segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

33 - Liesel

O fato de Dereck ter mencionado meu nome me fez tremer da cabeça aos pés, as lágrimas penduradas em meus cilios começaram a rolar pelo meu rosto de forma descontrolada, e antes mesmo que eu pudesse perceber eu estava envolvida pelos braços musculosos de Dereck aos prantos. Para de chorar Liesel... uma voz em minha cabeça gritava desesperada comigo... percebi que era a voz de meu irmão... Atlze. Liesel... a voz de minha mãe me chamando enquanto eu corria na escada de casa, Liesel... A voz terna de meu pai vindo me abraçar... Liesel a voz de Klaus. Estava finalmente na hora de me assumir e parar de me esconder atrás de um codinome. Aquele era meu nome, o nome que minha mãe me dera e eu o usaria novamente.

Me apertei mais ainda aos braços de Dereck e finalmente as lágrimas pararam de escorrer, tudo ficaria bem, naqueles braços eu encontrava tudo aquilo que havia perdido durante um bom tempo de minha vida. Depois de um bom tempo juntos, nos separamos e eu caminhei até o guarda-roupa de Dereck roubando uma de suas blusas pretas e a vesti me cobrindo até os joelhos, caminhei até onde ele estava sentado com um olhar vago para mim e o abracei mais uma vez encostando levemente sua cabeça em meu peito afagando seus cabelos loiros carinhosamente. Encostei na beirada da cama com Dereck deitado sobre parte do meu corpo, sua cabeça ainda repousava sobre meu peito, peguei um maço de L.A e ascendi um cigarro, dei um leve trago com a fumaça doce inundando meus lábios, passei-o para Dereck.

Talvez ter esperado aquele tempo todo valesse á pena, cada segundo que passava meu coração se sentia mais confortado por ter Dereck ali bem na minha frente, dormindo feito um gatinho manhoso. Ficamos em silencio pelo resto da noite apenas trocando alguns cochichos e tragos de cigarro. Eu finalmente encontraria a minha paz, quanto maior a dor, maior o alivio.

Eu estava em extase, simplesmente não conseguia fechar o olho, eu não vou dormir pra não acordar e depois descobrir que tudo eu sonhei, aconteça o que acontecer estarei aqui sempre por você... Um sonho... Tudo aquilo parecia um sonho... E eu realmente não queria acordar. Estava tudo tão perfeito.

Nem me dei conta do que aconteceu, só sei que abri o olho e vi Dereck parado ao meu lado me contemplando com um sorriso no rosto e uma caneca de café na mão, então não era um sonho, ele realmente estava ali. Sorri para ele, me levantei um pouco para lhe dá um selinho de bom dia. Os raios de sol entravam pela cortina bege do quarto de Dereck iluminando parcialmente o quarto escuro, eu gostava daquela luz abafada pela cortina, dava um ar meio acochegante.

Ele me entregou a caneca de café e dei um gole, não trocamos muitas palavras, o silêncio era quebrado apenas pelo barulho da rua que começava a ficar movimentada. Eu nem sabia que horas iria voltar pro estúdio, se é que eu ia abri-lo hoje, não tinha nenhum cliente marcado. Quis encher Dereck de perguntas, mas meu cérebro ainda estava em momento de extase por causa das ultimas emoções, teriamos tempo de sobra para conversarmos sobre o que havia acontecido durante o tempo em que ele esteve fora. Olhei para ele, mantinha aquela mesma pose pomposa e aquele olhar fulminante, eu sorri de modo timido e passei a caneca de café para ele.

Ele desceu as escadas para pegar mais café, levantei, vesti minha roupa meio apressada e arrumei os cabelos levemente embaraçados, procurando um lápis creon em minha bolsa, fui até o banheiro do quarte de Dereck e retoquei a maquiagem levemente borrada. Eu gostava daquela aparencia meio rebelde... Meio L... Ops, quer dizer, Liesel. Quando fui até o quarto Dereck me aguardava sentado na cama fumando um cigarro de palha.

- Onde você pensa que vai? - perguntou ele dando uma leve risadinha sacarstica.

- Bom... Eu tenho que voltar pra minha casa uma hora ou outra, então resolvi ficar pronta já - eu disse enquanto guarda o lápis na bolsa.

- Hum... - Dereck disse pensativo dando um trago no cigarro e passando-o para mim. - Eu tenho que resolver umas coisas amanhã... Por que não passa o dia comigo e amanhã quando for olhar minhas coisas eu te deixo em casa.

Parecia uma oferta tentadora, mas não... Eu não ficaria mais um dia com ele, precisava de um tempo sozinha numa praça qualquer da cidade para pensar um pouco que rumo minha vida tomaria, minha cabeça estava totalmente revirada e eu precisava coloca-la em ordem (ou fugir).

- Não... Acho melhor não... Sabe onde eu moro... Aparece lá quando tiver vontade... Ou eu venho aqui quando tiver com as coisas no lugar... A gente ainda precisa conversar - disse essas palavras tentando não olhar para ele, mas eu podia perceber que ele me observava da cabeça aos pés. Peguei minha bolsa, entreguei o cigarro para ele e fui indo em direção á porta do quarto quando senti sua mão segurando a minha.

- Eu não vou á lugar algum, O.k? - disse Dereck sorrindo para mim, como se quisesse me tranquilizar. Eu nada disse, apenas acenei com a cabeça e desci as escadas em direção a porta de saída.

Quando a abri, um vento levemente frio passou pelo meus cabelos e refrescando meu rosto, eu fui caminhando para casa.




















Nota: Liesel se pronuncia Li-É-zel.

sábado, 11 de dezembro de 2010

32 - L...

Nada do que imaginei se igualava aquele momento... Nada, absolutamente nada se comparava ao que eu sentia ali... Todo aquele sentimento forte estava tomando conta de mim. Quando me dei conta, estava tirando a blusa dele e beijando loucamente o seu pescoço, arranhando carinhosamente suas costas. Opa, vamos com calma L... Muita coisa tinha que ser colocada á limpo, mas meus pensamentos não me controlavam, eu estava totalmente fora de mim.


Sua boca estava colada ao meu ouvido, dando leves mordidas em minha orelha, me fazendo arrepiar da cabeça aos pés... Suas mãos estavam por baixo da minha blusa fazendo menção de tira-la, levantei meus braços e ele a tirou encarando-me por poucos segundos. Me apertei mais uma vez ao corpo dele soltando um leve gemido. O senti bufando satisfeito em meu pescoço.

Se eu estava com muito tesão naquela hora, Dereck estava três vezes á mais do que eu, estava estampado na cara dele, e eu ria internamente com aquele jeito pomposo dele me acariciar e me beijar. Era como se ele fosse o melhor, como se ele quisesse se sentir o melhor, era um tanto exibicionista também... Mas era algo que me fascinava.

Todo aquele momento parecia magia e todo aquele sofrimento e angustia que sentia estavam indo embora a cada beijo que Dereck me dava... A raiva que senti por ele por ter me deixado esperando por tanto tempo também se dissipava em cada abraço apertado. Eu queria que o tempo parasse e que ficasse abraçada á Dereck para sempre... Todo o sempre.

Ele me jogou de forma carinhosa na cama se colocando em cima de mim me beijando loucamente, eu dava leves mordidas em seus lábios fazendo-o rir graciosamente. Era de uma certa forma DIVERTIDO brincar com ele. Ele fez menção de desabotoar meu sutiã, foi ai que me veio um pensamento á cabeça de : Opa, será que não estou sendo FÁCIL demais? Porra, L, você estava 'pronta' para dá uma bronca nele por esse tempo e já está indo para a cama com ele. Tudo bem que era o que você mais queria, mas... Não era pra ser tão facil assim. Por mais que eu tentasse, eu não conseguia pará-lo, minhas mãos não se moviam, só o prendiam ainda mais em mim. Ele pareceu perceber esse meu pensamento, era como se lesse minha mente, e no meio do caminho até meus seios ele os beijou e depois olhou para meu rosto.

- Não se preocupe, não está sendo tão facil assim... Você não sabe o quanto eu esperei por esse momento - ele se distancio de mim poucos milimetros e me deu um selinho carinhoso - mas se você acha que ainda não está no momento certo, podemos parar por aqui...

Eu tremi, não sabia o que responder naquela hora, será que ele não me desejava tão ardentemente quanto eu o desejava? Ele parecer perder totalmente o interesse por mim, será que fiz algo errado? Toda aquela felicidade que estava sentido estava indo pelo ralo aos poucos...

- Eu... É... - não conseguia emitir som algum

Ele se aproximou de mim lentamente como um gato astuto, deu uma risadinha e deu mais uma olhada em meu corpo, dei uma leve enrubrecida pois estava apenas de calcinha. Ficamos alguns minutos em silencio e Dereck se levantou da cama caminhando até a janela, deu uma olhada lá fora e depois se dirigiu até a comoda pegando um maço de cigarro de palha e dando um trago, passou o cigarro para mim mas recusei.

- Você não sabe o quanto estou me segurando para não ir até ai e te beijar e continuar o que estávamos fazendo, mas eu respeito e percebi que você estava meio insegura, por isso parei.
- ele me encarava de um modo sério que até arrepiei, a voz dele era calma e constante, sem alterar uma nota sequer... - Não pense que não é porque não sinto desejo por você, porque seu corpo, suas curvas me levam ao delirio... Eu só te respeito... - ele chegou mais perto e segurou meu rosto com suas mãos chegando sua boca próxima de meu ouvido - Eu te amo... Liesel... - meus olhos arregalaram e marejaram de lágrimas.

31 - Ele é seu

Fechei os olhos e quando os abri novamente estava na cama de Dereck deitada entre seus lençóis sentindo um cheiro de incenso. Me levantei em um pulo e o vi sentado em uma cadeira na beirada da janela olhando a rua lá fora, a lua se erguia bonita no céu iluminando a calçada.

- O que aconteceu? - perguntei com a voz falhando.

- Você desmaiou - respondeu Dereck com simplicidade.

Como? Eu abri a boca para perguntar mas não saiu som algum, fiz menção de levantar mas senti uma tonteira fora do comum que me fez cair na cama novamente, Dereck se levantou para me segurar, mas eu já estava caida, olhei para o teto do quarto de Dereck e minha cabeça rodopiou mais uma vez, parecia que eu estava de ressaca.

- Eu me rendo - levantei a mão e dei uma risadinha.

- Finalmente né... - Dereck se encaminhou até onde eu estava se agaichando na cama e se colocando em cima de mim, me encarando nos olhos. Eu arregalei os olhos de surpresa e ele deu uma risadinha.

Eu não podia mais respirar novamente, a tontura me veio e eu achei que ia desmaiar... Mas antes disso o rosto de Dereck estava bem próximo do meu que eu podia ouvir sua respiração acelerada, tava na cara que ele estava tão afoito quanto eu. Meu coração deu um solavanco e antes que eu pudesse fazer qualquer coisa, ele prendeu meus braços na cama e deu um leve sorriso. Seus lábios estavam próximos ao meu que não precisaria esforço nenhum para beijá-lo, continuei encarando-o sem piscar...

Virei a cara e encarei o braço dele me prendendo, não demorou muito para que uma das mãos dele me soltasse e segurasse meu rosto virado fazendo-me encara-lo novamente, em um movimento rápido, ele segurou meu braço na cama de novo e foi ai que aconteceu... Ele me beijou.

Foi um beijo que começou leve e foi se tornando rápido aos poucos, um desejo intenso me subiu e eu fiquei paralisada afroxando meu braço, ele me soltou e me puxou ainda me beijando. O abracei bem forte, uma mistura de sentimentos tomou conta de mim; desejo, luxuria, raiva, nervosismo... Eu o queria somente para mim...

Depois de muito tempo nosso beijo foi desascelerando e nos separamos um pouco corados de vergonha, dessa vez quem abaixou a cabeça foi ele, subi em seu colo e me sentei de frente para ele ainda o encarando. Ele levantou a cabeça e sorriu mais uma vez para mim. Passou a mão em minha nuca, foi percorrendo meu pescoço, segurou minha mão levando-a ao lado esquerdo de seu peito... Podia sentir o coração dele batendo.

- Ele é seu... Cuide bem dele, fumante de cigarros de cereja. - disse Dereck ainda sorrindo logo em seguida me beijando mais uma vez.

Dessa vez o abracei enquanto o beijava, e foi um beijo bem mais confortante do que o primeiro, nos beijamos por horas que pareciam apenas segundos... Eu não conseguia parar de beija-lo e segundo que passava o apertava em meu corpo e ele no dele.

Peguei a mão dele e a coloquei no lado esquerdo do meu peito como ele fez comigo, dei um sorriso sincero e repeti as palavras dele

- Ele é todo seu, e te esperou por muito tempo... Cuide bem dele... - ele sorriu com minhas palavras e voltou a me beijar com uma mão em minha nuca segurando meus cabelos curtos e outra em minha cintura me apertando...

Não, eu não queria dormir pra não acordar e descobrir que tudo aquilo eu sonhei... Não ia dormir nunca mais.

domingo, 31 de outubro de 2010

30 - Vulnerável

Esperei tanto por aquele momento e agora com ele diante de meus olhos, eu tremia e sentia vontade de fugir dali, correr pra bem longe e não aparecer nunca mais. Por que eu estava sempre fugindo das minhas oportunidades de ser feliz? Eu me detestava por isso, mas infelizmente eu tinha que admitir, a velha garotinha ingenua e medrosa estava voltando á tona e tomando conta de mim. Eu tinha que fazer alguma coisa antes que ela me dominasse por completo. Alguma coisa além de fumar um cigarro atrás do outro.


Fiquei parada por mais alguns minutos, até que uma subita coragem apossou-se do meu corpo me fazendo atravessar a rua, estender a mão e tocar a campainha do apartamento dele. Talvez tenha sido um ato total de insanidade pura, mas era o que uma garota foda faria. Arriscaria tudo.


Ele olhou pela janela e me viu parada lá em baixo, no momento em que nossos olhos se cruzaram senti um arrepio na pele , mas continuei a encara-lo. Ele não parecia nem um pouco surpreso ao me ver parada ali, na verdade, tinha um certo ar de presunção em seu rosto e aquele velho sorriso encantador brincando em seus lábios. Tentei não demonstrar nenhuma emoção ao vê-lo embora meus sentimentos estivessem queimando em meu coração. Continuei parada analisando suas expressões.



Ele sumiu, provavelmente estava descendo as escadas para abrir a porta, o barulho de seus passos ecoaram pelo corredor que levava até a porta de seu apartamento. Mil cenas passaram em minha cabeça, todas elas imaginadas por mim enquanto Dereck estava fora. Sonhava com aquele momento há muito tempo, e agora que ele estava ali, e a única vontade que senti não foi de abraça-lo, fiquei imóvel e ele me encarava com o mesmo ar presunçoso. Havia um brilho especial em seus olhos, um brilho que eu nunca havia notado antes.

- Olá... - disse ele erguendo uma das sobrancelhas.

Não respondi, continuei encarando-o com os olhos marejados de lágrimas, ele fez menção de vim me dá um abraçado, mas institivamente recuei um passo e os braços dele cairam em sua cintura. Vi seu rosto dá uma leve corada.

- O que foi L? O que você tem? Tá estranha... Estava com saudades de você - ele tentou sorrir mais uma vez, mas aquele sorriso não impedia que minhas lágrimas descessem pelo meu rosto. Ele tentou me abraçar mais uma vez mas não deixei, recuei e segurei suas mãos longe de mim, abaixei a cabeça. Ele lutou contra minhas mãos o segurando e me abraçou bem forte. Aquele velho cheiro me veio as narinas, permaneci imóvel, não conseguia nem respirar direito. Minha cabeça parecia que ia explodir, eu não conseguia nem lutar contra aquele abraço carinhoso e confortante, meus pés não se moviam e eu podia jurar que tremia. O que está acontecendo? Não podia ouvir mais nada além do sussurro 'Me desculpe' de Dereck.

Parte Três - Outono.


domingo, 26 de setembro de 2010

29 - Novamente Outono.

Era uma tarde movimentada de fim de dia em Berlim, as pessoas atropelavam umas as outras com pressa de chegar em casa, eu estava lá, parada, no meio da multidão. Meus olhos percorriam o céu rosado do por do sol. Ok, onde minha cabeça estava? Ah claro, na noite anterior em que cheguei novamente bêbada em casa e Yurika teve que cuidar de mim. Não me perguntem o que aconteceu pois não lembro de absolutamente NADA.

Não queria lembrar, não mesmo. Não aconteceu nada de mais, eu imagino, só o de sempre... Garotas... Me perguntava se eu estava tão desesperada assim por alguém... Foi ai que comecei a pensar novamente em Klaus e como as coisas seriam totalmente diferentes se ele estivesse aqui. Não adiantava me lamentar, eu teria que seguir sem ele... Mas a cada dia que passava eu percebia o quanto era dificil aguentar as coisas sem ele... Tomar um porre em noites por ai, vagar pelas ruas na madrugada, fumar quatro maços de cigarros e ficar com garotas... Nada daquilo preenchia o vazio que ele deixou em mim e muito menos eram a solução dos meus problemas. Eu não dormiria de noite e na manhã do dia seguinte tudo estaria resolvido, eu não acordaria e veria aquele velho sorriso amigável pra mim e aquelas mãos gentis acariciando o meu cabelo... Não... Não mesmo.

Do que eu tenho medo? Tenho medo de ser feliz? De arriscar e de mudar? As oportunidades estavam na frente do meu nariz e eu não enxergava-as... Não estava pronta para elas, eu não havia superado aquilo, não totalmente. Apenas superficialmente... Não adianta corrermos dos problemas, uma hora eles vão nos pegar. Eu não me importava, correria deles até me cansar.

Tudo aquilo passou por minha cabeça enquanto atravessava a rua para uma praçinha perto dali, tirei o velho maço de L.A de cereja do bolso e ascendi com um esqueiro velho. Dei um tragada e a fumaça doce inundou meus lábios... Deitei a cabeça no encosto do banco e fiquei assim por um tempo... Me esquecendo totalmente das horas e de tudo ao meu redor. Jurava que dormi por alguns minutos e acordei com um cutucão no ombro, olhei assustada e vi a imagem de Yurika parada ao meu lado.

- Dormindo na praça? Você já chegou nesse estágio ou está apenas revivendo o passado? - a japonesa brincou dando uma leve risada descontraida.

Sorri.

- Talvez os dois. - respondi vagamente.

- Eu não sei se foi ilusão minha... Mas vi um rosto conhecido á poucos metros daqui. - comentou Yurika vagamente tentando se lembrar de algo. Na hora não entendi o que ela quis dizer com isso... Mas depois a ficha caiu... Não, não podia ser... Isso não estava acontecendo... Minhas mãos começaram a suar frio, eu fiquei totalmente pálida e senti um leve aperto no coração... Olhei para as árvores ao meu redor... Era Outono novamente.

Sai correndo deixando Yurika para trás, ela gritou meu nome, mas não olhei para trás, continuei correndo sem olhar para onde ia, meus pés simplesmente me levaram até a rua do apartamento de Dereck... Meus olhos se arregalaram, eu estava totalmente anciosa... Cai de joelhos no chão... Uma única luz iluminava a rua.. Era a luz tênue da sala de Dereck...

quinta-feira, 22 de julho de 2010

28 - Frustrações

Muito, muito, muito tempo se passou desde que Dereck se fora... Meu aniversário de 19 anos foi comemorado em um rock bar no centro de Berlim, digamos que não foi muito o que eu esperava, mas foi bom.

Yurika e eu nos divertimos a noite inteira, bebemos muito, fumamos muitos cigarros, rimos até, fazia tempos que não enchia tanto a cara a ponto de dormir com outra mulher... Sim, eu voltei a dormir com mulheres.

Quando me assumi bissexual, sempre achei as mulheres mais confortantes que os homens, era uma relação mais light, sem muitos apegos emocionais... Digamos que uma entendia a outra e se ajudavam. Mas fazia tempos que eu não beijava uma mulher

E aquele ambiente todo me excitava... Mulheres, rock, guitarra, cigarros, bebidas, drogas (não, eu não usava MESMO e não seria agora que usaria)... Não me lembro exatamente quantas eu fiquei naquela noite... Só sei que no dia seguinte olhei e vi Yurika ao meu lado apenas com calçinha e sutiã e uma garrafa de vodka do lado.

Dei um leve sorriso, abraçei minhas pernas, puxei os lençóis e fiquei olhando a japonesa dormir... Nunca parei para prestar atenção em Yurika... Não sei se minha escolha seria ficar com mulheres pro resto da minha vida, na verdade, eram só recaídas, eu sabia da minha preferencia por homens... Mas com certeza se Yurika fosse um homem, nossa relação duraria a vida inteira.

O inverno foi embora... Havia parado de pensar em Dereck e na verdade, aquele velho sonho de querer ficar com ele já estava indo embora da minha mente... Levava minha vida como antes. Saía a noite, voltava de manhã, trabalhava a tarde e saía a noite novamente...

Me sentia bem assim, estava começando a aceitar as coisas, mas em momentos de fraqueza a velha imagem de Dereck vinha em minha mente e uma frustração enorme batia em meu peito, eu não consiguia não imaginar como seriam as coisas se ele voltasse... Se ele cruzasse a porta do estúdio, sorrise pra mim com aquele jeito descontraído, eu pularia em seu colo, subiriamos as escadas e fariamos amor a noite toda...

É... Com certeza seria assim... Mas não esperava por isso, embora meu coração disparasse e desejasse isso tanto que me doía... Ei Dereck, será que você está pensando em mim agora como eu to pensando em você aqui nessa janela olhando a lua no céu?

sábado, 26 de junho de 2010

27 - Esperar até quando?

Fevereiro finalmente chegara e nenhuma noticia de Dereck, as vezes ficava pensando se ele realmente voltaria ou se estava apenas me enrolando... Droga, estava começando a ficar desesperada e faltavam apenas duas semanas para meu aniversário de 19 anos...

Parei de ir ao apartamente dele, aquele lugar que antes era confortável e seguro para mim se tornou hostil e desesperador, a cada canto dos comodos que eu olhava vinha a imagem de Dereck com um cigarro entre os dedos e um meio sorriso no rosto me encarando. Passei a frequentar mais a casa de Yurika agora que as temperaturas estavam voltando a subir um pouco e o frio não queimava meu rosto quando saia na rua.

Yurika continuava tocando naquele velho barzinho todas as noites agora que o movimento de pessoas circulando crescera um pouco, nessa semana tive uns três clientes no total aumentando um pouco minha renda, já que as tatuagens eram caras. Tentei ao máximo não demonstrar minha aflição para Yurika, mas essa tentativa foi fracassada pois a japonesinha percebia claramente minha expressão de ansiedade.

- Ele vai voltar... - Yurika comentou outro dia enquanto comíamos pipoca de microondas em sua casa e assistiamos á um filme, sentadas no tapete da sala enroladas em mantas.

Olhei para ela sem entender o porquê desse comentário tão repentino, não falei mais nada, apenas olhei para minhas próprias mãos e comecei a amassagar a pipoca entre meus dedos. É Yurika, eu queria de verdade acreditar em você... Olhei mais uma vez para a janela. Yurika não dissera mais nada e ficamos em silêncio até o filme acabar.

- Sabe "L", estava pensando da gente sair no dia do seu aniversário... E estava me perguntando se você gostaria de ir em algum lugar em especial... - comentou Yurika juntando os copos de refri e a bacia de pipoca levando-os até a cozinha estreita de seu apartamento.

- Hum... - comentei pensativa, acho que não tinha nada em especial que queria fazer no dia do meu aniversário, se Dereck voltasse antes disso estaria totalmente feliz. - Não... Não tem nada em especial que eu queira fazer ou algum lugar que eu queira ir...

- Entendo - Yurika ficou em silencio por alguns minutos - Já que é assim passarei na sua casa para a gente fazer alguma coisa juntas, se quiser ir em algum lugar, por favor me diga que nós iremos sem problema algum... Você ainda tem duas semanas para pensar né?

Sorri com as palavras de Yurika e a abracei bem forte. Obrigada minha japonesa preferida... Obrigada por está comigo durante esse tempo e por não me abandonar por momento algum.... Obrigada por me entender sem ao menos eu dizer uma palavra e muito obrigada por ter me ajudado a superar a morte de Klaus... Eu não sei o que seria de mim sem sua ajuda.
Essas palavras passaram por minha cabeça mas não saíram de minha boca, nem precisava, Yurika já sabia de tudo aquilo sem eu ao menos falar...

Nesse dia dormi na casa de Yurika e levantei bem cedo no dia seguinte porque tinha um cliente ás 8h da manhã. Prometera passar lá mais tarde para fazermos algumas coisas juntas, Yurika ás vezes se sentia tão sozinha quanto eu.

Durante essas duas semanas que antecederam meu aniversário, não pensei em nada em especial que eu quisesse fazer nesse dia, na verdade já estava de bom tamanho Yurika passar lá em casa e ficar comigo durante esse dia. Eu não iria trabalho no dia 16 de Fevereiro, não mesmo.

Finalmente aceitara o desaparecimento de Dereck durante esses dois meses... Aceitara em partes, mas sabia perfeitamente que não poderia fazer outra coisa além de esperar e esperar... Mas esperar até quando? Eu não parava de pensar nisso.

26 - Fotografias

A chegada do inverno em Berlim fez as temperaturas caírem drasticamente e o movimento de pessoas andando na rua diminuira bastante. Eu mesma era um exemplo de pessoa que não saía muito no inverno, ficava em casa debaixo das minhas cobertas, fumando meu Black Stone de Cereja e tomando uma caneca de chocolate-quente. Isso sim era vida.

Não tinha muito trabalho, fazia dias que não aparecia um cliente, mas não fazia mal, logo que a primavera chegasse os clientes voltariam e eu estaria esperando por eles com novos modelos de tatuagens. Yurika havia trazido alguns livros que ela gostava para eu passar meus dias com algo pra fazer (já que não gostava muito de assistir TV).

Na maioria das vezes não passava os dias em minha casa e sim no apartamento de Dereck, naquele dia que ele fora no estúdio com a noticia de que viajaria deixou as chaves de seu apartamente comigo pedindo-me que fosse lá de vez em quando tomar conta das coisas dele, mas sabia que suas intenções eram outras...

Ficava olhando a falta de movimento na rua pela janela do quarto de Dereck, tudo estava branco, as calçadas cobertas por um tapete branco emplumado e os pequenos flocos de neve caindo graciosamente do céu. Era inicio de Janeiro e faltava pouco mais de um mês para meu aniversário... Será que o veria antes disso?

Sempre quando estava na casa de Dereck passava o dia inteiro pensando nele e no que ele estaria fazendo... Claro que não perdia a oportunidade de remexer algumas coisas suas e ver as fotos que ele tirava... Elas ficavam guardadas em uma caixa enorme de madeira em cima do guarda-roupa. Um dia tirei-a de lá e espalhei as fotos pelo chão analisando-as cuidadosamente; um casal de velhinhos lendo um livro em uma praça qualquer de Berlim, crianças correndo pelo parque, casais de namorados se beijando e muitas, muitas fotos de natureza principalmente das folhas secas de outono. Será que ele apreciava o Outono tanto quanto eu?

Mas de fato, as fotos que mais me chamaram atenção foram as de Kiel, sua cidade natal... Fotos do Canal de Kiel, do Scholoss (o castelo, século XVI), a Igreja de São Nicolau e o Rathaus (governo municipal), esses eram alguns dos monumentos da cidade que pertencia ao estado de Schleswig-Holstein...

Ei... Dereck, quando você vai voltar?

sábado, 19 de junho de 2010

25 - Espera...

Pelo menos dessa vez agirei diferente, pensei sentada em meu quarto fumando meu cigarro de cereja sentindo aquele gostinho doce em meus lábios, naquele dia quando sai da casa de Dereck com a blusa dele senti que estava prestes á acontecer algo entre a gente, mas não aconteceu... As coisas aconteceriam de uma maneira especial...

A blusa dele estava em minhas mãos e ainda preservava aquele cheiro... Dei uma leve fungada na blusa e a imagem de Dereck me olhando trocar de blusa com aquela expressão de bobo no rosto me veio á cabeça... Fazia uma semana que não nos víamos...

Quando cheguei em casa naquele dia tomei um banho, guardei a blusa dele junto com minhas roupas e trabalhei... Tinha três seções de tatuagens naquele dia... Sai á noite com Yurika e contei á ela sobre Dereck, ela riu como sempre e disse:

- Invista nisso... Vai te fazer bem...

Que ia me fazer bem ou não, não me importava, eu me arriscaria, mais uma vez... E dessa vez, estava disposta á me entregar, de amar de verdade, sem medos e receios, sem os fantasmas do meu passado me perseguindo... Eu precisava de uma nova identidade... Continuaria a L... Mas dessa vez mais forte e mais ousada...

Só faltava uma coisa; estar pronta para assumir meu nome... Mas isso ainda demoraria algum tempo... Vocês devem está se perguntando o porquê de não falar meu nome né? Ele me faz lembrar minha mãe... Mais tarde entenderão porque...

Esperei que Dereck me procurasse... Era a vez dele vir até mim.... Quando cruzei a porta do prédio, ele me chamou, deu um sorriso e disse: " Me espera... Que quando você menos esperar aparecerei novamente..." Eu acreditei nas palavras dele, ele as disse com tanta convicção que me senti mais tranquila dessa vez...

Estava arrumando as coisas no estúdio quando o sininho da campainha sobre a mesa tocou, olhei pelo canto de olho e o vi, parado na minha frente com as mãos no bolso, cigarro na boca e olhar vago, sorri ao vê-lo

- Sabia que viria - comentei com um ar presunçoso fazendo-o rir. Com um movimento rápido ele jogou minha blusa manchada de café (agora limpa e cheirosa) em minha direção e a peguei com um reflexo, a pendurei no ombro e continuei arrumando as coisas.

Ele ficou ali, parado me observando, sentou-se em uma das cadeiras do estúdio e cruzou os braços.

- Eu vim pra te falar uma coisa... - disse Dereck brevemente, sua voz era grave e estranha, comecei a ficar preocupada.

- O que é? - perguntei encarando-o com uma das tintas na mão.

- Vou passar um tempo fora... Fora da Alemanha... E não sei quando vou voltar... - disse Dereck sem me olhar nos olhos brincando de ascender e apagar o isqueiro.

O pote de tinta na minha mão caiu espalhando todo o conteúdo pelo chão do estúdio, tenho certeza que meu rosto ficou branco como um giz e parecia que meu sangue não circulava mais por meu corpo, podia jurar que choraria novamente na frente de Dereck, mas fui mais forte e engoli um seco, um nó em minha garganta se formou. Abaixei a cabeça

- Tá... Tudo bem... - disse ainda com a cabeça baixa.

- "L" eu... - Dereck começou a dizer se aproximando de mim mas eu ergui minha mão o barrando, levantei a cabeça e o encarei, ele paralizou.

- Não precisa explicar nada... Tudo bem... - tentei sorrir - Você volta?

- Claro... Volto... Por você...

Meus olhos arregalaram, não pude deixar de sorrir mais uma vez e sentir uma lágrima quente descendo por meu rosto, me aproximei mais dele e pude ver seus olhos no reflexo dos meus, o abracei forte... Me senti totalmente arrasada, era ruim pensar em ficar um tempo indeterminado sem vê-lo... Mas ao mesmo tempo que estava triste, alguma coisa dentro de mim me mantinha calma...

- Vou te esperar... - olhei para ele novamente e ele passou suas mãos grossas em volta do meu pescoço, ele fechou os olhos e me apertou contra seu peito afagando meus cabelos os desarrumando ainda mais, tava tudo bem... Ia dá tudo certo...




sexta-feira, 18 de junho de 2010

24 - Joguinho...

Foi muito, muito, muito dificil lembrar daquilo tudo e mais dificil ainda contar á uma pessoa que eu praticamente desconhecia... Dereck ficou ao meu lado o tempo todo em que contei minha história, e chorei tanto... Tanto... Mas de uma certa forma aquilo foi bom... O choro lava nossa alma, e eu sentia a minha até cristalizada...

De fato Dereck era especial de alguma forma pra mim, nunca contei isso á quase ninguém... Praticamente a única pessoa que sabia disso tudo era Klaus... Tentava não lembrar de meu passado, mas eu simplesmente não conseguia seguir em frente sem fechar essas feridas, sem curá-las... Alguém as fecharia para mim...

Depois de algum tempo chorando e abraçada com Dereck, a dor passou... Tudo iria melhorar, eu tinha certeza disso, era como se Klaus estivesse novamente ali ao meu lado e os rostos de meus pais sorrindo para mim veio em minha mente, via a imagem deles com clareza, como nunca tinha visto antes...

Estava tarde para voltar para casa e a cada minuto me sentia mais exausta, adormeci no ombro de Dereck abraçada á ele, sem que eu percebesse, durante a madrugada, ele tirou meu tenis, me carregou e me levou até seu quarto me colocando em sua cama, acordei durante a noite e o vi sentado em um sofá de frente para a cama, dormindo com a boca aberta. Dei um leve sorriso e me apertei mais ainda aos lençóis dele sentindo novamente aquele cheiro que me deixava excitada. Peguei no sono novamente.

Acordei na manhã do dia seguinte e vi a imagem de Dereck me observando atentamente com aqueles olhos azuis penetrantes... Me senti um pouco constrangida e vi que uma das mangas da minha blusa estava totalmente caída revelando meu ombro. Dereck sorriu ao me ver acordada.

- VI uma das tatuagens... - disse ele apontando para a cereja em meu ombro. Não pude deixar de sorrir com o comentário dele. Ele se aproximou de mim, sentou na beirada da cama de casal colocou a mão em minha nuca e me encarou nos olhos. Meu coração acelerou e senti o sangue subir em minha cabeça, sua boca estava á centímetros da minha e podia sentir seu hálito de café (adorava aquele cheiro), jurava que ele iria me beijar, mas não o fez...

Eh... Me senti frustrada mas não demonstrei muito, ele se afastou lentamente de mim e pigarreou, hahaha, ele sempre fazia isso.

- Você... Tá bem, "L"? - perguntou estendendo uma caneca de café. - Tomei a liberdade de trazer pra você...

Aceitei com um leve sorriso no rosto, tomei um gole, o café era bom e amargo.

- Sim... Me sinto bem melhor... - disse. - Me desculpe se te fiz dormir no sofá...

- Não tem problema, eu poderia ter dormido ao seu lado... Sem fazer nada é claro, mas queria te deixar á vontade... - respondeu ele com um sorriso maroto brincando nos lábios.

Era minha vez de brincar e dá indiretas á ele.

- Quem sabe algum dia não dividimos a cama?

Eu ri internamente da expressão de surpresa no rosto de Dereck, ele arregalou os olhos, ergueu umas das sobrancelhas daquele jeito que me fazia rir e olhou para os lados... Fico VERMELHO literalmente.

- É... Por que não agora? - é... ele não perdia uma chance de dá indiretas á mim e quando achei que tinha conseguido deixá-lo totalmente sem reação ele dava um jeito de sair 'limpo' na história. Agora era eu quem estava sem reação.

- Um dia quem sabe... - foi o que consegui dizer... Uma gotinha de café pingou em minha blusa, próxima aos meus seios e a limpei instantaneamente com a ponta dos dedos, droga! Tinha que acontecer isso. Dereck percebeu e deu uma risada.

- Quer uma blusa minha emprestada? - ofereceu ele apontando para a mancha. Aceitei erguendo uma sobrancelha como ele fazia - Só que.... Tem uma condição...

- Qual? - perguntei rindo.

- Vai ter que trocar de blusa na minha frente... - disse Dereck novamente com aquele sorriso maroto no rosto.

HAHAHAHAHAHA, ele não estava fazendo isso comigo, mas eu entendi o joguinho dele, e resolvi jogar também.

- Fechado... - respondi.

Ele se dirigiu até uma gaveta de seu guarda-roupa e tirou uma blusa preta de manga comprida e jogou para mim, o encarei nos olhos tirando minha blusa manchada levemente de café e vi que ele não tirava os olhos de mim e de meu corpo (principalmente de meus seios), lógico que fiz meu joguinho-sedução-L e fiz uma horinha até vestir a outra blusa. Eu ria da cara de bobo de Dereck me olhando sem ao menos piscar, vesti a blusa dele e ela ficou um pouco grande em mim, mas era ótima, macia, delicada e com o cheiro dele...

Dei uma leve piscada rindo e ele sorriu, ainda com aquela cara de bobo, estava escrito nos olhos dele que ele me desejava e que estava se segurando para não sair dali e me agarrar... E eu também.



domingo, 13 de junho de 2010

23 - Desvendando passados... (Part 3)

" Mudamos para Berlim, nossos pais haviam deixado uma boa quantia em dinheiro como herança... Vendemos nossa antiga casa e guardamos o dinheiro para comprarmos outra em nossa nova cidade... Nos emancipamos nos tornando responsáveis por nossos atos e totalmente independentes.

Nossos parentes distantes nos ajudaram no inicio, mas depois de dois meses da morte de nossos pais, pareciam que haviam esquecido da gente... Toda aquela gentileza e vontade de nos ajudar havia evaporado... Fodas também... Não precisávamos dele...

Nos viramos desde novos, Detlef no inicio cuidava muito de mim e de Atlze, eu me sentia totalmente sem rumo, era como se todo o sentido da vida tivesse ido embora... Custei a superar aquele trauma... (Acredito que até hoje choro silenciosamente a morte de meus pais...)

Quando nos mudamos para Berlim, meus irmãos começaram a trabalhar e não terminaram o colegial, eu comecei a frequentar as escolas públicas da cidade... Antes, éramos unidos, como unha e carne, mas toda aquela irmandade estava chegando ao fim. Não conversávamos muito e quase não sabiamos um da vida do outro. Era horrível aquele clima, comecei a ir cada vez menos em casa e passar mais tempo na rua...

No inicio, conhecia pessoas normais, legais... Mas quando entrei pro colegial, comecei a desandar... Entrar para um mundo totalmente diferente do meu onde as pessoas dormiam uma noite com o cara e no dia seguinte com outro... Era farra e pura curtição... Achei nesse grupo um refúgio e uma forma de tentar esquecer meu problemas... Comecei a fumar cedo e beber muito.... Nunca cheguei a usar drogas, embora quase todos do grupo usassem. Frenquentavam a Estação do Metrô e se picavam de três á cinco vezes por dia... Eles estavam no fundo do poço. Foi mais ou menos nessa época (entre 14 e 15 anos) que me descobri bissexual, sentia uma enorme atração pelas mulheres... Não era uma TOTAL identidade minha ,mas quem me conhecia sabia muito bem de minhas preferências.

Minha vida começou a mudar um pouco quando conheci Klaus... Um velho amigo meu... Comecei a suspeitar que este estava gostando de mim... Ele tinha um histórico um pouco parecido com o meu, embora não tivesse perdido os pais... Mas estava totalmente perdido no mundo... Ficamos juntos por muitas vezes, íamos e voltávamos... Como um pendulo de um relógio antigo...

De fato não sei se era amor o que sentia por Klaus, mas sabia que sentia uma enorme necessidade de tê-lo comigo... Ele me fazia me sentir especial... Estávamos vivendo juntos, minha vida estava voltando ao normal... Mas aquilo aconteceria novamente... Quando menos eu esperava, Klaus me deixou... Para sempre... E eu me vi perdida nas ruas da cidade sem ninguém por perto...

Faz pouco tempo que me recuperei do trauma de ter perdido Klaus... Quando finalmente havia superado tudo e conseguido vencer as dificuldades... Vem a vida e me joga mais um balde de água fria... Me derrubando novamente... E agora to aqui... E tento seguir em frente de alguma forma... Mas as cicatrizes não fecharam, elas continuam sangrando..."

23 - Desvendando passados... (Part 2)

"Eu morava com meus pais em Frankfurt na Alemanha, morava em uma casa enorme de madeira e um lindo jardim na frente. Minha mãe; Sabine Schultz era uma grande empresária mas passava uma grande parte de seu tempo comigo e meus irmãos. Era engraçado uma grande empresária ter tempo para seus filhos, eu e meus irmãos achávamos aquilo ótimo. Meu pai; Hans Schultz trabalhava junto com minha mãe.

Fui criada e educada nas melhores escolas de Frankfurt, sim, eu era uma excelente aluna. Eu e meus irmãos sempre fomos unidos apesar de nossas diferenças de idade, sempre brincávamos juntos e tinhamos tudo o que precisávamos; o amor de nossos pais, uma boa casa, família unida, uma boa condição financeira entre outras coisas.

Eu era uma criança bastante curiosa, como toda criança, já subi muito em árvores, brincáva com os vizinhos, tinha um enorme chachorro da raça colie que chamava Lessie (igual ao filme) e amigos na escola.

Tudo, tudo era perfeito... Mas da noite para o dia, ,minha vida mudou... E eu vi minha felicidade escorrendo pelo ralo como a água da pia do banheiro. Foi quando eu tinha 12 anos... Meus pais tiveram que viajar para uma viagem á negócio... Era um pouco frequente esse tipo de coisa, eu e meus irmãos ficávamos em casa sozinhos sem nenhum problema. Mas daquela vez não...

Aconteceu algo inesperado... Estávamos reunidos na sala conversando e rindo como fazíamos... O telefone tocou, corri para atende-lo na esperança de ser papai e mamãe telefonando para a gente... Uma voz masculina e estranho falou do outro lado da linha.

- Ai que eh a casa dos Schultz?

Achei aquilo estranho mas confirmei na maior das inocencias, quem poderia ser?

- E você seria filha deles? - perguntou o homem.

- Sim... - confirmei mais uma vez.

- Tem alguém de maior ai com vocês? - perguntou o homem, todas aquelas perguntas estavam me deixando nervosa, o que poderia ter acontecido?

- Não... Mas posso chamar meu irmão mais velho, Detlef... - respondi.

Chamei Detlef, passei o telefone para ele. O homem falou algumas coisas que deixavam Detlef petrificado, não consegui escutar o que era, a noticia bomba veio no momento que Detlef colocou o telefone no gancho.

- O que aconteceu? - perguntou Atlze nervoso.

- É... Que.... é que... - a voz de Detlef tremia, nunca vi meu irmão daquele jeito, nunca. Nem quando a menina que ele mais gostava tinha dado um fora nele.

- Fala logo! - gritei esganiçada.

- Papai e Mamãe... Eles.... Morreram... Em um acidente de carro... Os dois estavam voltando para casa quando um caminhão invadiu a pista e bateu de frente no carro deles...

Nunca... Nunca vou me esquecer daquele momento, era como se o chão tivesse deixado meus pés... Como se alguém roubasse todo o ar da atmosfera me deixando sem oxigênio, na hora não consegui me mover e nem chorar... Estava tudo perdido para mim e meus irmãos... Não sabíamos o que fazer..."

23 - Desvendando passados... (Part 1)

Eu não sabia o que falar perante aquela situação... Por que ele sempre fazia isso comigo? Me deixava sem rumo, me deixava totalmente sem ação e sem o que dizer... Eu me sentia totalmente nua diante as palavras dele.

Ele parecia se deliciar com cada momento que me sentia desconfortável... Fiquei em silêncio, minha pele com certeza ficou vermelha de constrangimento, abaixei a cabeça e levantei novamente, a franja cobrindo um pedaço do meu olho.

- O que quer de mim? - perguntei.

- Novamente me fazendo a mesma pergunta... Você ainda não descobriu a resposta? - disse Dereck novamente com aquele ar intrigante.

- Você... Parece brincar comigo... Está me deixando confusa... - respondi sentindo um tom de esteria em minha voz.

- L... Me responde uma pergunta... Qual é o teu segredo? Do que você tem medo?

- Por que você sumiu? Por que não me procurou no dia seguinte? - perguntei ficando totalmente desesperada e novamente me veio aquele aperto no peito.

- E você? Por que não veio atrás de mim? - perguntou Dereck rebatendo todas as minhas perguntas.

Novamente ele me deixou sem palavras. Olhei para todos os cantos do comodo de menos para seu rosto. Do que eu tenho medo?

- Eu tenho medo de muitas coisas! - respondi nervosa sentindo minha voz tremer - Tenho medo de me olhar no espelho, tenho medo de perder novamente as pessoas que eu amo, tenho medo de olhar pra trás, tenho medo de me machucar... Tenho medo de amar!

A essa altura, eu já estava chorando, chorando, novamente... Sem nenhum controle das lágrimas, Dereck veio em direção á mim e tentou me consolar, mas o empurrei afastando de mim... O que estava fazendo? Tudo veio em minha cabeça e estourando como fogos de artificio no ano novo... Aquilo me irritava, mexia com minhas feridas fazendo-as sangrar.

Demorou algum tempo para que Dereck conseguisse me acalmar, ele acabou me vencendo e vindo me consolar, afagando meus cabelos como Klaus fazia, me trouxe uma xícara de chá quente e um cigarro de menta. Me senti mais calma, as lágrimas secaram em meu rosto.

- Me desculpa... - pedi com a voz falhando. - Eu não sei o que está acontecendo comigo... Não sei o que quero... Não sei o que sinto, sou como uma casca vazia... Sem vida... Sem nada

Dereck se abaixou, colocou a ponta de seus dedos em meu queixo levantando meu rosto e me olhando. Me encarou por minutos que pareciam horas.

- Você nem sabe o quanto é bonita né? - ele disse sorrindo.

- Por que fez aquilo comigo? Por que...? - a pergunta não saia de minha cabeça.

Dereck deu um suspiro longo e demorado... Pensei em repetir a pergunta, mas antes que eu fizesse ele respondeu

- Tive medo... Medo de parecer um idiota perante a garota mais... Mais irresistivel que eu já conheci... A fumante de cigarros de cereja estava me deixando louco... - ele deu uma risadinha me fazendo rir também... - e eu não sabia o que fazer.... Me sentia um imbecil, um tolo por gostar de alguém que se querer ao menos conhecia... Mas sentia que precisava de te ver... Mas esperei você vir até mim... Por medo... Mas você não apareceu me deixando sem ação... Então mandei aquelas flores com aquele poema... E você veio... E está aqui... parada. Chorando na minha frente e eu sem poder ajudá-la porque você não me fala nada sobre sua vida... Nem seu nome eu sei... Como posso ajudá-la á superar tudo isso?

Eu ia... Eu ia contar tudo porque nunca me senti tão confortável agora... A voz de Dereck me passava tranquilidade e me sentia feliz, me sentia bem como nunca havia me sentido antes... Tudo aquilo estava voltando em minha mente... Á muitos e muitos anos atrás...

sábado, 12 de junho de 2010

22 - O poeta Fotógrafo

Quando abri a porta da sala um vento frio bateu em meu rosto, peguei uma blusa super-ultra-mega-quente e sai correndo em direção á Estação do metrô, cheguei lá ofegante, com o coração quase saindo pela boca.

Fiquei em pé, encostada na parede esperando por ele... Pelo menos por algum sinal dele, o frio cortava como uma faca afiada, cansei de ficar em pé... DROGA, o que deu em mim? O que estava fazendo ali? Me sentei e abracei as pernas, esfreguei as mãos esquentando-as... Rostos e mais rostos de pessoas passavam por mim e embaralhavam minha mente... Nenhum sinal dele.


Novamente aquela vontade de chorar veio em mim e senti as lágrimas penduradas em meus olhos, que bosta, que bosta, o que tava fazendo ali? Aquela pergunta não saia da minha cabeça e desejei ter continuado em minhas cobertas e ignorado totalmente as rosas e o poema de Dereck sobre mim... E quem seria a doida de ignorar aquilo?

Se passaram horas, não sei quantas exatamente mas continuei ali, imóvel, deitei a cabeça em meus joelhos e acabei dormindo... Não sei por quanto tempo, só sei que senti um frio do caralho e ouvia as pessoas cochichando ao meu redor... Nada... Ele não viria e eu estava fazendo papel de idiota.

Dormi, dormi por horas e acordei com alguém me cutucando, que caralho, quem será que estava me pertubando de meu mundinho fechado e solitário? Acordei meio sonolenta e vi uma figura loira, meio alta parada em minha frente com um sorriso nos lábios e uma câmera pendurada no pescoço. Senti um alivio enorme em vê-lo ali, diante dos meus olhos.

- O que está fazendo aqui? - perguntou Dereck estendo uma mão para mim e me puxando... Até parece que ele não sabia a resposta. Seu ar todo presunçoso lhe denunciava.

Demorei alguns minutos para responder á esta pergunta, aceitei sua mão e me levantei em um salto, cruzei os braços os apertando em meu corpo me protegendo um pouco da friagem. Olhei fixamente em seus olhos...

- Eu... Recebi as flores e seu... Poema... - respondi desviando o olhar.

Dereck deu um sorriso leve e uma risadinha no final. Esperou que eu dissesse mais alguma coisa, mas como não disse, foi a vez dele falar:

- E... Gostou?

Eh... Gostei? Gosteeii, me senti um pouco... Não sei, como sempre, nunca sei definir meus sentimentos... Balancei a cabeça confirmando e ele abriu mais ainda seu sorriso. Pausa para mais um silêncio mortal... E agora? O que aconteceria?

- Ainda não me respondeu o que está fazendo aqui.... - comentou Dereck, DROGA! ele tinha que comentar isso novamente? Achei que a pergunta já estava respondida... Pelo jeito não.

- Hum... Vim procurar... Por você! - respondi revirando os olhos de vergonha, sim, a 'L' sente muita vergonha...

Era justamente isso que Dereck queria ouvir, os olhos dele brilharam como uma criança recebendo o carrinho que pediu de Natal, será que eu seria um presente para ele? Ou seria simplesmente uma garota que ele queria se divertir um pouco? Eu já brinquei tanto com os sentimentos das pessoas que aquilo para mim nem fazia diferença...

Ele me puxou me abraçando, não senti mais frio, seu corpo era quente... Senti novamente aquele cheiro de pimenta misturado com canela... Fechei os olhos... Me apertei mais meu corpo contra o dele... Que droga de sentimento era aquele que fazia meu coração acelerar e as pernas tremerem? Será que esse era o tal do AMOR que dizemos sentir pelas pessoas? Como poderia amar uma pessoa que mal conhecia?

Nos afastamos dando pigarros um pouco envergonhados... Nos encaramos e começamos a rir juntos, ele sempre me fazia rir.

- Então... Vamos para onde? - perguntei entre risos.

- Hum... Tá á fim de ir na minha casa? - ofereceu Dereck... Wow... Ele eh rápido hein? Hahahahahaha não que aquilo estivesse passando por minha cabeça... (Sim, torne as coisas um pouco pervas...). Sim, eu queria ir na casa dele... E descobrir mais sobre ele.

- Claro... - aceitei.

Pegamos o metrô (era impressionante como o metrô movia a vida das pessoas na Alemanha, sem ele não iriamos a praticamente lugar algum. Durante o trajeto não trocamos muitas palavras, elogiei a poesia que ele fez... (sobre eu) e falei que gostei das rosas, embora não ligasse muito para flores e esse tipo todo de romantismo.

Ele apenas riu com minhas palavras e continuou olhando pela janela a cidade iluminada, tudo se tornava um borrão em minha cabeça. Descemos em umas quatro estações depois da minha casa em direção ao centro.

Andamos por uma rua cheia de comércios e barzinhos, Dereck morava em um apartamento pequeno no final daquela rua, seguimos caminhando soltando fumaçinha de frio pela boca... Continuamos em silêncio.

O apartamento dele era acochegante, pequeno mas acochegante; uma sala cheia de fotos de pessoas na rua, coisas jogadas no sofá, uma pilha de roupas sujas em um canto, um cinzeiro cheio de resto de cigarros... Esse era o visual da sala de Dereck.

Ele se apressou em juntar algumas coisas para dá lugar para eu sentar... Me sentei cruzando e abraçando minhas pernas em um canto do sofá. Dereck se sentou em uma cadeira giratória de frente para mim. Todo aquele clima me deixava nervosa e anciosa.

- Você tem algum cigarro? - perguntei tentando acabar com aquele clima - preciso de algo nas mãos...

- Mas você tem algo nas mãos... - respondeu Dereck olhando fixamente em meus olhos.

- Eu? - o que ele queria dizer com aquilo, ergui uma sobrancelha como ele costumava fazer.

- Não... EU.


21 - A Fumante de cigarros de cereja

Naquele mesmo dia quando fechei a porta encontrei Yurika sentada na poltrona da sala de televisão lendo um jornal e fumando um cigarro de canela (tipico dela), ela deu uma olhada em mim por cima do jornal, deu um trago no cigarro e jogou o cabelo para trás. Dei um leve pigarro, subi as escadas dando uma piscadela para ela.

Como sempre saímos para um barzinho, viramos a noite dessa vez, afinal era sexta-feira e o fim de semana era uma criança. Os amigos de Yurika continuavam me tratando super bem, eram interessantes e alguns continuavam dando em cima de mim (e eu continuava ignorando-os). Apesar de está totalmente bêbada naquela noite (sim, eu bebi MUITO), sentada na cadeira daquele barzinho, meus pensamentos infelizmente estavam em Dereck e aquela nossa tarde... Que droga! O que estava acontecendo comigo?

Desejei do fundo do meu coração que ele viesse me procurar no dia seguinte (já que sabia onde eu morava), que saíssemos de novo, tivessemos outra conversa daquelas, que ele fizesse eu esquecer todos os meus traumas, todos os meus medos, que ele fosse como Klaus em minha vida... Ele era uma luz no fim do túnel para mim.

Acordei totalmente de ressaca no dia seguinte com a luz do meio-dia entrando em meus olhos e transpassando a cortina do meu quarto. Yurika dormira na sala e quando desci as escadas não vi sinal dela, apenas as cobertas jogadas no sofá. Tomei um café amargo para ver se parava minha dor de cabeça.

Fiquei o dia todo em casa, e nem sinal de Dereck, okay, não iria até a estação de metrô procurar por ele, essa não era uma conduta "L"; correr atrás das pessoas. Não que eu fosse orgulhosa, só não gostava de me machucar e me decepcionar. As pessoas que geralmente corriam atrás de mim...

Passei a semana toda pensando no desaparecimento de Dereck, "Talvez ele só quisesse saber como eu era... Talvez não tivesse realmente tão interessado em mim..." Esses tantos talvez passavam o dia todo em minha cabeça. Amor á primeira vista? Acha que eu acredito em algo tão ridiculo como isso? Dereck era apenas uma pessoa interessante para mim, como tantas outras, como Kessi era...

Depois de duas semanas finalmente parei de pensar nele. As coisas vieram atona novamente em uma tarde fria de fim de outono, estava sozinha em minha casa, enrolada em cobertores e tomando uma xícara de chocolate quente quando a campainha tocou... Fui atender e era um rapaz, um rapaz comum, com um capotão de frio e um buquê de rosas vermelhas na mão.

- É a senhorita... "L"? - leu o rapaz fazendo uma cara estranha ao ler o destinatário do cartão.

- Sim... sou eu... - disse erguento uma sobrancelha e achando aquilo tudo estranho. De quem seriam aquelas flores? Até parece que eu não sabia a resposta...

- Para a senhorita... - o rapaz me passou as flores e eu as aceitei com um aceno com a cabeça.

Agradeci e fechei a porta, me sentei no sofá, cruzei as pernas e li o cartão. Era de Dereck, meus olhos arregalaram e eu sorri por dentro... Não estava acreditando naquilo.

" Para a minha fumante de cigarros de cereja" - dizia o cartão em uma caligrafia fina e levemente inclinada.

Idiota! Pensei rindo e sentindo uma fina lágrimas correr pelo meu rosto meio queimado de frio. Por que você sumiu sem deixar nenhuma pista? O que estava fazendo comigo mexendo de uma forma tão intensa com meus sentimentos? Vocês devem está achando que eu estava me comportando como uma menininha apaixonada que encontra um cara qualquer na rua e fica semanas pensando nele e pensando em como seria lindo um romance entre os dois... KKKKKKK que jeito mais idiota de se agir... e INFELIZMENTE eu estava quase igual á essas menininhas inocentes... A única diferença é que eu não era inocente.

Levei as flores para meu quarto e as larguei em cima da cama, quando as joguei, um outro cartão um pouco maior saiu de dentro das flores, olhei para ele franzindo o cenho e o segurei para lê-lo. Ainda era a caligrafia de Dereck;

"A fumante de cigarros de cereja...

passava os dias na estação de metrô, sentada em um canto qualquer do hall,
com um cigarro rosa-claro-bebê entre os dedos
dando tragos um atrás do outro
soltando fumaça pelos lábios ressecados pelo frio...

cabelos loiros até o ombro e
olhos cor-de-folhas-de-outono...
Quem ela era?
Com aquele jeito todo distante
tatuagem no ombro oculta pela manga meio caída da blusa

Ela era a fumante de cigarros de cereja..."

Um sorriso simples surgiu em meu rosto quando terminei de ler o poema, tá bom, tá bom, eu chorei! Chorei de novo, era a única coisa que sabia fazer desde que Klaus morreu, e me odiava por me sentir fraca e indefesa... Era dificil eu admitir para mim mesma que eu era fraca e indefesa... E que não era apenas um sentimento passageiro que poderia ser superado com o tempo... Porque cicatrizes nunca se fecham... Nunca...

Eu ia fazer aquilo.... Ia sair correndo por aquela porta, ir até a Estação de metrô e procurar por Dereck, FODAS a conduta L, FODAS se estava bancando a menininha ingenua, e FODAS se iria me machucar... Eu precisava fazer aquilo...




domingo, 6 de junho de 2010

20 - O acaso....

- Você? - perguntei perplexa com o coração acelerado e o cigarro entre os dedos.

Ele me olhou espantado também, não mudara quase nada desde aquele encontro por acaso naquela mesma estação, começou a rir; sua risada era uma mistura de nervosismo e anciedade. Aquele sorriso... Uma série de coisas passou por minha cabeça mas nenhuma delas fazia sentido... Como depois de tanto tempo reencontro alguém que nem conheço?

Ficamos nos encarando por breves segundos, ele ergueu uma sobrancelha de uma maneira engraçada, não pude deixar de rir, dei um trago no cigarro e depois sai andando sem ao menos olhar para ele.

- Vai fazer igual da outra vez, "L"? Virar as costas para mim sem ao menos conversarmos? - arregalei os olhos, o que ele queria? O que queria de mim? E ainda lembrava das iniciais do meu nome... Não, não iria fazer igual da outra vez, me virei com um movimento rápido fazendo meus cabelos darem uma volta completa em meu pescoço. Dei um sorriso, ele retribuiu e me alcançou.

- O que quer de mim? - perguntei sem me preocupar em parecer mal educada, mas não fui grossa nem nada, perguntei sorrindo.

- Não sei... - ele me olhou mais uma vez, de cima á baixo fixando seus olhos no meu. - Curiosidade... Você parece ser uma pessoa interessante...

- Jura? - perguntei com um certo desdém na voz dando mais um trago terminando o cigarro, o arremessei na lixeira próxima ao relógio da estação e continuei andando. - Nem eu me acho uma pessoa interessante... Aceita um cigarro?

Dereck concordou com a cabeça, estendi o maço para ele e peguei mais um cigarro para mim, dividimos o esqueiro e continuamos andando sem ao menos saber para onde iriamos, quanto á Yurika, não tinha problema, ela iria para a casa dela e mais tarde passaria lá para nós duas sairmos.

Senti uma enorme vontade de rir daquela situação... O que estava fazendo, "L"? Saindo com um estranho que na verdade lhe parecia tão familiar... Dereck emanava uma energia boa e que de uma certa forma me dava uma tranquilidade... Okay, estava curiosa sobre ele.

- Que dia faz aniversário? - perguntei impulsivamente, nem eu entendera muito bem o porquê de fazer aquela pergunta.

- 16 de Agosto... - ele me olhou de forma engraçada novamente erguendo uma das sobrancelhas me fazendo rir novamente. - Por que sempre ri quando levanto uma das sobrancelhas?

- É engraçado a cara que você faz... - disse entre risos.

- Okay, e você? Que dia faz aniversário?

- Hum... 16 de Fevereiro...

- Que engraçado, fazemos aniversário no mesmo dia mas em meses diferentes - comentou Dereck colocando suas duas mãos no bolso da calça bege-clarinho.

Seus olhos azuis percorreram o céu de forma distraida, de repente virou os olhos para mim, desviei o olhar ficando levemente vermelha. Ele percebeu meu disfarce e deu uma risadinha. Começamos uma conversa séria, sobre nós e nossas profissões;

Dereck era de Kiel, se mudara para Berlim no ano passado, confesso que fiquei muito surpresa ao ver uma pessoa de Kiel, era uma cidade que tinha enorme vontade de visitar. Era 2 anos mais velho que eu, trabalhava com fotografias, não entrou muito em detalhes que tipo de fotografias e também não perguntei. Morava perto do centro e passava com frequência na estação de Metro perto da minha atual casa. Era minha vez de falar um pouco sobre mim (falava o básico né?)

- Ahn... Moro aqui perto... Tenho um estúdio de tatuagens, trabalho com isso, tenho 18 anos, farei 19 ano que vem e moro sozinha... Abandonei a escola... E... Não há mais nada sobre mim. - disse dando um leve sorriso enquanto caminhávamos por debaixo das árvores que ainda perdiam suas folhas.

O outono acabaria mês que vem e entraria meses frios de Inverno... Nos sentamos na grama, debaixo das árvores e ficamos lá, encostados no tronco, fumando alguns cigarros e jogando conversa fora. Uma sensação boa invadiu meu peito me deixando totalmente tranquila o resto da tarde, era engraçado o fato de eu me sentir tão bem com um total estranho.

Dereck era um cara divertido, me fez rir grande parte do tempo e aquele jeito meio distraído dele... As conversas, o jeito de me tratar... Por que tudo aquilo me lembrava Klaus? Não que eu enxergasse Klaus em Dereck, não, não era uma coisa que eu faria, mas... Não me sentia tão bem assim desda época de Klaus. Uma imensa saudades abateu sobre mim e uma vontade de chorar veio á tona, DROGA! Por que tinha que fazer isso bem na frente de Dereck? É... Não consegui, antes mesmo de perceber as lágrimas já estavam escorrendo por meu rosto...

Chorei de forma silenciosa e demorou alguns segundos para que Dereck olhasse para mim e percebesse que eu estava chorando, ele me abraçou, me abraçou de forma carinhosa e acolhedora, senti um cheiro de pimenta misturado com canela, lembrando vagamente o cheiro de Klaus... Sem querer me apertei mais ao corpo de Dereck, percebi que era um corpo bem definido: Não muito gordo nem muito magro como Klaus era.

Passado alguns minutos, nos afastamos um pouco constrangidos, Dereck não me perguntou o motivo de meu choro, o que achei ótimo, evitaria a todo custo falar sobre aquilo, ficamos alguns minutos sem trocarmos uma palavra. Foi anoitecendo e eu tinha que voltar para casa.

- Tá ficando tarde... - comentei olhando o sol se por, uma luz meio alaranjada com rosa vinha em meus olhos, abracei minhas pernas.

- Quer que te acompanhe até em casa? - ofereceu Dereck.

Fiquei alguns minutos pensando, a primeira resposta que me veio á cabeça foi : " Não... Obrigada, posso ir sozinha", tá, isso seria o que eu responderia... Mas... Alguma coisa dentro de mim me segurou e não disse isso, concordei com a cabeça e olhei para ele.

- Quero... Quero sim!

Nos levantamos e caminhamos vagamente até minha casa, durante o caminho voltamos á conversar normalmente, era como se não tivesse acontecido nada, percebi que Dereck estava fazendo isso para quebrar um pouco daquele clima que havia ficado e para me distrair. Me senti totalmente grata por aquela tarde... Chegamos em frente ao estúdio.

- Então... É aqui... - disse por fim afastando uma mecha do cabelo de meu rosto e a colocando por trás da orelha - Bom... Eu não vou te chamar pra entrar porque...

- Tudo beem... - disse Dereck fazendo um gesto com as mãos - Eu também tenho que ir para casa... E imagino que tenha seus compromissos.

- Hum... Okay! - Dereck já ia virando as costas - É... agora é você que está me virando as costas... - disse de forma meio... triste? Ele se virou e deu um sorriso para mim. - Eh...Foi... Foi ótimo passar a tarde com você... Me fez me sentir... Melhor... Sei lá! Foi bom te conhecer, Dereck.

Ele sorriu mais uma vez e levantou o polegar para mim, deu uma leve piscada e disse:

- Ainda quero ver suas tatuagens... Até breve, "L"...

Fiquei na porta de casa esperando ele se afastar e atravessar a rua em direção á estação do metrô...

sábado, 5 de junho de 2010

19 - Reencontros

Minha rotina estava voltando no lugar aos poucos; trabalhava de tarde, tirei meu certificado de tatuadora (agora estava dentro da lei), fui conquistando lugar no mercado, saia com Yurika á noite, acordava meio tarde no dia seguinte e sonhava com Klaus todas as noites.

Acordava aos prantos e ficava algumas horas acordada olhando a lua pela janela... Lembrando das coisas... Por que o passado sempre persegue a gente? Só queria me desprender de tudo que aconteceu e seguir em frente sem ter que olhar pra trás... Queria acordar e ser uma pessoa nova, sem lembrar de tudo o que me aconteceu...

Yurika me pediu para que fizesse mais uma tatuagem nela, dessa vez na panturrilha; um enorme dragão oriental, era engraçado como Yurika adorava tatuagens grandes e chamativas, apesar da japonesinha quase não mostrar suas tatuagens. "É para alguém especial" comentou outro dia enquanto andávamos pela rua em direção á estação de metrô.

Fazia tempos que não voltava lá, e sim, aquele lugar me enxia de lembranças... Andava totalmente distraida pelo hall de entrada que nem percebi quando Yurika parou para ver alguma coisa, continuei andando e nem vi que a japonesinha não estava mais ao meu lado...
Parei em um canto da estação para esperá-la me alcançar... Esperei por alguns minutos e nada de Yurika aparecer...

Tirei um cigarro do bolso, este era de menta, o coloquei na boca e caçei o esqueiro no outro bolso, nada, tateava a procura dele e não o encontrava. "Merda" sussurrei baixinho, por que estava com uma estranha sensação de que uma mão me estenderia um esqueiro? Eis o que acontece. Peguei sem olhar no rosto da pessoa, ascendi o cigarro e dei um trago me sentindo satisfeita, sussurrei um obrigado olhando para a pessoa.

Congelei.... Era ele... O fotógrafo... Parado bem diante dos meus olhos com sua camera pendurava no pescoço e um casaco grosso azul-escuro... Como era mesmo o nome dele? Ah sim, Dereck, lembrei, mesmo depois de tanto tempo, ainda lembrava de seu nome e seu rosto... Não pude evitar de sorrir e sentir meu coração acelerar... O que significava aquilo?

18 - Arrependimento

Voltamos tarde para casa, Yurika acabou dormindo no sofá da sala e eu fui para meu quarto totalmente acabada e com a cabeça rodando, cai na cama e dormi do jeito que tava; os olhos borrados pela maquiagem e o cabelo um pouco atrapalhado.

Sonhei com Klaus durante a noite, era um sonho engraçado e parecia tão real... Estávamos em um grande campo gramado, eu usava um vestido branco, longo, com uma alça caída em um dos ombros revelando a tatuagem de cereja. Klaus estava á alguns metros de mim, acenando e sorrindo, corri em sua direção, mas quanto mais corria mais longe ele parecia de mim... A imagem dele ia se tornando cada vez mais opaca até desaparecer totalmente, gritei por seu nome mas ele não me respondia... Me ajoelhei chorando com as mãos no rosto.

Acordei meio assustada e chamando por Klaus, não havia ninguém no quarto, puxei os travesseiros que á tempos atrás eram dele, ainda tinha seu cheiro, uma fina lágrima rolou pelo meu rosto, por que era tão dificil superar aquela perda? Chorei e chorei até pegar no sono novamente...

Levantei de ressaca no dia seguinte, Yurika fez um cházinho para nós duas e só depois de algumas horas melhoramos. Era isso que acontecia quando se enchia a cara em pleno meio da semana, era duro acordar cedo no dia seguinte.

Não comentei nada com Yurika sobre o sonho... Não tocamos mais no nome de Klaus pelo menos por umas duas semanas... Era melhor assim, eu sofreria em silêncio mais levaria minha vida em frente, sem medo de seguir em frente (mas na prática era totalmente diferente, sim, eu tinha muito medo das coisas)

Neste dia fui até a casa de Laysla depois de fazer compras das coisas que faltavam no estúdio, cheguei lá a casa estava vazia e silenciosa, me sentei na calçada e fiquei esperando alguém aparecer, não demorou muito para que Bill surgisse correndo com Laysla logo atrás dele.

- "L"! - gritou Laysla sorrindo, a garota veio correndo em minha direção e me deu um abraço. Me senti meio envergonhada pelo abraço, mas retribui assim mesmo. Laysla me olhava de um jeito meio curioso, a pergunta estava explicita nos olhos dela: "Por que saiu correndo ontem á tarde?

- Me desculpe por ontem... - disse de maneira simples, sem encarar a menina nos olhos e olhando para meus próprios pés. - eu... Não estava muito bem.

Ficamos alguns minutos em silêncio, não comentaria nada sobre Klaus com Laysla, seria duro relatar os acontecimentos e com certeza cairia em lágrimas e não queria fazer isso na frente de Laysla.

- Tudo bem - disse a menina por fim. - O que estava fazendo? - perguntou apontando para as sacolas em minha mão.

- Ahh... Material para o estúdio...

- Estúdio de que?

- Tatuagem... Vou voltar á mexer com isso... - comentei de maneira breve.

Passamos o resto da tarde juntas, andamos pela praçinha e depois fomos para a casa de Laysla, era bom passar o dia com a menina, fazia me sentir uma criança outra vez e por algumas horas pude fugir do mundo real para entrar em outro... Totalmente distinto do meu.

Com o passar dos dias, fui confiando cada vez mais em Yurika, e vi nela uma grande amiga e uma pessoa em que pudia confiar plenamente, claro, não contei sobre meu passado para ela (não tinha necessidade) e ela nunca chegou realmente á me perguntar sobre minha vida, nem meu nome Yurika sabia... Esse era meu jeito de confiar.

Continuamos indo á barzinhos á noite e saindo com os amigos dela, apesar de aparentar está totalmente melhor (estava um pouco melhor) ainda sofria por dentro, todas as noites me arrependia totalmente por não ter dito EU TE AMO quando pude para Klaus... O pior sentimento que alguém podia ter era o arrependimento...






17 - O velho sotão

Voltei á minha antiga casa, meus irmãos não estavam lá (como eu já esperava), mas de uma certa forma achei melhor assim, queria evitar qualquer tipo de conversas desnecessárias, e o que eu menos queria naquela hora era falar algo... Só queria pensar...Subi até o sotão (meu antigo quarto).

Estava do mesmo jeito, exceto pela ausencia de minhas roupas e minhas coisas (que levei tudo para a casa de Klaus quando me mudei para lá). Sentia falta do meu cantinho, onde passava a maior parte do meu tempo, sentada no chão de madeira, olhando pela janela as pessoas passando na rua e geralmente a chuva caindo.

Me sentei novamente naquele chão, e fodas se ele estava empoeirado (porque lógicamente meus irmãos não entraram em meu quarto desde que mudara de lá), fiquei assim, de pernas cruzadas no chão, braços apoiados na perna, a claridade em meus olhos...

Voltei para minha casa antes mesmo que meus irmãos percebessem que estive lá... Já era umas 8h da noite e para minha surpresa, quando abri a porta, Yurika ainda estava lá, sentada no banco lendo um jornal. Sorriu ao me ver e disse erguendo uma sobrancelha:

- Vamos sair hoje?

Olhei meio espantada para ela, passei a mão nos cabelos, olhei para minhas roupas surradas e dei de ombros sem entender o que ela queria com isso

- Pra onde? - perguntei.

- Ahh, vou tocar em um barzinho aqui perto... Achei que seria bom se você se distraisse um pouco, bom que você conhece meus amigos... Não existe coisa melhor do que conhecer gente nova não acha? - Yurika deu uma leve piscadinha marota para mim, não pude deixar de rir.

- Tá bom... - concordei - me apronto rapidinho.

Subi as escadas correndo até meu quarto, tirei a roupa de ficar em casa e peguei uma roupa melhorzinha no guarda-roupa. Não era o tipo de mulher vaidosa (acho que dá pra notar isso né?), gostava de roupas simples e confortáveis, mas dessa vez me vesti um pouco melhor do que das outras vezes. Peguei meu melhor jeans, um casaco marrom novo, uma boina preta parecida com a de Laysla, uma bota marrom e uma blusa sem manga. Na maquiagem, não passava nada mais do que um lápis de olho preto e um brilho labial.

Desci as escadas correndo e olhei para Yurika, esta se virou para mim, me olhou com ar de surpresa e assobiou, dei uma risada.

- Tá uma gatona hein "L"! - comentou Yurika quando me sentei ao seu lado. - Vamos logo? tenho que passar em casa e pegar meu violão...

A casa de Yurika ficava á poucos metros dali, se mudara fazia alguns meses, era um apartamento simples e pequeno com quatro comodos apenas, estava de bom tamanho para quem morava sozinha.

Não demoramos mais do que 10 minutos na casa da Yurika e seguimos em direção ao barzinho onde a japonesinha ia tocar, gostava desse tipo de coisa, apesar de fazer tempos que não ia em um. Chegamos lá, os amigos de Yurika chegaram poucos minutos depois da gente.

Todos me trataram super bem e como dizia Yurika ( e isto era uma conduta minha também), era bom conhecer gente nova... Para minha sorte, vários deles se interessaram em fazer seções de Tatuagens comigo. Arranjei uns 3 clientes.

Um dos amigos de Yurika ficou REALMENTE interessado em mim, seu nome era Albert e ele era alemão, de Frakfurt (lugar onde nasci e passei grande parte de minha infancia), era músico assim como Yurika e gostava da maioria das coisas que me interessavam... Okay, não estava interessada em viver um romance novo e ainda continuava achando que não era capaz de amar alguém... Amar de verdade, como nos filmes... (apesar de está sentindo um enorme vazio no peito com a ausencia de Klaus... Será que isso era o amor? E o amor fazia doer tanto assim?)

Passamos o resto da noite conversando e trocando idéias, e como a maioria das pessoas, Albert estava realmente curioso em relação ao meu nome, como sempre fiz mistério e disse: "Eh apenas mais um nome alemão..." respondi rindo. Albert assentiu com a cabeça e me ofereceu uma bebida, cerveja de preferencia.

Bebemos o resto da noite, ouvimos Yurika tocando (ela tinha uma ótima voz e tocava super bem) e esta, mais tarde se juntou á nós em nossa mesa e começamos á conversar. Foi uma noite boa... Me divertir bastante... Mas ainda não era como antes... Era apenas um passo para meu novo recomeço, e confesso que as palavras de Yurika surtiram um efeito rápido em mim, era como se elas tivessem me sacudido, olhado nos meus olhos e me dissessem tudo o que eu não queria ouvir... A REALIDADE das coisas...

Foi o renascer de uma nova "L"...

sexta-feira, 4 de junho de 2010

16 - Encontrando um motivo para recomeçar...

Yurika estava parada diante de mim com um ar um pouco ameaçador, me estendeu a mão, hesitei em segurá-la, quando fiz, esta me puxou me levantando. Sem trocarmos uma palavra, Yurika me levou para casa, senti uma enorme vergonha em ser encontrada naquele estado,mas não disse, quis perguntar o que levara Yurika até o beco, minha boca se moveu mas não saia som algum.

Chegamos em casa, tomei um banho quente enquanto Yurika arrumava alguma coisa para nós duas comermos, liguei o chuveiro e quando a água quente caiu em meu rosto percorrendo meu corpo, senti um certo alivio em tirar toda aquela poeira da rua. Fiquei debaixo do chuveiro olhando para meus pés brancos como um gesso sentindo a água descer molhando meus cabelos.

Ouvi alguém batendo na porta do banheiro e chamando por mim, era Yurika.

- Anda “L”, já está ai faz meia hora! – reclamava a japonesinha. Me distraira tanto no banho que nem percebera a hora, depressa, desliguei o chuveiro, me enrolei na toalha e caminhei em diração ao quarto escolhendo a roupa mais quente que tinha. Uma calça de moletom preta, uma blusa de manga comprida e um casaco velho e surrado por cima.

Desci as escadas em direção á cozinha.

Yurika tomava uma xícara de café fumegante sentada em um banco alto da bancada, apenas deu um breve olhar para mim e me indicou o banco ao lado dela. Joguei uma mecha de meu cabelo atrás da orelha e me sentei, ainda sem falar nada. Quando é que aquele silêncio iria acabar? Me sentia encomodada, e pela primeira vez depois da morte de Klaus senti vontade de me abrir para Yurika.

- Ainda me lembro do dia em que cheguei naquela escola e vi um garoto de jaqueta preta, barba por fazer, cabelos lisos e olhos azuis, parado fumando um cigarro de pimenta encostado em um dos bancos do pátio. – comentou Yurika com um ar de riso na voz olhando pela janela.

Antes que pudesse fazer qualquer comentário sobre as palavras repentinas da oriental, ela continuou:

- Não demorou muito para que eu fizesse amizade com ele, gostávamos das mesmas coisas, eu tocava violão e ele baixo. Pela primeira vez não me senti discriminada ou excluída por minhas origens...

“ Ele era tranquilo, sempre com um olhar vago e um sorriso nos lábios, me disse que mexia com tatuagens, me interessei de verdade em fazer algumas tatuagens com ele, era um bom tatuador, não muito conhecido mas trabalhava muito bem. Fui expulsa da escola, mais tarde, ele completou o colegial...

“Nos reencontramos em um rock bar e voltamos á conversar... Ele havia me dito que estava totalmente apaixonado por uma garota... Uma garota especial, totalmente diferente das outras mas que estava totalmente perdida no mundo. – dei um leve sorriso ao ouvir essa frase – ‘De verdade Yurika, não sei como falar tudo o que sinto para ela...’ ele havia me dito, ri e disse ‘Klaus Herman apaixonado? Isso daria um bom livro...’”

Não pude deixar de rir ao ouvir essas palavras, antes que Yurika pudesse continuar já estava ás lágrimas, Klaus... Por que estava tentando apagar todas as lembranças dele de minha cabeça? Por que estava fazendo isso comigo mesma? Como eu pude fazer o que estava fazendo... Esse não era o jeito "L" de agir...

- E "L", não sei o que deu em você... Mas você está jogando pro alto todos os sonhos de Klaus.. - disse Yurika me encarando de forma séria - Tudo o que ele havia conquistado, o estúdio... Você não faz idéia o tanto que ele lutou para conseguir montar o negócio dele... E você nem está mais trabalhando com tatuagens... O que deu em você, garota? Onde está aquela pessoa maravilhosa que Klaus tanto me falava? Essa pessoa maravilhosa deu lugar á uma garota que não quer saber de correr atrás dos sonhos dela, que só sabe ficar sentada na Estação Central fumando um cigarro atrás do outro e bebendo?

Não consegui arranjar nenhuma justificativa para tudo o que Yurika me dizia, senti meu sangue queimare uma raiva enorme de mim mesma... Yurika estava certa, eu precisava seguir em frente e encarar a realidade de que Klaus não voltaria mais e conviver apenas com as lembranças dele...

Precisava arranjar um motivo para começar minha vida toda do zero... E qual seria esse motivo? Não sabia ao certo mas já começaria á agir...Amanhã mesmo abriria novamente o estúdio de tatuagens, pagaria as contas que estavam em débito, ligaria para os clientes, cortaria meu cabelo novamente (já estava na altura do ombro) e visitaria Laysla... (Essa última parte seria um pouco mais tensa, mas em fim...)

- Obrigada... - foi o que consegui dizer...

quinta-feira, 3 de junho de 2010

15 - Uma nova imagem

A estação Central não era um cenário digamos que familiar, era lá que passava meus dias, sentada no hall fumando um cigarro atrás do outro olhando as pessoas ao meu redor, não me pergunte porque escolhi esse lugar para passar meus dias, na verdade, nem eu mesma sabia.

Gostava daquele ambiente barra-pesada de imigrantes sujos procurando por prostitutas, banheiros sujos de sangue de drogados e adolescentes fumando e bebendo em rodas no hall. Na verdade fazia me sentir melhor ver pessoas que estavam em situações bem piores do que a minha, mas não era aquela vida que queria para mim. Eu estava sozinha novamente...

A única pessoa que ainda me fazia me sentir um pouco melhor e que realmente me impedia de fazer bobagens era Yurika; não via nela uma amiga com quem podia contar, mas de uma certa forma, não me sentia TÃO sozinha assim (embora eu estivesse).

Yurika me odiava ver na estação e tentava me convencer de nunca mais ir lá, mas não dava ouvidos á ela, uma vez briguei feio com a japonesinha na esperança de que me deixasse em paz, mas ela não deixou... Continuou indo lá em casa todos os finais de tarde e se não me encontrasse lá, ia na estação me buscar.

Ficava na estação na esperança de reencontrar Babsi, mas nunca dei realmente sorte em encontrá-la, uma vez perguntei á um velho imigrante se ele conhecia uma garota de cabelos cor-de-rosa conhecida como Babsi, este sorriu com seus dentes sujos e podres e disse com um sotaque sulista.

- Babsi... Você quis dizer a Cherry? Ela vem aqui de vez em quando se vender para os caras, mas faz tempos que não á vejo por aqui... Dizem que fica muito na Bahnhof Zoo...

Apenas balancei a cabeça e sai, então era verdade, Babsi realmente se prostituira e ainda por cima na Bahnhof Zoo, a estação de metrô perto do zoológico, o lugar mais repugnante de Berlim onde a maioria dos jovens passavam o dia se drogando e se prostituindo e tudo por causa dela... A heroína...

Tudo bem que a Estação Central não era um lugar muito menos repugnante que a Bahnhof Zoo, mas ainda assim era melhor do que a própria. Evitava passar por lá com medo de ver a decadência dos meus antigos amigos. Todos haviam sido vencidos pela heroína e estavam totalmente dependentes dela, imaginava que a situação de Babsi não era muito diferente.

Não comia nada, não dormia á noite, e não sentia mais nada; nem vontade de chorar, nem vontade de sorrir. Era como se fosse uma boneca de pano descosturada; sem vida, sem sentimentos e com um buraco no peito que nunca se fechava. Não encontrava sentido para viver e não entendia o porquê de existir.

Quando não estava na Estação do Metrô andava pelas ruas, como sempre tive costume, passei em frente a casa de Laysla uma ou dua vezes durante a semana, dei um leve sorriso ao me lembrar da garota e uma enorme curiosidade de saber como a garota estava veio em mim.

Parei e fiquei olhando a bela casa de madeira da rua cheia de árvores com uma praçinha bem próxima dali me lembrando de meu passado, de minhas coisas, era como se uma pequena chama houvesse despertado em meu frio coração. .

Ouvi o barulho de passos de alguém se aproximando, olhei para os lados, um latido, com certeza era Bill, o cachorro de Laysla. Uma voz de criança, era a voz de Laysla, sem pensar duas vezes sai correndo, não queria que a garota me visse no meu estado, mas ela me viu, gritou por meu nome (sim, meu verdadeiro nome), mas não me virei para trás, continuei correndo pra bem longe dali...

Só parei de correr quando cheguei em um beco todo sujo e cheio de caixas de papelão, me sentei sem ao menos sentir nojo daquele lugar, abraçei minhas pernas curtas e fiquei assim, olhando meu reflexo em uma poça d'água acumulada no chão de pedra. Havia tempos que não olhava minha imagem; estava totalmente magra, com olhos fundos e olheiras ao redor, meu cabelos não tinham mais aquele brilho louro, estava fosco e sem vida. Essa era a nova imagem de "L"...

Senti que alguém se aproximava, quando estava me preparando para sair, vi uma silhueta feminina, cabelos lisos, curtos e olhos puxados...

quarta-feira, 2 de junho de 2010

14 -Voltando á estaca Zero



Senti meu estômago remexer e um gosto de bile na minha boca, me segurei para não vomitar; o corpo de Klaus estava coberto por um plástico preto bem diante dos meus olhos. Fiquei perplexa, não conseguia me mexer e nem falar nada, a fisgada no meu coração voltou a doer.

As pessoas cochichavam entre si ao meu redor mas não consegui entender o que diziam, o policial continuava á fazer anotações em sua prancheta de madeira. Klaus...? Não estava acontecendo nada daquilo, fechei os olhos e preferi pensar que tudo aquilo não passava de um sonho e que Klaus estava lá dentro do estúdio, me esperando voltar com um sorriso no rosto e um cigarro de cereja pendurado na boca. Como ele sempre estivera...

(....)

Acordava durante as noites e olhava para o lado á procura de Klaus, ele ainda não havia voltado e meu corpo anciava pelo dele, me levantava e olhava pela janela e depois custava á pegar no sono novamente, ás vezes passava noites em claro... Esperando uma pessoa que não ia voltar.

Vários clientes de Klaus vieram me visitar durante a semana e saberem como eu estava, essa era a pergunta: Como você está? Apenas dava um leve sorriso e dizia : "Vou melhorar..." Yurika vinha várias vezes na semana, me fazia compania e ficávamos a tarde inteira conversando...

- Eu... Prefiro acreditar que Klaus não morreu... - comentei dando um leve gole na caneca de chá quente que ela havia preparado para nós duas, em uma tarde fria no fim da semana. - Acho que... é a única forma de não encarar a realidade, prefiro pensar que ele está viajando e que um dia vai cruzar aquela porta com um sorriso nos lábios, cabelos atrapalhados pelo vento e barba por fazer e de braços abertos em um abraço...

Chorei, como nunca havia chorado... Pela primeira vez chorei a morte de Klaus, já fazia duas semanas que ele havia morrido e desde então não chorara a morte dele, não acreditava, não aceitava que aquilo estava acontecendo.

Yurika me abraçou, me abraçou bem forte e retribui seu abraço me sentindo um pouco confortável, chorei, desesperei, sem ter vergonha de está chorando na frente de uma pessoa que não conhecia tão bem assim... Ela entendeu perfeitamente e ficou em silêncio, sem palavras do tipo : "Ele era uma boa pessoa" ou "Foi porque Deus quis", palavras que pessoas te dizem para consolar em momentos como esse mas que na verdade não resolvem nada.

Descarreguei toda minha tristeza daquelas duas semanas ali, com Yurika, a realidade estava vindo agora, e já era hora de aceitar que Klaus não retornaria, que eu nunca veria aquele sorriso novamente, nem ouviria sua risada nem sentiria sua boca na minha, e tudo aquilo me doía, me fazia falta e eu não conseguia aceitar o fato de não ter dito EU TE AMO quando pude...

Até hoje, a imagem dele sorrindo, meu nó na garganta em dizer essas palavras á ele ficam em minha cabeça e me assombram á noite... Digamos que não entrei em depressão, mas decaí bastante. Fumei mais cigarros por dia voltando ao velho hábito de comprar mais os de menta do que os de cereja. Voltei á beber e passar minhas noites na estação de metrô , sentada no hall de entrada.

Diversas vezes me perguntei: E agora? O que será de você "L"? Você tinha uma vida que julgava quase perfeita, um homem ao seu lado que te amava e te apoiava, um trabalho de que gostava, uma casa, planos futuros, e agora... Tudo havia evaporado como a chuva da calçada e eu estava novamente perdida no mundo, como me encontrei antes de rever Klaus...

segunda-feira, 31 de maio de 2010

13 – Flores na calçada

Os dias com Klaus iam se tornando cada vez melhores e eu me sentia relativamente feliz ao lado dele, mas sabe quando você sente que está faltando alguma coisa? Pois é, era assim que eu me sentia. Desde que mudei para a casa de Klaus, não vi meus irmãos e muito menos recebi noticias deles, já não me importava com eles e duvido que eles estavam pouco se fudendo para mim... Eles já imaginavam onde eu estava.

Quanto á me sentir incompleta, eu realmente não sabia o que estava faltando, mais tarde, eu descobriria o que era. Eu tinha uma casa, um namorado que me amava e um trabalho que eu gostava, no final do ano, Klaus e eu estávamos planejando em viajar para Kiel e realizar o itém número seis da minha lista.

O itém três estava praticamente realizado, pra quem não lembra, era ter uma familia. Me sentia nova para ter filhos e não sabia ao certo se queria ter um, Klaus sonhava com uma menina, mas ter filhos não estava nos nossos planos pelo menos por uns cinco anos juntos, queríamos curtir a vida enquanto éramos jovens.

De fato não voltei mais á escola, e com o passar dos dias, a idéia de voltar me parecia totalmente absurda, Klaus insistia falando que devia pelo menos terminar o colegial, mas para quê? Não me fazia a menor falta.

- Você devia ir pelo menos para prestar contas, você parou de ir sem ao menos falar com a diretora ou fechar sua matricula... – comentou Klaus outro dia.

- Eu sei mas... – ficava totalmente sem justificativa para rebater com ele, como sempre, ele tinha razão em alguma coisa e isso me deixava irritada ás vezes. - Por que não vai lá amanhã? – disse Klaus rindo da minha cara de aborrecida.

- Okay Klaus, você venceu... – disse cedendo. – Eu vou lá amanhã falar com a diretora e fechar as ‘contas’.

Me virei para o lado terminando de dobrar as roupas que havia lavado na semana passada, de repente sinto uma mão em minha cintura me puxando e me beijando na boca. Como SEMPRE me entreguei á Klaus o abraçando fortemente contra meu corpo.

Caimos na cama rindo dando leves selinhos na boca de Klaus, a barba dele estava começando á crescer irritando levemente minha pele, amava quando ele deixava a barba crescer.

- Sabe o que a gente podia fazer amanhã depois que você voltasse da escola? – perguntou Klaus olhando profundamente para meus olhos.

- Hum... – disse após dá um beijo longo nele.

- Almoçar naquele restaurante Kartoffelhaus na Karl-Liebknecht-Straße, o que acha? – propos Klaus com um sorriso no rosto. Arregalei os olhos, aquele restaurante era super caro e a comida deliciosa, o que Klaus estava pretendendo?

- Mas... Lá é tão caro! – finalmente disse.

- Eu sei... Mas a ocasião é especial – disse Klaus de um jeito misterioso e com um ar um pouco romantico. Nunca liguei realmente para romantismo e nunca havia conhecido esse lado de Klaus... Bom, parece que eu ia ficar conhecendo amanhã.

Estava super anciosa para ver o que Klaus estava planejando amanhã, e tentei me lembrar qual seria o motivo para tudo aquilo, mas não me lembrei...Durante o dia, arrumei a casa, ajudei Klaus á organizar as coisas no estúdio e sai para comprar cigarros de cereja, como custavam mais caro, tentava fumar menos cigarros possiveis por dia, mas acabava que tinha que comprar um maço todos os dias.

Já tentei parar de fumar por várias vezes, mas como todos os viciados em drogas licitas, quanto mais cedo se começa, mais complicado é largar o vicio depois, e esse era meu caso, comecei aos 14 anos e desde então o máximo que fiquei sem fumar foram 6 meses. Mas todas as vezes que via meus amigos fumando, não resistia, tinha que dar um trago.

Cheguei em casa, o sol já estava se pondo e Klaus estava sentado em sua poltrona habitual, no quarto olhando pela janela, adquirira o mesmo hábito que eu com nossa convivencia. Cheguei, ascendi o cigarro e passei um para ele. O abracei por trás e fiquei assim com ele, por um tempo, depois me virei e o beijei na boca.

Passamos a noite juntos novamente, dessa vez, sem trocarmos uma palavra, senti um nó na garganta e uma vontade enorme de dizer EU TE AMO para Klaus, até então, nunca havia dito essas palavras para ele. Olhei para o rosto dele, como sempre, calmo e tranquilo, dei um sorriso mas ele não viu, não disse o que queria dizer, não importava, ainda não estava pronta para dizer isto á ele...

No dia seguinte, levantei cedo e tomei meu café, Klaus ainda dormia profundamente em nosso quarto, subi as escadas novamente, droga! Havia esquecido de pegar meu casaco; era mais um dia frio em Berlim. Antes de sair dei uma ultima olhada no rosto de Klaus, sorri. Desci as escadas correndo abri a porta e mergulhei no vento frio da manhã cortando meu rosto.

(...)

O falatório da diretora Schirmer parecia que nunca teria um fim, falava coisas que eu já estava cansada de saber, e não cansava de repetir sobre a importancia da minha permanencia na escola... “Okay, sei que é totalmente errado abandonar a escola em meu último ano de colegial diretora Shirmer...” pensei, claro que ouvi todos aqueles sermões calada, mas minha língua já estava coçando para dizer tudo o que estava pensando.

A voz dela foi me dando agonia e uma vontade enorme de pular pela janela em direção ao pátio da escola foi crescendo dentro de mim, olhava para todos os cantos da sala de menos para o rosto de sapo murcho dela.

- Então, srta. Schultz – dei uma discreta risada que pra minha sorte a diretora não ouviu, havia tempos que as pessoas não me tratavam pelo meu sobrenome e ouvi-lo novamente era engraçado. – Aqui estão os formulários para a srta preencher...

Peguei o maço de papéis, tinha umas oito páginas no minimo para eu preencher, pedi uma caneta e comecei a preenche-los ali mesmo...Demorei mais tempo do que pretendia para conseguir acertar as coisas, olhei no relógio da escrivaninha da diretora Shirmer, estava um pouco atrasada para meu almoço com Klaus e ficava cada vez mais ansiosa.

Quando finalmente terminei de preencher tudo, meus pulsos estavam doendo de tanto escrever, me levantei silenciosamente e sai da sala indo em direção ao pátio da escola. Minha vida naquele lugar passou com um filme em minha cabeça.

Respirar o ar da rua me fez me sentir melhor e toda aquela ansiedade havia passado, tomei o metrô e desci no centro da cidade rumo em direção ao Kartoffelhaus Restaurant, dei uma olhada nas mesas e não vi Klaus lá, estava atrasada fazia uma hora, onde será que Klaus estava?Me sentei em uma mesa perto da janela e fiquei olhando as pessoas passarem pela rua, o garçom veio me perguntar se eu aceitava alguma coisa, apenas sorri e disse : “Não, muito obrigada, estou esperando meu namorado, quando ele chegar, pediremos alguma coisa”, o homem concordou com a cabeça e se retirou me deixando sozinha com meus pensamentos.

Se passaram mais uma hora e nada de Klaus aparecer, aquela ansiedade que havia passado quando sai da sala da diretora tomou conta de mim novamente, sai do restaurante e fui até um telefone público em frente ao estabelecimento ligar para casa. O telefone chamou inúmeras vezes mas Klaus não atendeu, voltei para dentro do restaurante esperar mais algum tempo, uma enorme vontade de chorar invadiu meu peito. Senti uma fina lágrima brotar em meus olhos e rolar por minhas bochechas, limpei com as costas da mão, me levantei mais uma vez e fui embora.

Estava totalmente decepcionada com Klaus, andava desorientada pela rua sem ao menos ver as pessoas em minha frente, comecei a correr desesperada e chorar mais ainda. Não sabia para onde estava ainda, só queria fugir dali. Uma dor forte invadiu meu peito, o que era aquilo? A imagem de Klaus veio repentinamente em minha cabeça, olhei para o relógio da estação do metrô, o que aconteceu com Klaus?

Decidi voltar para casa e ver se ele estava lá, peguei o metrô e Klaus não saia de minha cabeça por todo o caminho, desci na estação perto de nossa casa, fui andando alguns quarteirões até avistar uma aglomeração de pessoas na rua faziam uma roda em volta de alguma coisa, fiquei na ponta dos pés para ver o que era.

Percebi que a confusão estava exatamente na porta do estúdio de Klaus.Senti um nó em minha garganta e novamente as lágrimas quiseram brotar de meus olhos, fui me apertando entre as pessoas até chegar no centro da roda, um policial fazia algumas anotações no papel, olhei para baixo, meus olhos não acreditavam no que eu via... Não... Não era aquilo que estava acontecendo, nada daquilo estava acontecendo comigo...

Meus olhos estavam emaranhados de lágrimas e a única coisa que consegui enxergar era um buquê de rosas ao lado de um corpo caído na calçada...