo de cara REALMENTE faz meu tipo, sou uma menina de 18 anos pronta para assumir quem eu sou, do que gosto e o que quero... Se eu ao menos soubesse o que realmente quero e o que realmente sou.

Todos me consideram uma garota perdida... Perdida no próprio mundo em que ela criou, não que eu viva nas nuvens, mas encarar o mundo de frente é uma idéia bastante assustadora para mim... Me dá medo... Aquele mesmo medo quando saimos de casa tarde da noite em uma noite de temporal... Hoje em dia isso não significa nada para mim.

Quem eu sou? Apenas uma garota de cabelos curtos, castanhos bem claros, olhos esverdeados, 1,50 de altura (okay, eu sou baixinha mesmo) e que vive enfiada em um jeans surrado, all-star sujo e blusas de cores escuras.

Minha personalidade? É algo que se torna bem complexo á medida que o tempo passa, e a coisa mais dificil do mundo é falar como sou... Sou apenas mais uma em um bilhão de pessoas, tento encontrar um sentido para todas as coisas que acontecem, tento viver minha vida de modo intenso e satisfatório, sempre em busca de novas sensações, novos amigos e novos lugares para se conhecer. Paixão realmente nunca foi meu forte, mas se rolar alguma quimica, eu deixo acontecer.

Não, não há mais nada á se falar sobre mim...