quinta-feira, 3 de junho de 2010

15 - Uma nova imagem

A estação Central não era um cenário digamos que familiar, era lá que passava meus dias, sentada no hall fumando um cigarro atrás do outro olhando as pessoas ao meu redor, não me pergunte porque escolhi esse lugar para passar meus dias, na verdade, nem eu mesma sabia.

Gostava daquele ambiente barra-pesada de imigrantes sujos procurando por prostitutas, banheiros sujos de sangue de drogados e adolescentes fumando e bebendo em rodas no hall. Na verdade fazia me sentir melhor ver pessoas que estavam em situações bem piores do que a minha, mas não era aquela vida que queria para mim. Eu estava sozinha novamente...

A única pessoa que ainda me fazia me sentir um pouco melhor e que realmente me impedia de fazer bobagens era Yurika; não via nela uma amiga com quem podia contar, mas de uma certa forma, não me sentia TÃO sozinha assim (embora eu estivesse).

Yurika me odiava ver na estação e tentava me convencer de nunca mais ir lá, mas não dava ouvidos á ela, uma vez briguei feio com a japonesinha na esperança de que me deixasse em paz, mas ela não deixou... Continuou indo lá em casa todos os finais de tarde e se não me encontrasse lá, ia na estação me buscar.

Ficava na estação na esperança de reencontrar Babsi, mas nunca dei realmente sorte em encontrá-la, uma vez perguntei á um velho imigrante se ele conhecia uma garota de cabelos cor-de-rosa conhecida como Babsi, este sorriu com seus dentes sujos e podres e disse com um sotaque sulista.

- Babsi... Você quis dizer a Cherry? Ela vem aqui de vez em quando se vender para os caras, mas faz tempos que não á vejo por aqui... Dizem que fica muito na Bahnhof Zoo...

Apenas balancei a cabeça e sai, então era verdade, Babsi realmente se prostituira e ainda por cima na Bahnhof Zoo, a estação de metrô perto do zoológico, o lugar mais repugnante de Berlim onde a maioria dos jovens passavam o dia se drogando e se prostituindo e tudo por causa dela... A heroína...

Tudo bem que a Estação Central não era um lugar muito menos repugnante que a Bahnhof Zoo, mas ainda assim era melhor do que a própria. Evitava passar por lá com medo de ver a decadência dos meus antigos amigos. Todos haviam sido vencidos pela heroína e estavam totalmente dependentes dela, imaginava que a situação de Babsi não era muito diferente.

Não comia nada, não dormia á noite, e não sentia mais nada; nem vontade de chorar, nem vontade de sorrir. Era como se fosse uma boneca de pano descosturada; sem vida, sem sentimentos e com um buraco no peito que nunca se fechava. Não encontrava sentido para viver e não entendia o porquê de existir.

Quando não estava na Estação do Metrô andava pelas ruas, como sempre tive costume, passei em frente a casa de Laysla uma ou dua vezes durante a semana, dei um leve sorriso ao me lembrar da garota e uma enorme curiosidade de saber como a garota estava veio em mim.

Parei e fiquei olhando a bela casa de madeira da rua cheia de árvores com uma praçinha bem próxima dali me lembrando de meu passado, de minhas coisas, era como se uma pequena chama houvesse despertado em meu frio coração. .

Ouvi o barulho de passos de alguém se aproximando, olhei para os lados, um latido, com certeza era Bill, o cachorro de Laysla. Uma voz de criança, era a voz de Laysla, sem pensar duas vezes sai correndo, não queria que a garota me visse no meu estado, mas ela me viu, gritou por meu nome (sim, meu verdadeiro nome), mas não me virei para trás, continuei correndo pra bem longe dali...

Só parei de correr quando cheguei em um beco todo sujo e cheio de caixas de papelão, me sentei sem ao menos sentir nojo daquele lugar, abraçei minhas pernas curtas e fiquei assim, olhando meu reflexo em uma poça d'água acumulada no chão de pedra. Havia tempos que não olhava minha imagem; estava totalmente magra, com olhos fundos e olheiras ao redor, meu cabelos não tinham mais aquele brilho louro, estava fosco e sem vida. Essa era a nova imagem de "L"...

Senti que alguém se aproximava, quando estava me preparando para sair, vi uma silhueta feminina, cabelos lisos, curtos e olhos puxados...