" Mudamos para Berlim, nossos pais haviam deixado uma boa quantia em dinheiro como herança... Vendemos nossa antiga casa e guardamos o dinheiro para comprarmos outra em nossa nova cidade... Nos emancipamos nos tornando responsáveis por nossos atos e totalmente independentes.
Nossos parentes distantes nos ajudaram no inicio, mas depois de dois meses da morte de nossos pais, pareciam que haviam esquecido da gente... Toda aquela gentileza e vontade de nos ajudar havia evaporado... Fodas também... Não precisávamos dele...
Nos viramos desde novos, Detlef no inicio cuidava muito de mim e de Atlze, eu me sentia totalmente sem rumo, era como se todo o sentido da vida tivesse ido embora... Custei a superar aquele trauma... (Acredito que até hoje choro silenciosamente a morte de meus pais...)
Quando nos mudamos para Berlim, meus irmãos começaram a trabalhar e não terminaram o colegial, eu comecei a frequentar as escolas públicas da cidade... Antes, éramos unidos, como unha e carne, mas toda aquela irmandade estava chegando ao fim. Não conversávamos muito e quase não sabiamos um da vida do outro. Era horrível aquele clima, comecei a ir cada vez menos em casa e passar mais tempo na rua...
No inicio, conhecia pessoas normais, legais... Mas quando entrei pro colegial, comecei a desandar... Entrar para um mundo totalmente diferente do meu onde as pessoas dormiam uma noite com o cara e no dia seguinte com outro... Era farra e pura curtição... Achei nesse grupo um refúgio e uma forma de tentar esquecer meu problemas... Comecei a fumar cedo e beber muito.... Nunca cheguei a usar drogas, embora quase todos do grupo usassem. Frenquentavam a Estação do Metrô e se picavam de três á cinco vezes por dia... Eles estavam no fundo do poço. Foi mais ou menos nessa época (entre 14 e 15 anos) que me descobri bissexual, sentia uma enorme atração pelas mulheres... Não era uma TOTAL identidade minha ,mas quem me conhecia sabia muito bem de minhas preferências.
Minha vida começou a mudar um pouco quando conheci Klaus... Um velho amigo meu... Comecei a suspeitar que este estava gostando de mim... Ele tinha um histórico um pouco parecido com o meu, embora não tivesse perdido os pais... Mas estava totalmente perdido no mundo... Ficamos juntos por muitas vezes, íamos e voltávamos... Como um pendulo de um relógio antigo...
De fato não sei se era amor o que sentia por Klaus, mas sabia que sentia uma enorme necessidade de tê-lo comigo... Ele me fazia me sentir especial... Estávamos vivendo juntos, minha vida estava voltando ao normal... Mas aquilo aconteceria novamente... Quando menos eu esperava, Klaus me deixou... Para sempre... E eu me vi perdida nas ruas da cidade sem ninguém por perto...
Faz pouco tempo que me recuperei do trauma de ter perdido Klaus... Quando finalmente havia superado tudo e conseguido vencer as dificuldades... Vem a vida e me joga mais um balde de água fria... Me derrubando novamente... E agora to aqui... E tento seguir em frente de alguma forma... Mas as cicatrizes não fecharam, elas continuam sangrando..."