sexta-feira, 4 de junho de 2010

16 - Encontrando um motivo para recomeçar...

Yurika estava parada diante de mim com um ar um pouco ameaçador, me estendeu a mão, hesitei em segurá-la, quando fiz, esta me puxou me levantando. Sem trocarmos uma palavra, Yurika me levou para casa, senti uma enorme vergonha em ser encontrada naquele estado,mas não disse, quis perguntar o que levara Yurika até o beco, minha boca se moveu mas não saia som algum.

Chegamos em casa, tomei um banho quente enquanto Yurika arrumava alguma coisa para nós duas comermos, liguei o chuveiro e quando a água quente caiu em meu rosto percorrendo meu corpo, senti um certo alivio em tirar toda aquela poeira da rua. Fiquei debaixo do chuveiro olhando para meus pés brancos como um gesso sentindo a água descer molhando meus cabelos.

Ouvi alguém batendo na porta do banheiro e chamando por mim, era Yurika.

- Anda “L”, já está ai faz meia hora! – reclamava a japonesinha. Me distraira tanto no banho que nem percebera a hora, depressa, desliguei o chuveiro, me enrolei na toalha e caminhei em diração ao quarto escolhendo a roupa mais quente que tinha. Uma calça de moletom preta, uma blusa de manga comprida e um casaco velho e surrado por cima.

Desci as escadas em direção á cozinha.

Yurika tomava uma xícara de café fumegante sentada em um banco alto da bancada, apenas deu um breve olhar para mim e me indicou o banco ao lado dela. Joguei uma mecha de meu cabelo atrás da orelha e me sentei, ainda sem falar nada. Quando é que aquele silêncio iria acabar? Me sentia encomodada, e pela primeira vez depois da morte de Klaus senti vontade de me abrir para Yurika.

- Ainda me lembro do dia em que cheguei naquela escola e vi um garoto de jaqueta preta, barba por fazer, cabelos lisos e olhos azuis, parado fumando um cigarro de pimenta encostado em um dos bancos do pátio. – comentou Yurika com um ar de riso na voz olhando pela janela.

Antes que pudesse fazer qualquer comentário sobre as palavras repentinas da oriental, ela continuou:

- Não demorou muito para que eu fizesse amizade com ele, gostávamos das mesmas coisas, eu tocava violão e ele baixo. Pela primeira vez não me senti discriminada ou excluída por minhas origens...

“ Ele era tranquilo, sempre com um olhar vago e um sorriso nos lábios, me disse que mexia com tatuagens, me interessei de verdade em fazer algumas tatuagens com ele, era um bom tatuador, não muito conhecido mas trabalhava muito bem. Fui expulsa da escola, mais tarde, ele completou o colegial...

“Nos reencontramos em um rock bar e voltamos á conversar... Ele havia me dito que estava totalmente apaixonado por uma garota... Uma garota especial, totalmente diferente das outras mas que estava totalmente perdida no mundo. – dei um leve sorriso ao ouvir essa frase – ‘De verdade Yurika, não sei como falar tudo o que sinto para ela...’ ele havia me dito, ri e disse ‘Klaus Herman apaixonado? Isso daria um bom livro...’”

Não pude deixar de rir ao ouvir essas palavras, antes que Yurika pudesse continuar já estava ás lágrimas, Klaus... Por que estava tentando apagar todas as lembranças dele de minha cabeça? Por que estava fazendo isso comigo mesma? Como eu pude fazer o que estava fazendo... Esse não era o jeito "L" de agir...

- E "L", não sei o que deu em você... Mas você está jogando pro alto todos os sonhos de Klaus.. - disse Yurika me encarando de forma séria - Tudo o que ele havia conquistado, o estúdio... Você não faz idéia o tanto que ele lutou para conseguir montar o negócio dele... E você nem está mais trabalhando com tatuagens... O que deu em você, garota? Onde está aquela pessoa maravilhosa que Klaus tanto me falava? Essa pessoa maravilhosa deu lugar á uma garota que não quer saber de correr atrás dos sonhos dela, que só sabe ficar sentada na Estação Central fumando um cigarro atrás do outro e bebendo?

Não consegui arranjar nenhuma justificativa para tudo o que Yurika me dizia, senti meu sangue queimare uma raiva enorme de mim mesma... Yurika estava certa, eu precisava seguir em frente e encarar a realidade de que Klaus não voltaria mais e conviver apenas com as lembranças dele...

Precisava arranjar um motivo para começar minha vida toda do zero... E qual seria esse motivo? Não sabia ao certo mas já começaria á agir...Amanhã mesmo abriria novamente o estúdio de tatuagens, pagaria as contas que estavam em débito, ligaria para os clientes, cortaria meu cabelo novamente (já estava na altura do ombro) e visitaria Laysla... (Essa última parte seria um pouco mais tensa, mas em fim...)

- Obrigada... - foi o que consegui dizer...