sábado, 26 de junho de 2010

27 - Esperar até quando?

Fevereiro finalmente chegara e nenhuma noticia de Dereck, as vezes ficava pensando se ele realmente voltaria ou se estava apenas me enrolando... Droga, estava começando a ficar desesperada e faltavam apenas duas semanas para meu aniversário de 19 anos...

Parei de ir ao apartamente dele, aquele lugar que antes era confortável e seguro para mim se tornou hostil e desesperador, a cada canto dos comodos que eu olhava vinha a imagem de Dereck com um cigarro entre os dedos e um meio sorriso no rosto me encarando. Passei a frequentar mais a casa de Yurika agora que as temperaturas estavam voltando a subir um pouco e o frio não queimava meu rosto quando saia na rua.

Yurika continuava tocando naquele velho barzinho todas as noites agora que o movimento de pessoas circulando crescera um pouco, nessa semana tive uns três clientes no total aumentando um pouco minha renda, já que as tatuagens eram caras. Tentei ao máximo não demonstrar minha aflição para Yurika, mas essa tentativa foi fracassada pois a japonesinha percebia claramente minha expressão de ansiedade.

- Ele vai voltar... - Yurika comentou outro dia enquanto comíamos pipoca de microondas em sua casa e assistiamos á um filme, sentadas no tapete da sala enroladas em mantas.

Olhei para ela sem entender o porquê desse comentário tão repentino, não falei mais nada, apenas olhei para minhas próprias mãos e comecei a amassagar a pipoca entre meus dedos. É Yurika, eu queria de verdade acreditar em você... Olhei mais uma vez para a janela. Yurika não dissera mais nada e ficamos em silêncio até o filme acabar.

- Sabe "L", estava pensando da gente sair no dia do seu aniversário... E estava me perguntando se você gostaria de ir em algum lugar em especial... - comentou Yurika juntando os copos de refri e a bacia de pipoca levando-os até a cozinha estreita de seu apartamento.

- Hum... - comentei pensativa, acho que não tinha nada em especial que queria fazer no dia do meu aniversário, se Dereck voltasse antes disso estaria totalmente feliz. - Não... Não tem nada em especial que eu queira fazer ou algum lugar que eu queira ir...

- Entendo - Yurika ficou em silencio por alguns minutos - Já que é assim passarei na sua casa para a gente fazer alguma coisa juntas, se quiser ir em algum lugar, por favor me diga que nós iremos sem problema algum... Você ainda tem duas semanas para pensar né?

Sorri com as palavras de Yurika e a abracei bem forte. Obrigada minha japonesa preferida... Obrigada por está comigo durante esse tempo e por não me abandonar por momento algum.... Obrigada por me entender sem ao menos eu dizer uma palavra e muito obrigada por ter me ajudado a superar a morte de Klaus... Eu não sei o que seria de mim sem sua ajuda.
Essas palavras passaram por minha cabeça mas não saíram de minha boca, nem precisava, Yurika já sabia de tudo aquilo sem eu ao menos falar...

Nesse dia dormi na casa de Yurika e levantei bem cedo no dia seguinte porque tinha um cliente ás 8h da manhã. Prometera passar lá mais tarde para fazermos algumas coisas juntas, Yurika ás vezes se sentia tão sozinha quanto eu.

Durante essas duas semanas que antecederam meu aniversário, não pensei em nada em especial que eu quisesse fazer nesse dia, na verdade já estava de bom tamanho Yurika passar lá em casa e ficar comigo durante esse dia. Eu não iria trabalho no dia 16 de Fevereiro, não mesmo.

Finalmente aceitara o desaparecimento de Dereck durante esses dois meses... Aceitara em partes, mas sabia perfeitamente que não poderia fazer outra coisa além de esperar e esperar... Mas esperar até quando? Eu não parava de pensar nisso.

26 - Fotografias

A chegada do inverno em Berlim fez as temperaturas caírem drasticamente e o movimento de pessoas andando na rua diminuira bastante. Eu mesma era um exemplo de pessoa que não saía muito no inverno, ficava em casa debaixo das minhas cobertas, fumando meu Black Stone de Cereja e tomando uma caneca de chocolate-quente. Isso sim era vida.

Não tinha muito trabalho, fazia dias que não aparecia um cliente, mas não fazia mal, logo que a primavera chegasse os clientes voltariam e eu estaria esperando por eles com novos modelos de tatuagens. Yurika havia trazido alguns livros que ela gostava para eu passar meus dias com algo pra fazer (já que não gostava muito de assistir TV).

Na maioria das vezes não passava os dias em minha casa e sim no apartamento de Dereck, naquele dia que ele fora no estúdio com a noticia de que viajaria deixou as chaves de seu apartamente comigo pedindo-me que fosse lá de vez em quando tomar conta das coisas dele, mas sabia que suas intenções eram outras...

Ficava olhando a falta de movimento na rua pela janela do quarto de Dereck, tudo estava branco, as calçadas cobertas por um tapete branco emplumado e os pequenos flocos de neve caindo graciosamente do céu. Era inicio de Janeiro e faltava pouco mais de um mês para meu aniversário... Será que o veria antes disso?

Sempre quando estava na casa de Dereck passava o dia inteiro pensando nele e no que ele estaria fazendo... Claro que não perdia a oportunidade de remexer algumas coisas suas e ver as fotos que ele tirava... Elas ficavam guardadas em uma caixa enorme de madeira em cima do guarda-roupa. Um dia tirei-a de lá e espalhei as fotos pelo chão analisando-as cuidadosamente; um casal de velhinhos lendo um livro em uma praça qualquer de Berlim, crianças correndo pelo parque, casais de namorados se beijando e muitas, muitas fotos de natureza principalmente das folhas secas de outono. Será que ele apreciava o Outono tanto quanto eu?

Mas de fato, as fotos que mais me chamaram atenção foram as de Kiel, sua cidade natal... Fotos do Canal de Kiel, do Scholoss (o castelo, século XVI), a Igreja de São Nicolau e o Rathaus (governo municipal), esses eram alguns dos monumentos da cidade que pertencia ao estado de Schleswig-Holstein...

Ei... Dereck, quando você vai voltar?

sábado, 19 de junho de 2010

25 - Espera...

Pelo menos dessa vez agirei diferente, pensei sentada em meu quarto fumando meu cigarro de cereja sentindo aquele gostinho doce em meus lábios, naquele dia quando sai da casa de Dereck com a blusa dele senti que estava prestes á acontecer algo entre a gente, mas não aconteceu... As coisas aconteceriam de uma maneira especial...

A blusa dele estava em minhas mãos e ainda preservava aquele cheiro... Dei uma leve fungada na blusa e a imagem de Dereck me olhando trocar de blusa com aquela expressão de bobo no rosto me veio á cabeça... Fazia uma semana que não nos víamos...

Quando cheguei em casa naquele dia tomei um banho, guardei a blusa dele junto com minhas roupas e trabalhei... Tinha três seções de tatuagens naquele dia... Sai á noite com Yurika e contei á ela sobre Dereck, ela riu como sempre e disse:

- Invista nisso... Vai te fazer bem...

Que ia me fazer bem ou não, não me importava, eu me arriscaria, mais uma vez... E dessa vez, estava disposta á me entregar, de amar de verdade, sem medos e receios, sem os fantasmas do meu passado me perseguindo... Eu precisava de uma nova identidade... Continuaria a L... Mas dessa vez mais forte e mais ousada...

Só faltava uma coisa; estar pronta para assumir meu nome... Mas isso ainda demoraria algum tempo... Vocês devem está se perguntando o porquê de não falar meu nome né? Ele me faz lembrar minha mãe... Mais tarde entenderão porque...

Esperei que Dereck me procurasse... Era a vez dele vir até mim.... Quando cruzei a porta do prédio, ele me chamou, deu um sorriso e disse: " Me espera... Que quando você menos esperar aparecerei novamente..." Eu acreditei nas palavras dele, ele as disse com tanta convicção que me senti mais tranquila dessa vez...

Estava arrumando as coisas no estúdio quando o sininho da campainha sobre a mesa tocou, olhei pelo canto de olho e o vi, parado na minha frente com as mãos no bolso, cigarro na boca e olhar vago, sorri ao vê-lo

- Sabia que viria - comentei com um ar presunçoso fazendo-o rir. Com um movimento rápido ele jogou minha blusa manchada de café (agora limpa e cheirosa) em minha direção e a peguei com um reflexo, a pendurei no ombro e continuei arrumando as coisas.

Ele ficou ali, parado me observando, sentou-se em uma das cadeiras do estúdio e cruzou os braços.

- Eu vim pra te falar uma coisa... - disse Dereck brevemente, sua voz era grave e estranha, comecei a ficar preocupada.

- O que é? - perguntei encarando-o com uma das tintas na mão.

- Vou passar um tempo fora... Fora da Alemanha... E não sei quando vou voltar... - disse Dereck sem me olhar nos olhos brincando de ascender e apagar o isqueiro.

O pote de tinta na minha mão caiu espalhando todo o conteúdo pelo chão do estúdio, tenho certeza que meu rosto ficou branco como um giz e parecia que meu sangue não circulava mais por meu corpo, podia jurar que choraria novamente na frente de Dereck, mas fui mais forte e engoli um seco, um nó em minha garganta se formou. Abaixei a cabeça

- Tá... Tudo bem... - disse ainda com a cabeça baixa.

- "L" eu... - Dereck começou a dizer se aproximando de mim mas eu ergui minha mão o barrando, levantei a cabeça e o encarei, ele paralizou.

- Não precisa explicar nada... Tudo bem... - tentei sorrir - Você volta?

- Claro... Volto... Por você...

Meus olhos arregalaram, não pude deixar de sorrir mais uma vez e sentir uma lágrima quente descendo por meu rosto, me aproximei mais dele e pude ver seus olhos no reflexo dos meus, o abracei forte... Me senti totalmente arrasada, era ruim pensar em ficar um tempo indeterminado sem vê-lo... Mas ao mesmo tempo que estava triste, alguma coisa dentro de mim me mantinha calma...

- Vou te esperar... - olhei para ele novamente e ele passou suas mãos grossas em volta do meu pescoço, ele fechou os olhos e me apertou contra seu peito afagando meus cabelos os desarrumando ainda mais, tava tudo bem... Ia dá tudo certo...




sexta-feira, 18 de junho de 2010

24 - Joguinho...

Foi muito, muito, muito dificil lembrar daquilo tudo e mais dificil ainda contar á uma pessoa que eu praticamente desconhecia... Dereck ficou ao meu lado o tempo todo em que contei minha história, e chorei tanto... Tanto... Mas de uma certa forma aquilo foi bom... O choro lava nossa alma, e eu sentia a minha até cristalizada...

De fato Dereck era especial de alguma forma pra mim, nunca contei isso á quase ninguém... Praticamente a única pessoa que sabia disso tudo era Klaus... Tentava não lembrar de meu passado, mas eu simplesmente não conseguia seguir em frente sem fechar essas feridas, sem curá-las... Alguém as fecharia para mim...

Depois de algum tempo chorando e abraçada com Dereck, a dor passou... Tudo iria melhorar, eu tinha certeza disso, era como se Klaus estivesse novamente ali ao meu lado e os rostos de meus pais sorrindo para mim veio em minha mente, via a imagem deles com clareza, como nunca tinha visto antes...

Estava tarde para voltar para casa e a cada minuto me sentia mais exausta, adormeci no ombro de Dereck abraçada á ele, sem que eu percebesse, durante a madrugada, ele tirou meu tenis, me carregou e me levou até seu quarto me colocando em sua cama, acordei durante a noite e o vi sentado em um sofá de frente para a cama, dormindo com a boca aberta. Dei um leve sorriso e me apertei mais ainda aos lençóis dele sentindo novamente aquele cheiro que me deixava excitada. Peguei no sono novamente.

Acordei na manhã do dia seguinte e vi a imagem de Dereck me observando atentamente com aqueles olhos azuis penetrantes... Me senti um pouco constrangida e vi que uma das mangas da minha blusa estava totalmente caída revelando meu ombro. Dereck sorriu ao me ver acordada.

- VI uma das tatuagens... - disse ele apontando para a cereja em meu ombro. Não pude deixar de sorrir com o comentário dele. Ele se aproximou de mim, sentou na beirada da cama de casal colocou a mão em minha nuca e me encarou nos olhos. Meu coração acelerou e senti o sangue subir em minha cabeça, sua boca estava á centímetros da minha e podia sentir seu hálito de café (adorava aquele cheiro), jurava que ele iria me beijar, mas não o fez...

Eh... Me senti frustrada mas não demonstrei muito, ele se afastou lentamente de mim e pigarreou, hahaha, ele sempre fazia isso.

- Você... Tá bem, "L"? - perguntou estendendo uma caneca de café. - Tomei a liberdade de trazer pra você...

Aceitei com um leve sorriso no rosto, tomei um gole, o café era bom e amargo.

- Sim... Me sinto bem melhor... - disse. - Me desculpe se te fiz dormir no sofá...

- Não tem problema, eu poderia ter dormido ao seu lado... Sem fazer nada é claro, mas queria te deixar á vontade... - respondeu ele com um sorriso maroto brincando nos lábios.

Era minha vez de brincar e dá indiretas á ele.

- Quem sabe algum dia não dividimos a cama?

Eu ri internamente da expressão de surpresa no rosto de Dereck, ele arregalou os olhos, ergueu umas das sobrancelhas daquele jeito que me fazia rir e olhou para os lados... Fico VERMELHO literalmente.

- É... Por que não agora? - é... ele não perdia uma chance de dá indiretas á mim e quando achei que tinha conseguido deixá-lo totalmente sem reação ele dava um jeito de sair 'limpo' na história. Agora era eu quem estava sem reação.

- Um dia quem sabe... - foi o que consegui dizer... Uma gotinha de café pingou em minha blusa, próxima aos meus seios e a limpei instantaneamente com a ponta dos dedos, droga! Tinha que acontecer isso. Dereck percebeu e deu uma risada.

- Quer uma blusa minha emprestada? - ofereceu ele apontando para a mancha. Aceitei erguendo uma sobrancelha como ele fazia - Só que.... Tem uma condição...

- Qual? - perguntei rindo.

- Vai ter que trocar de blusa na minha frente... - disse Dereck novamente com aquele sorriso maroto no rosto.

HAHAHAHAHAHA, ele não estava fazendo isso comigo, mas eu entendi o joguinho dele, e resolvi jogar também.

- Fechado... - respondi.

Ele se dirigiu até uma gaveta de seu guarda-roupa e tirou uma blusa preta de manga comprida e jogou para mim, o encarei nos olhos tirando minha blusa manchada levemente de café e vi que ele não tirava os olhos de mim e de meu corpo (principalmente de meus seios), lógico que fiz meu joguinho-sedução-L e fiz uma horinha até vestir a outra blusa. Eu ria da cara de bobo de Dereck me olhando sem ao menos piscar, vesti a blusa dele e ela ficou um pouco grande em mim, mas era ótima, macia, delicada e com o cheiro dele...

Dei uma leve piscada rindo e ele sorriu, ainda com aquela cara de bobo, estava escrito nos olhos dele que ele me desejava e que estava se segurando para não sair dali e me agarrar... E eu também.



domingo, 13 de junho de 2010

23 - Desvendando passados... (Part 3)

" Mudamos para Berlim, nossos pais haviam deixado uma boa quantia em dinheiro como herança... Vendemos nossa antiga casa e guardamos o dinheiro para comprarmos outra em nossa nova cidade... Nos emancipamos nos tornando responsáveis por nossos atos e totalmente independentes.

Nossos parentes distantes nos ajudaram no inicio, mas depois de dois meses da morte de nossos pais, pareciam que haviam esquecido da gente... Toda aquela gentileza e vontade de nos ajudar havia evaporado... Fodas também... Não precisávamos dele...

Nos viramos desde novos, Detlef no inicio cuidava muito de mim e de Atlze, eu me sentia totalmente sem rumo, era como se todo o sentido da vida tivesse ido embora... Custei a superar aquele trauma... (Acredito que até hoje choro silenciosamente a morte de meus pais...)

Quando nos mudamos para Berlim, meus irmãos começaram a trabalhar e não terminaram o colegial, eu comecei a frequentar as escolas públicas da cidade... Antes, éramos unidos, como unha e carne, mas toda aquela irmandade estava chegando ao fim. Não conversávamos muito e quase não sabiamos um da vida do outro. Era horrível aquele clima, comecei a ir cada vez menos em casa e passar mais tempo na rua...

No inicio, conhecia pessoas normais, legais... Mas quando entrei pro colegial, comecei a desandar... Entrar para um mundo totalmente diferente do meu onde as pessoas dormiam uma noite com o cara e no dia seguinte com outro... Era farra e pura curtição... Achei nesse grupo um refúgio e uma forma de tentar esquecer meu problemas... Comecei a fumar cedo e beber muito.... Nunca cheguei a usar drogas, embora quase todos do grupo usassem. Frenquentavam a Estação do Metrô e se picavam de três á cinco vezes por dia... Eles estavam no fundo do poço. Foi mais ou menos nessa época (entre 14 e 15 anos) que me descobri bissexual, sentia uma enorme atração pelas mulheres... Não era uma TOTAL identidade minha ,mas quem me conhecia sabia muito bem de minhas preferências.

Minha vida começou a mudar um pouco quando conheci Klaus... Um velho amigo meu... Comecei a suspeitar que este estava gostando de mim... Ele tinha um histórico um pouco parecido com o meu, embora não tivesse perdido os pais... Mas estava totalmente perdido no mundo... Ficamos juntos por muitas vezes, íamos e voltávamos... Como um pendulo de um relógio antigo...

De fato não sei se era amor o que sentia por Klaus, mas sabia que sentia uma enorme necessidade de tê-lo comigo... Ele me fazia me sentir especial... Estávamos vivendo juntos, minha vida estava voltando ao normal... Mas aquilo aconteceria novamente... Quando menos eu esperava, Klaus me deixou... Para sempre... E eu me vi perdida nas ruas da cidade sem ninguém por perto...

Faz pouco tempo que me recuperei do trauma de ter perdido Klaus... Quando finalmente havia superado tudo e conseguido vencer as dificuldades... Vem a vida e me joga mais um balde de água fria... Me derrubando novamente... E agora to aqui... E tento seguir em frente de alguma forma... Mas as cicatrizes não fecharam, elas continuam sangrando..."

23 - Desvendando passados... (Part 2)

"Eu morava com meus pais em Frankfurt na Alemanha, morava em uma casa enorme de madeira e um lindo jardim na frente. Minha mãe; Sabine Schultz era uma grande empresária mas passava uma grande parte de seu tempo comigo e meus irmãos. Era engraçado uma grande empresária ter tempo para seus filhos, eu e meus irmãos achávamos aquilo ótimo. Meu pai; Hans Schultz trabalhava junto com minha mãe.

Fui criada e educada nas melhores escolas de Frankfurt, sim, eu era uma excelente aluna. Eu e meus irmãos sempre fomos unidos apesar de nossas diferenças de idade, sempre brincávamos juntos e tinhamos tudo o que precisávamos; o amor de nossos pais, uma boa casa, família unida, uma boa condição financeira entre outras coisas.

Eu era uma criança bastante curiosa, como toda criança, já subi muito em árvores, brincáva com os vizinhos, tinha um enorme chachorro da raça colie que chamava Lessie (igual ao filme) e amigos na escola.

Tudo, tudo era perfeito... Mas da noite para o dia, ,minha vida mudou... E eu vi minha felicidade escorrendo pelo ralo como a água da pia do banheiro. Foi quando eu tinha 12 anos... Meus pais tiveram que viajar para uma viagem á negócio... Era um pouco frequente esse tipo de coisa, eu e meus irmãos ficávamos em casa sozinhos sem nenhum problema. Mas daquela vez não...

Aconteceu algo inesperado... Estávamos reunidos na sala conversando e rindo como fazíamos... O telefone tocou, corri para atende-lo na esperança de ser papai e mamãe telefonando para a gente... Uma voz masculina e estranho falou do outro lado da linha.

- Ai que eh a casa dos Schultz?

Achei aquilo estranho mas confirmei na maior das inocencias, quem poderia ser?

- E você seria filha deles? - perguntou o homem.

- Sim... - confirmei mais uma vez.

- Tem alguém de maior ai com vocês? - perguntou o homem, todas aquelas perguntas estavam me deixando nervosa, o que poderia ter acontecido?

- Não... Mas posso chamar meu irmão mais velho, Detlef... - respondi.

Chamei Detlef, passei o telefone para ele. O homem falou algumas coisas que deixavam Detlef petrificado, não consegui escutar o que era, a noticia bomba veio no momento que Detlef colocou o telefone no gancho.

- O que aconteceu? - perguntou Atlze nervoso.

- É... Que.... é que... - a voz de Detlef tremia, nunca vi meu irmão daquele jeito, nunca. Nem quando a menina que ele mais gostava tinha dado um fora nele.

- Fala logo! - gritei esganiçada.

- Papai e Mamãe... Eles.... Morreram... Em um acidente de carro... Os dois estavam voltando para casa quando um caminhão invadiu a pista e bateu de frente no carro deles...

Nunca... Nunca vou me esquecer daquele momento, era como se o chão tivesse deixado meus pés... Como se alguém roubasse todo o ar da atmosfera me deixando sem oxigênio, na hora não consegui me mover e nem chorar... Estava tudo perdido para mim e meus irmãos... Não sabíamos o que fazer..."

23 - Desvendando passados... (Part 1)

Eu não sabia o que falar perante aquela situação... Por que ele sempre fazia isso comigo? Me deixava sem rumo, me deixava totalmente sem ação e sem o que dizer... Eu me sentia totalmente nua diante as palavras dele.

Ele parecia se deliciar com cada momento que me sentia desconfortável... Fiquei em silêncio, minha pele com certeza ficou vermelha de constrangimento, abaixei a cabeça e levantei novamente, a franja cobrindo um pedaço do meu olho.

- O que quer de mim? - perguntei.

- Novamente me fazendo a mesma pergunta... Você ainda não descobriu a resposta? - disse Dereck novamente com aquele ar intrigante.

- Você... Parece brincar comigo... Está me deixando confusa... - respondi sentindo um tom de esteria em minha voz.

- L... Me responde uma pergunta... Qual é o teu segredo? Do que você tem medo?

- Por que você sumiu? Por que não me procurou no dia seguinte? - perguntei ficando totalmente desesperada e novamente me veio aquele aperto no peito.

- E você? Por que não veio atrás de mim? - perguntou Dereck rebatendo todas as minhas perguntas.

Novamente ele me deixou sem palavras. Olhei para todos os cantos do comodo de menos para seu rosto. Do que eu tenho medo?

- Eu tenho medo de muitas coisas! - respondi nervosa sentindo minha voz tremer - Tenho medo de me olhar no espelho, tenho medo de perder novamente as pessoas que eu amo, tenho medo de olhar pra trás, tenho medo de me machucar... Tenho medo de amar!

A essa altura, eu já estava chorando, chorando, novamente... Sem nenhum controle das lágrimas, Dereck veio em direção á mim e tentou me consolar, mas o empurrei afastando de mim... O que estava fazendo? Tudo veio em minha cabeça e estourando como fogos de artificio no ano novo... Aquilo me irritava, mexia com minhas feridas fazendo-as sangrar.

Demorou algum tempo para que Dereck conseguisse me acalmar, ele acabou me vencendo e vindo me consolar, afagando meus cabelos como Klaus fazia, me trouxe uma xícara de chá quente e um cigarro de menta. Me senti mais calma, as lágrimas secaram em meu rosto.

- Me desculpa... - pedi com a voz falhando. - Eu não sei o que está acontecendo comigo... Não sei o que quero... Não sei o que sinto, sou como uma casca vazia... Sem vida... Sem nada

Dereck se abaixou, colocou a ponta de seus dedos em meu queixo levantando meu rosto e me olhando. Me encarou por minutos que pareciam horas.

- Você nem sabe o quanto é bonita né? - ele disse sorrindo.

- Por que fez aquilo comigo? Por que...? - a pergunta não saia de minha cabeça.

Dereck deu um suspiro longo e demorado... Pensei em repetir a pergunta, mas antes que eu fizesse ele respondeu

- Tive medo... Medo de parecer um idiota perante a garota mais... Mais irresistivel que eu já conheci... A fumante de cigarros de cereja estava me deixando louco... - ele deu uma risadinha me fazendo rir também... - e eu não sabia o que fazer.... Me sentia um imbecil, um tolo por gostar de alguém que se querer ao menos conhecia... Mas sentia que precisava de te ver... Mas esperei você vir até mim... Por medo... Mas você não apareceu me deixando sem ação... Então mandei aquelas flores com aquele poema... E você veio... E está aqui... parada. Chorando na minha frente e eu sem poder ajudá-la porque você não me fala nada sobre sua vida... Nem seu nome eu sei... Como posso ajudá-la á superar tudo isso?

Eu ia... Eu ia contar tudo porque nunca me senti tão confortável agora... A voz de Dereck me passava tranquilidade e me sentia feliz, me sentia bem como nunca havia me sentido antes... Tudo aquilo estava voltando em minha mente... Á muitos e muitos anos atrás...

sábado, 12 de junho de 2010

22 - O poeta Fotógrafo

Quando abri a porta da sala um vento frio bateu em meu rosto, peguei uma blusa super-ultra-mega-quente e sai correndo em direção á Estação do metrô, cheguei lá ofegante, com o coração quase saindo pela boca.

Fiquei em pé, encostada na parede esperando por ele... Pelo menos por algum sinal dele, o frio cortava como uma faca afiada, cansei de ficar em pé... DROGA, o que deu em mim? O que estava fazendo ali? Me sentei e abracei as pernas, esfreguei as mãos esquentando-as... Rostos e mais rostos de pessoas passavam por mim e embaralhavam minha mente... Nenhum sinal dele.


Novamente aquela vontade de chorar veio em mim e senti as lágrimas penduradas em meus olhos, que bosta, que bosta, o que tava fazendo ali? Aquela pergunta não saia da minha cabeça e desejei ter continuado em minhas cobertas e ignorado totalmente as rosas e o poema de Dereck sobre mim... E quem seria a doida de ignorar aquilo?

Se passaram horas, não sei quantas exatamente mas continuei ali, imóvel, deitei a cabeça em meus joelhos e acabei dormindo... Não sei por quanto tempo, só sei que senti um frio do caralho e ouvia as pessoas cochichando ao meu redor... Nada... Ele não viria e eu estava fazendo papel de idiota.

Dormi, dormi por horas e acordei com alguém me cutucando, que caralho, quem será que estava me pertubando de meu mundinho fechado e solitário? Acordei meio sonolenta e vi uma figura loira, meio alta parada em minha frente com um sorriso nos lábios e uma câmera pendurada no pescoço. Senti um alivio enorme em vê-lo ali, diante dos meus olhos.

- O que está fazendo aqui? - perguntou Dereck estendo uma mão para mim e me puxando... Até parece que ele não sabia a resposta. Seu ar todo presunçoso lhe denunciava.

Demorei alguns minutos para responder á esta pergunta, aceitei sua mão e me levantei em um salto, cruzei os braços os apertando em meu corpo me protegendo um pouco da friagem. Olhei fixamente em seus olhos...

- Eu... Recebi as flores e seu... Poema... - respondi desviando o olhar.

Dereck deu um sorriso leve e uma risadinha no final. Esperou que eu dissesse mais alguma coisa, mas como não disse, foi a vez dele falar:

- E... Gostou?

Eh... Gostei? Gosteeii, me senti um pouco... Não sei, como sempre, nunca sei definir meus sentimentos... Balancei a cabeça confirmando e ele abriu mais ainda seu sorriso. Pausa para mais um silêncio mortal... E agora? O que aconteceria?

- Ainda não me respondeu o que está fazendo aqui.... - comentou Dereck, DROGA! ele tinha que comentar isso novamente? Achei que a pergunta já estava respondida... Pelo jeito não.

- Hum... Vim procurar... Por você! - respondi revirando os olhos de vergonha, sim, a 'L' sente muita vergonha...

Era justamente isso que Dereck queria ouvir, os olhos dele brilharam como uma criança recebendo o carrinho que pediu de Natal, será que eu seria um presente para ele? Ou seria simplesmente uma garota que ele queria se divertir um pouco? Eu já brinquei tanto com os sentimentos das pessoas que aquilo para mim nem fazia diferença...

Ele me puxou me abraçando, não senti mais frio, seu corpo era quente... Senti novamente aquele cheiro de pimenta misturado com canela... Fechei os olhos... Me apertei mais meu corpo contra o dele... Que droga de sentimento era aquele que fazia meu coração acelerar e as pernas tremerem? Será que esse era o tal do AMOR que dizemos sentir pelas pessoas? Como poderia amar uma pessoa que mal conhecia?

Nos afastamos dando pigarros um pouco envergonhados... Nos encaramos e começamos a rir juntos, ele sempre me fazia rir.

- Então... Vamos para onde? - perguntei entre risos.

- Hum... Tá á fim de ir na minha casa? - ofereceu Dereck... Wow... Ele eh rápido hein? Hahahahahaha não que aquilo estivesse passando por minha cabeça... (Sim, torne as coisas um pouco pervas...). Sim, eu queria ir na casa dele... E descobrir mais sobre ele.

- Claro... - aceitei.

Pegamos o metrô (era impressionante como o metrô movia a vida das pessoas na Alemanha, sem ele não iriamos a praticamente lugar algum. Durante o trajeto não trocamos muitas palavras, elogiei a poesia que ele fez... (sobre eu) e falei que gostei das rosas, embora não ligasse muito para flores e esse tipo todo de romantismo.

Ele apenas riu com minhas palavras e continuou olhando pela janela a cidade iluminada, tudo se tornava um borrão em minha cabeça. Descemos em umas quatro estações depois da minha casa em direção ao centro.

Andamos por uma rua cheia de comércios e barzinhos, Dereck morava em um apartamento pequeno no final daquela rua, seguimos caminhando soltando fumaçinha de frio pela boca... Continuamos em silêncio.

O apartamento dele era acochegante, pequeno mas acochegante; uma sala cheia de fotos de pessoas na rua, coisas jogadas no sofá, uma pilha de roupas sujas em um canto, um cinzeiro cheio de resto de cigarros... Esse era o visual da sala de Dereck.

Ele se apressou em juntar algumas coisas para dá lugar para eu sentar... Me sentei cruzando e abraçando minhas pernas em um canto do sofá. Dereck se sentou em uma cadeira giratória de frente para mim. Todo aquele clima me deixava nervosa e anciosa.

- Você tem algum cigarro? - perguntei tentando acabar com aquele clima - preciso de algo nas mãos...

- Mas você tem algo nas mãos... - respondeu Dereck olhando fixamente em meus olhos.

- Eu? - o que ele queria dizer com aquilo, ergui uma sobrancelha como ele costumava fazer.

- Não... EU.


21 - A Fumante de cigarros de cereja

Naquele mesmo dia quando fechei a porta encontrei Yurika sentada na poltrona da sala de televisão lendo um jornal e fumando um cigarro de canela (tipico dela), ela deu uma olhada em mim por cima do jornal, deu um trago no cigarro e jogou o cabelo para trás. Dei um leve pigarro, subi as escadas dando uma piscadela para ela.

Como sempre saímos para um barzinho, viramos a noite dessa vez, afinal era sexta-feira e o fim de semana era uma criança. Os amigos de Yurika continuavam me tratando super bem, eram interessantes e alguns continuavam dando em cima de mim (e eu continuava ignorando-os). Apesar de está totalmente bêbada naquela noite (sim, eu bebi MUITO), sentada na cadeira daquele barzinho, meus pensamentos infelizmente estavam em Dereck e aquela nossa tarde... Que droga! O que estava acontecendo comigo?

Desejei do fundo do meu coração que ele viesse me procurar no dia seguinte (já que sabia onde eu morava), que saíssemos de novo, tivessemos outra conversa daquelas, que ele fizesse eu esquecer todos os meus traumas, todos os meus medos, que ele fosse como Klaus em minha vida... Ele era uma luz no fim do túnel para mim.

Acordei totalmente de ressaca no dia seguinte com a luz do meio-dia entrando em meus olhos e transpassando a cortina do meu quarto. Yurika dormira na sala e quando desci as escadas não vi sinal dela, apenas as cobertas jogadas no sofá. Tomei um café amargo para ver se parava minha dor de cabeça.

Fiquei o dia todo em casa, e nem sinal de Dereck, okay, não iria até a estação de metrô procurar por ele, essa não era uma conduta "L"; correr atrás das pessoas. Não que eu fosse orgulhosa, só não gostava de me machucar e me decepcionar. As pessoas que geralmente corriam atrás de mim...

Passei a semana toda pensando no desaparecimento de Dereck, "Talvez ele só quisesse saber como eu era... Talvez não tivesse realmente tão interessado em mim..." Esses tantos talvez passavam o dia todo em minha cabeça. Amor á primeira vista? Acha que eu acredito em algo tão ridiculo como isso? Dereck era apenas uma pessoa interessante para mim, como tantas outras, como Kessi era...

Depois de duas semanas finalmente parei de pensar nele. As coisas vieram atona novamente em uma tarde fria de fim de outono, estava sozinha em minha casa, enrolada em cobertores e tomando uma xícara de chocolate quente quando a campainha tocou... Fui atender e era um rapaz, um rapaz comum, com um capotão de frio e um buquê de rosas vermelhas na mão.

- É a senhorita... "L"? - leu o rapaz fazendo uma cara estranha ao ler o destinatário do cartão.

- Sim... sou eu... - disse erguento uma sobrancelha e achando aquilo tudo estranho. De quem seriam aquelas flores? Até parece que eu não sabia a resposta...

- Para a senhorita... - o rapaz me passou as flores e eu as aceitei com um aceno com a cabeça.

Agradeci e fechei a porta, me sentei no sofá, cruzei as pernas e li o cartão. Era de Dereck, meus olhos arregalaram e eu sorri por dentro... Não estava acreditando naquilo.

" Para a minha fumante de cigarros de cereja" - dizia o cartão em uma caligrafia fina e levemente inclinada.

Idiota! Pensei rindo e sentindo uma fina lágrimas correr pelo meu rosto meio queimado de frio. Por que você sumiu sem deixar nenhuma pista? O que estava fazendo comigo mexendo de uma forma tão intensa com meus sentimentos? Vocês devem está achando que eu estava me comportando como uma menininha apaixonada que encontra um cara qualquer na rua e fica semanas pensando nele e pensando em como seria lindo um romance entre os dois... KKKKKKK que jeito mais idiota de se agir... e INFELIZMENTE eu estava quase igual á essas menininhas inocentes... A única diferença é que eu não era inocente.

Levei as flores para meu quarto e as larguei em cima da cama, quando as joguei, um outro cartão um pouco maior saiu de dentro das flores, olhei para ele franzindo o cenho e o segurei para lê-lo. Ainda era a caligrafia de Dereck;

"A fumante de cigarros de cereja...

passava os dias na estação de metrô, sentada em um canto qualquer do hall,
com um cigarro rosa-claro-bebê entre os dedos
dando tragos um atrás do outro
soltando fumaça pelos lábios ressecados pelo frio...

cabelos loiros até o ombro e
olhos cor-de-folhas-de-outono...
Quem ela era?
Com aquele jeito todo distante
tatuagem no ombro oculta pela manga meio caída da blusa

Ela era a fumante de cigarros de cereja..."

Um sorriso simples surgiu em meu rosto quando terminei de ler o poema, tá bom, tá bom, eu chorei! Chorei de novo, era a única coisa que sabia fazer desde que Klaus morreu, e me odiava por me sentir fraca e indefesa... Era dificil eu admitir para mim mesma que eu era fraca e indefesa... E que não era apenas um sentimento passageiro que poderia ser superado com o tempo... Porque cicatrizes nunca se fecham... Nunca...

Eu ia fazer aquilo.... Ia sair correndo por aquela porta, ir até a Estação de metrô e procurar por Dereck, FODAS a conduta L, FODAS se estava bancando a menininha ingenua, e FODAS se iria me machucar... Eu precisava fazer aquilo...




domingo, 6 de junho de 2010

20 - O acaso....

- Você? - perguntei perplexa com o coração acelerado e o cigarro entre os dedos.

Ele me olhou espantado também, não mudara quase nada desde aquele encontro por acaso naquela mesma estação, começou a rir; sua risada era uma mistura de nervosismo e anciedade. Aquele sorriso... Uma série de coisas passou por minha cabeça mas nenhuma delas fazia sentido... Como depois de tanto tempo reencontro alguém que nem conheço?

Ficamos nos encarando por breves segundos, ele ergueu uma sobrancelha de uma maneira engraçada, não pude deixar de rir, dei um trago no cigarro e depois sai andando sem ao menos olhar para ele.

- Vai fazer igual da outra vez, "L"? Virar as costas para mim sem ao menos conversarmos? - arregalei os olhos, o que ele queria? O que queria de mim? E ainda lembrava das iniciais do meu nome... Não, não iria fazer igual da outra vez, me virei com um movimento rápido fazendo meus cabelos darem uma volta completa em meu pescoço. Dei um sorriso, ele retribuiu e me alcançou.

- O que quer de mim? - perguntei sem me preocupar em parecer mal educada, mas não fui grossa nem nada, perguntei sorrindo.

- Não sei... - ele me olhou mais uma vez, de cima á baixo fixando seus olhos no meu. - Curiosidade... Você parece ser uma pessoa interessante...

- Jura? - perguntei com um certo desdém na voz dando mais um trago terminando o cigarro, o arremessei na lixeira próxima ao relógio da estação e continuei andando. - Nem eu me acho uma pessoa interessante... Aceita um cigarro?

Dereck concordou com a cabeça, estendi o maço para ele e peguei mais um cigarro para mim, dividimos o esqueiro e continuamos andando sem ao menos saber para onde iriamos, quanto á Yurika, não tinha problema, ela iria para a casa dela e mais tarde passaria lá para nós duas sairmos.

Senti uma enorme vontade de rir daquela situação... O que estava fazendo, "L"? Saindo com um estranho que na verdade lhe parecia tão familiar... Dereck emanava uma energia boa e que de uma certa forma me dava uma tranquilidade... Okay, estava curiosa sobre ele.

- Que dia faz aniversário? - perguntei impulsivamente, nem eu entendera muito bem o porquê de fazer aquela pergunta.

- 16 de Agosto... - ele me olhou de forma engraçada novamente erguendo uma das sobrancelhas me fazendo rir novamente. - Por que sempre ri quando levanto uma das sobrancelhas?

- É engraçado a cara que você faz... - disse entre risos.

- Okay, e você? Que dia faz aniversário?

- Hum... 16 de Fevereiro...

- Que engraçado, fazemos aniversário no mesmo dia mas em meses diferentes - comentou Dereck colocando suas duas mãos no bolso da calça bege-clarinho.

Seus olhos azuis percorreram o céu de forma distraida, de repente virou os olhos para mim, desviei o olhar ficando levemente vermelha. Ele percebeu meu disfarce e deu uma risadinha. Começamos uma conversa séria, sobre nós e nossas profissões;

Dereck era de Kiel, se mudara para Berlim no ano passado, confesso que fiquei muito surpresa ao ver uma pessoa de Kiel, era uma cidade que tinha enorme vontade de visitar. Era 2 anos mais velho que eu, trabalhava com fotografias, não entrou muito em detalhes que tipo de fotografias e também não perguntei. Morava perto do centro e passava com frequência na estação de Metro perto da minha atual casa. Era minha vez de falar um pouco sobre mim (falava o básico né?)

- Ahn... Moro aqui perto... Tenho um estúdio de tatuagens, trabalho com isso, tenho 18 anos, farei 19 ano que vem e moro sozinha... Abandonei a escola... E... Não há mais nada sobre mim. - disse dando um leve sorriso enquanto caminhávamos por debaixo das árvores que ainda perdiam suas folhas.

O outono acabaria mês que vem e entraria meses frios de Inverno... Nos sentamos na grama, debaixo das árvores e ficamos lá, encostados no tronco, fumando alguns cigarros e jogando conversa fora. Uma sensação boa invadiu meu peito me deixando totalmente tranquila o resto da tarde, era engraçado o fato de eu me sentir tão bem com um total estranho.

Dereck era um cara divertido, me fez rir grande parte do tempo e aquele jeito meio distraído dele... As conversas, o jeito de me tratar... Por que tudo aquilo me lembrava Klaus? Não que eu enxergasse Klaus em Dereck, não, não era uma coisa que eu faria, mas... Não me sentia tão bem assim desda época de Klaus. Uma imensa saudades abateu sobre mim e uma vontade de chorar veio á tona, DROGA! Por que tinha que fazer isso bem na frente de Dereck? É... Não consegui, antes mesmo de perceber as lágrimas já estavam escorrendo por meu rosto...

Chorei de forma silenciosa e demorou alguns segundos para que Dereck olhasse para mim e percebesse que eu estava chorando, ele me abraçou, me abraçou de forma carinhosa e acolhedora, senti um cheiro de pimenta misturado com canela, lembrando vagamente o cheiro de Klaus... Sem querer me apertei mais ao corpo de Dereck, percebi que era um corpo bem definido: Não muito gordo nem muito magro como Klaus era.

Passado alguns minutos, nos afastamos um pouco constrangidos, Dereck não me perguntou o motivo de meu choro, o que achei ótimo, evitaria a todo custo falar sobre aquilo, ficamos alguns minutos sem trocarmos uma palavra. Foi anoitecendo e eu tinha que voltar para casa.

- Tá ficando tarde... - comentei olhando o sol se por, uma luz meio alaranjada com rosa vinha em meus olhos, abracei minhas pernas.

- Quer que te acompanhe até em casa? - ofereceu Dereck.

Fiquei alguns minutos pensando, a primeira resposta que me veio á cabeça foi : " Não... Obrigada, posso ir sozinha", tá, isso seria o que eu responderia... Mas... Alguma coisa dentro de mim me segurou e não disse isso, concordei com a cabeça e olhei para ele.

- Quero... Quero sim!

Nos levantamos e caminhamos vagamente até minha casa, durante o caminho voltamos á conversar normalmente, era como se não tivesse acontecido nada, percebi que Dereck estava fazendo isso para quebrar um pouco daquele clima que havia ficado e para me distrair. Me senti totalmente grata por aquela tarde... Chegamos em frente ao estúdio.

- Então... É aqui... - disse por fim afastando uma mecha do cabelo de meu rosto e a colocando por trás da orelha - Bom... Eu não vou te chamar pra entrar porque...

- Tudo beem... - disse Dereck fazendo um gesto com as mãos - Eu também tenho que ir para casa... E imagino que tenha seus compromissos.

- Hum... Okay! - Dereck já ia virando as costas - É... agora é você que está me virando as costas... - disse de forma meio... triste? Ele se virou e deu um sorriso para mim. - Eh...Foi... Foi ótimo passar a tarde com você... Me fez me sentir... Melhor... Sei lá! Foi bom te conhecer, Dereck.

Ele sorriu mais uma vez e levantou o polegar para mim, deu uma leve piscada e disse:

- Ainda quero ver suas tatuagens... Até breve, "L"...

Fiquei na porta de casa esperando ele se afastar e atravessar a rua em direção á estação do metrô...

sábado, 5 de junho de 2010

19 - Reencontros

Minha rotina estava voltando no lugar aos poucos; trabalhava de tarde, tirei meu certificado de tatuadora (agora estava dentro da lei), fui conquistando lugar no mercado, saia com Yurika á noite, acordava meio tarde no dia seguinte e sonhava com Klaus todas as noites.

Acordava aos prantos e ficava algumas horas acordada olhando a lua pela janela... Lembrando das coisas... Por que o passado sempre persegue a gente? Só queria me desprender de tudo que aconteceu e seguir em frente sem ter que olhar pra trás... Queria acordar e ser uma pessoa nova, sem lembrar de tudo o que me aconteceu...

Yurika me pediu para que fizesse mais uma tatuagem nela, dessa vez na panturrilha; um enorme dragão oriental, era engraçado como Yurika adorava tatuagens grandes e chamativas, apesar da japonesinha quase não mostrar suas tatuagens. "É para alguém especial" comentou outro dia enquanto andávamos pela rua em direção á estação de metrô.

Fazia tempos que não voltava lá, e sim, aquele lugar me enxia de lembranças... Andava totalmente distraida pelo hall de entrada que nem percebi quando Yurika parou para ver alguma coisa, continuei andando e nem vi que a japonesinha não estava mais ao meu lado...
Parei em um canto da estação para esperá-la me alcançar... Esperei por alguns minutos e nada de Yurika aparecer...

Tirei um cigarro do bolso, este era de menta, o coloquei na boca e caçei o esqueiro no outro bolso, nada, tateava a procura dele e não o encontrava. "Merda" sussurrei baixinho, por que estava com uma estranha sensação de que uma mão me estenderia um esqueiro? Eis o que acontece. Peguei sem olhar no rosto da pessoa, ascendi o cigarro e dei um trago me sentindo satisfeita, sussurrei um obrigado olhando para a pessoa.

Congelei.... Era ele... O fotógrafo... Parado bem diante dos meus olhos com sua camera pendurava no pescoço e um casaco grosso azul-escuro... Como era mesmo o nome dele? Ah sim, Dereck, lembrei, mesmo depois de tanto tempo, ainda lembrava de seu nome e seu rosto... Não pude evitar de sorrir e sentir meu coração acelerar... O que significava aquilo?

18 - Arrependimento

Voltamos tarde para casa, Yurika acabou dormindo no sofá da sala e eu fui para meu quarto totalmente acabada e com a cabeça rodando, cai na cama e dormi do jeito que tava; os olhos borrados pela maquiagem e o cabelo um pouco atrapalhado.

Sonhei com Klaus durante a noite, era um sonho engraçado e parecia tão real... Estávamos em um grande campo gramado, eu usava um vestido branco, longo, com uma alça caída em um dos ombros revelando a tatuagem de cereja. Klaus estava á alguns metros de mim, acenando e sorrindo, corri em sua direção, mas quanto mais corria mais longe ele parecia de mim... A imagem dele ia se tornando cada vez mais opaca até desaparecer totalmente, gritei por seu nome mas ele não me respondia... Me ajoelhei chorando com as mãos no rosto.

Acordei meio assustada e chamando por Klaus, não havia ninguém no quarto, puxei os travesseiros que á tempos atrás eram dele, ainda tinha seu cheiro, uma fina lágrima rolou pelo meu rosto, por que era tão dificil superar aquela perda? Chorei e chorei até pegar no sono novamente...

Levantei de ressaca no dia seguinte, Yurika fez um cházinho para nós duas e só depois de algumas horas melhoramos. Era isso que acontecia quando se enchia a cara em pleno meio da semana, era duro acordar cedo no dia seguinte.

Não comentei nada com Yurika sobre o sonho... Não tocamos mais no nome de Klaus pelo menos por umas duas semanas... Era melhor assim, eu sofreria em silêncio mais levaria minha vida em frente, sem medo de seguir em frente (mas na prática era totalmente diferente, sim, eu tinha muito medo das coisas)

Neste dia fui até a casa de Laysla depois de fazer compras das coisas que faltavam no estúdio, cheguei lá a casa estava vazia e silenciosa, me sentei na calçada e fiquei esperando alguém aparecer, não demorou muito para que Bill surgisse correndo com Laysla logo atrás dele.

- "L"! - gritou Laysla sorrindo, a garota veio correndo em minha direção e me deu um abraço. Me senti meio envergonhada pelo abraço, mas retribui assim mesmo. Laysla me olhava de um jeito meio curioso, a pergunta estava explicita nos olhos dela: "Por que saiu correndo ontem á tarde?

- Me desculpe por ontem... - disse de maneira simples, sem encarar a menina nos olhos e olhando para meus próprios pés. - eu... Não estava muito bem.

Ficamos alguns minutos em silêncio, não comentaria nada sobre Klaus com Laysla, seria duro relatar os acontecimentos e com certeza cairia em lágrimas e não queria fazer isso na frente de Laysla.

- Tudo bem - disse a menina por fim. - O que estava fazendo? - perguntou apontando para as sacolas em minha mão.

- Ahh... Material para o estúdio...

- Estúdio de que?

- Tatuagem... Vou voltar á mexer com isso... - comentei de maneira breve.

Passamos o resto da tarde juntas, andamos pela praçinha e depois fomos para a casa de Laysla, era bom passar o dia com a menina, fazia me sentir uma criança outra vez e por algumas horas pude fugir do mundo real para entrar em outro... Totalmente distinto do meu.

Com o passar dos dias, fui confiando cada vez mais em Yurika, e vi nela uma grande amiga e uma pessoa em que pudia confiar plenamente, claro, não contei sobre meu passado para ela (não tinha necessidade) e ela nunca chegou realmente á me perguntar sobre minha vida, nem meu nome Yurika sabia... Esse era meu jeito de confiar.

Continuamos indo á barzinhos á noite e saindo com os amigos dela, apesar de aparentar está totalmente melhor (estava um pouco melhor) ainda sofria por dentro, todas as noites me arrependia totalmente por não ter dito EU TE AMO quando pude para Klaus... O pior sentimento que alguém podia ter era o arrependimento...






17 - O velho sotão

Voltei á minha antiga casa, meus irmãos não estavam lá (como eu já esperava), mas de uma certa forma achei melhor assim, queria evitar qualquer tipo de conversas desnecessárias, e o que eu menos queria naquela hora era falar algo... Só queria pensar...Subi até o sotão (meu antigo quarto).

Estava do mesmo jeito, exceto pela ausencia de minhas roupas e minhas coisas (que levei tudo para a casa de Klaus quando me mudei para lá). Sentia falta do meu cantinho, onde passava a maior parte do meu tempo, sentada no chão de madeira, olhando pela janela as pessoas passando na rua e geralmente a chuva caindo.

Me sentei novamente naquele chão, e fodas se ele estava empoeirado (porque lógicamente meus irmãos não entraram em meu quarto desde que mudara de lá), fiquei assim, de pernas cruzadas no chão, braços apoiados na perna, a claridade em meus olhos...

Voltei para minha casa antes mesmo que meus irmãos percebessem que estive lá... Já era umas 8h da noite e para minha surpresa, quando abri a porta, Yurika ainda estava lá, sentada no banco lendo um jornal. Sorriu ao me ver e disse erguendo uma sobrancelha:

- Vamos sair hoje?

Olhei meio espantada para ela, passei a mão nos cabelos, olhei para minhas roupas surradas e dei de ombros sem entender o que ela queria com isso

- Pra onde? - perguntei.

- Ahh, vou tocar em um barzinho aqui perto... Achei que seria bom se você se distraisse um pouco, bom que você conhece meus amigos... Não existe coisa melhor do que conhecer gente nova não acha? - Yurika deu uma leve piscadinha marota para mim, não pude deixar de rir.

- Tá bom... - concordei - me apronto rapidinho.

Subi as escadas correndo até meu quarto, tirei a roupa de ficar em casa e peguei uma roupa melhorzinha no guarda-roupa. Não era o tipo de mulher vaidosa (acho que dá pra notar isso né?), gostava de roupas simples e confortáveis, mas dessa vez me vesti um pouco melhor do que das outras vezes. Peguei meu melhor jeans, um casaco marrom novo, uma boina preta parecida com a de Laysla, uma bota marrom e uma blusa sem manga. Na maquiagem, não passava nada mais do que um lápis de olho preto e um brilho labial.

Desci as escadas correndo e olhei para Yurika, esta se virou para mim, me olhou com ar de surpresa e assobiou, dei uma risada.

- Tá uma gatona hein "L"! - comentou Yurika quando me sentei ao seu lado. - Vamos logo? tenho que passar em casa e pegar meu violão...

A casa de Yurika ficava á poucos metros dali, se mudara fazia alguns meses, era um apartamento simples e pequeno com quatro comodos apenas, estava de bom tamanho para quem morava sozinha.

Não demoramos mais do que 10 minutos na casa da Yurika e seguimos em direção ao barzinho onde a japonesinha ia tocar, gostava desse tipo de coisa, apesar de fazer tempos que não ia em um. Chegamos lá, os amigos de Yurika chegaram poucos minutos depois da gente.

Todos me trataram super bem e como dizia Yurika ( e isto era uma conduta minha também), era bom conhecer gente nova... Para minha sorte, vários deles se interessaram em fazer seções de Tatuagens comigo. Arranjei uns 3 clientes.

Um dos amigos de Yurika ficou REALMENTE interessado em mim, seu nome era Albert e ele era alemão, de Frakfurt (lugar onde nasci e passei grande parte de minha infancia), era músico assim como Yurika e gostava da maioria das coisas que me interessavam... Okay, não estava interessada em viver um romance novo e ainda continuava achando que não era capaz de amar alguém... Amar de verdade, como nos filmes... (apesar de está sentindo um enorme vazio no peito com a ausencia de Klaus... Será que isso era o amor? E o amor fazia doer tanto assim?)

Passamos o resto da noite conversando e trocando idéias, e como a maioria das pessoas, Albert estava realmente curioso em relação ao meu nome, como sempre fiz mistério e disse: "Eh apenas mais um nome alemão..." respondi rindo. Albert assentiu com a cabeça e me ofereceu uma bebida, cerveja de preferencia.

Bebemos o resto da noite, ouvimos Yurika tocando (ela tinha uma ótima voz e tocava super bem) e esta, mais tarde se juntou á nós em nossa mesa e começamos á conversar. Foi uma noite boa... Me divertir bastante... Mas ainda não era como antes... Era apenas um passo para meu novo recomeço, e confesso que as palavras de Yurika surtiram um efeito rápido em mim, era como se elas tivessem me sacudido, olhado nos meus olhos e me dissessem tudo o que eu não queria ouvir... A REALIDADE das coisas...

Foi o renascer de uma nova "L"...

sexta-feira, 4 de junho de 2010

16 - Encontrando um motivo para recomeçar...

Yurika estava parada diante de mim com um ar um pouco ameaçador, me estendeu a mão, hesitei em segurá-la, quando fiz, esta me puxou me levantando. Sem trocarmos uma palavra, Yurika me levou para casa, senti uma enorme vergonha em ser encontrada naquele estado,mas não disse, quis perguntar o que levara Yurika até o beco, minha boca se moveu mas não saia som algum.

Chegamos em casa, tomei um banho quente enquanto Yurika arrumava alguma coisa para nós duas comermos, liguei o chuveiro e quando a água quente caiu em meu rosto percorrendo meu corpo, senti um certo alivio em tirar toda aquela poeira da rua. Fiquei debaixo do chuveiro olhando para meus pés brancos como um gesso sentindo a água descer molhando meus cabelos.

Ouvi alguém batendo na porta do banheiro e chamando por mim, era Yurika.

- Anda “L”, já está ai faz meia hora! – reclamava a japonesinha. Me distraira tanto no banho que nem percebera a hora, depressa, desliguei o chuveiro, me enrolei na toalha e caminhei em diração ao quarto escolhendo a roupa mais quente que tinha. Uma calça de moletom preta, uma blusa de manga comprida e um casaco velho e surrado por cima.

Desci as escadas em direção á cozinha.

Yurika tomava uma xícara de café fumegante sentada em um banco alto da bancada, apenas deu um breve olhar para mim e me indicou o banco ao lado dela. Joguei uma mecha de meu cabelo atrás da orelha e me sentei, ainda sem falar nada. Quando é que aquele silêncio iria acabar? Me sentia encomodada, e pela primeira vez depois da morte de Klaus senti vontade de me abrir para Yurika.

- Ainda me lembro do dia em que cheguei naquela escola e vi um garoto de jaqueta preta, barba por fazer, cabelos lisos e olhos azuis, parado fumando um cigarro de pimenta encostado em um dos bancos do pátio. – comentou Yurika com um ar de riso na voz olhando pela janela.

Antes que pudesse fazer qualquer comentário sobre as palavras repentinas da oriental, ela continuou:

- Não demorou muito para que eu fizesse amizade com ele, gostávamos das mesmas coisas, eu tocava violão e ele baixo. Pela primeira vez não me senti discriminada ou excluída por minhas origens...

“ Ele era tranquilo, sempre com um olhar vago e um sorriso nos lábios, me disse que mexia com tatuagens, me interessei de verdade em fazer algumas tatuagens com ele, era um bom tatuador, não muito conhecido mas trabalhava muito bem. Fui expulsa da escola, mais tarde, ele completou o colegial...

“Nos reencontramos em um rock bar e voltamos á conversar... Ele havia me dito que estava totalmente apaixonado por uma garota... Uma garota especial, totalmente diferente das outras mas que estava totalmente perdida no mundo. – dei um leve sorriso ao ouvir essa frase – ‘De verdade Yurika, não sei como falar tudo o que sinto para ela...’ ele havia me dito, ri e disse ‘Klaus Herman apaixonado? Isso daria um bom livro...’”

Não pude deixar de rir ao ouvir essas palavras, antes que Yurika pudesse continuar já estava ás lágrimas, Klaus... Por que estava tentando apagar todas as lembranças dele de minha cabeça? Por que estava fazendo isso comigo mesma? Como eu pude fazer o que estava fazendo... Esse não era o jeito "L" de agir...

- E "L", não sei o que deu em você... Mas você está jogando pro alto todos os sonhos de Klaus.. - disse Yurika me encarando de forma séria - Tudo o que ele havia conquistado, o estúdio... Você não faz idéia o tanto que ele lutou para conseguir montar o negócio dele... E você nem está mais trabalhando com tatuagens... O que deu em você, garota? Onde está aquela pessoa maravilhosa que Klaus tanto me falava? Essa pessoa maravilhosa deu lugar á uma garota que não quer saber de correr atrás dos sonhos dela, que só sabe ficar sentada na Estação Central fumando um cigarro atrás do outro e bebendo?

Não consegui arranjar nenhuma justificativa para tudo o que Yurika me dizia, senti meu sangue queimare uma raiva enorme de mim mesma... Yurika estava certa, eu precisava seguir em frente e encarar a realidade de que Klaus não voltaria mais e conviver apenas com as lembranças dele...

Precisava arranjar um motivo para começar minha vida toda do zero... E qual seria esse motivo? Não sabia ao certo mas já começaria á agir...Amanhã mesmo abriria novamente o estúdio de tatuagens, pagaria as contas que estavam em débito, ligaria para os clientes, cortaria meu cabelo novamente (já estava na altura do ombro) e visitaria Laysla... (Essa última parte seria um pouco mais tensa, mas em fim...)

- Obrigada... - foi o que consegui dizer...

quinta-feira, 3 de junho de 2010

15 - Uma nova imagem

A estação Central não era um cenário digamos que familiar, era lá que passava meus dias, sentada no hall fumando um cigarro atrás do outro olhando as pessoas ao meu redor, não me pergunte porque escolhi esse lugar para passar meus dias, na verdade, nem eu mesma sabia.

Gostava daquele ambiente barra-pesada de imigrantes sujos procurando por prostitutas, banheiros sujos de sangue de drogados e adolescentes fumando e bebendo em rodas no hall. Na verdade fazia me sentir melhor ver pessoas que estavam em situações bem piores do que a minha, mas não era aquela vida que queria para mim. Eu estava sozinha novamente...

A única pessoa que ainda me fazia me sentir um pouco melhor e que realmente me impedia de fazer bobagens era Yurika; não via nela uma amiga com quem podia contar, mas de uma certa forma, não me sentia TÃO sozinha assim (embora eu estivesse).

Yurika me odiava ver na estação e tentava me convencer de nunca mais ir lá, mas não dava ouvidos á ela, uma vez briguei feio com a japonesinha na esperança de que me deixasse em paz, mas ela não deixou... Continuou indo lá em casa todos os finais de tarde e se não me encontrasse lá, ia na estação me buscar.

Ficava na estação na esperança de reencontrar Babsi, mas nunca dei realmente sorte em encontrá-la, uma vez perguntei á um velho imigrante se ele conhecia uma garota de cabelos cor-de-rosa conhecida como Babsi, este sorriu com seus dentes sujos e podres e disse com um sotaque sulista.

- Babsi... Você quis dizer a Cherry? Ela vem aqui de vez em quando se vender para os caras, mas faz tempos que não á vejo por aqui... Dizem que fica muito na Bahnhof Zoo...

Apenas balancei a cabeça e sai, então era verdade, Babsi realmente se prostituira e ainda por cima na Bahnhof Zoo, a estação de metrô perto do zoológico, o lugar mais repugnante de Berlim onde a maioria dos jovens passavam o dia se drogando e se prostituindo e tudo por causa dela... A heroína...

Tudo bem que a Estação Central não era um lugar muito menos repugnante que a Bahnhof Zoo, mas ainda assim era melhor do que a própria. Evitava passar por lá com medo de ver a decadência dos meus antigos amigos. Todos haviam sido vencidos pela heroína e estavam totalmente dependentes dela, imaginava que a situação de Babsi não era muito diferente.

Não comia nada, não dormia á noite, e não sentia mais nada; nem vontade de chorar, nem vontade de sorrir. Era como se fosse uma boneca de pano descosturada; sem vida, sem sentimentos e com um buraco no peito que nunca se fechava. Não encontrava sentido para viver e não entendia o porquê de existir.

Quando não estava na Estação do Metrô andava pelas ruas, como sempre tive costume, passei em frente a casa de Laysla uma ou dua vezes durante a semana, dei um leve sorriso ao me lembrar da garota e uma enorme curiosidade de saber como a garota estava veio em mim.

Parei e fiquei olhando a bela casa de madeira da rua cheia de árvores com uma praçinha bem próxima dali me lembrando de meu passado, de minhas coisas, era como se uma pequena chama houvesse despertado em meu frio coração. .

Ouvi o barulho de passos de alguém se aproximando, olhei para os lados, um latido, com certeza era Bill, o cachorro de Laysla. Uma voz de criança, era a voz de Laysla, sem pensar duas vezes sai correndo, não queria que a garota me visse no meu estado, mas ela me viu, gritou por meu nome (sim, meu verdadeiro nome), mas não me virei para trás, continuei correndo pra bem longe dali...

Só parei de correr quando cheguei em um beco todo sujo e cheio de caixas de papelão, me sentei sem ao menos sentir nojo daquele lugar, abraçei minhas pernas curtas e fiquei assim, olhando meu reflexo em uma poça d'água acumulada no chão de pedra. Havia tempos que não olhava minha imagem; estava totalmente magra, com olhos fundos e olheiras ao redor, meu cabelos não tinham mais aquele brilho louro, estava fosco e sem vida. Essa era a nova imagem de "L"...

Senti que alguém se aproximava, quando estava me preparando para sair, vi uma silhueta feminina, cabelos lisos, curtos e olhos puxados...

quarta-feira, 2 de junho de 2010

14 -Voltando á estaca Zero



Senti meu estômago remexer e um gosto de bile na minha boca, me segurei para não vomitar; o corpo de Klaus estava coberto por um plástico preto bem diante dos meus olhos. Fiquei perplexa, não conseguia me mexer e nem falar nada, a fisgada no meu coração voltou a doer.

As pessoas cochichavam entre si ao meu redor mas não consegui entender o que diziam, o policial continuava á fazer anotações em sua prancheta de madeira. Klaus...? Não estava acontecendo nada daquilo, fechei os olhos e preferi pensar que tudo aquilo não passava de um sonho e que Klaus estava lá dentro do estúdio, me esperando voltar com um sorriso no rosto e um cigarro de cereja pendurado na boca. Como ele sempre estivera...

(....)

Acordava durante as noites e olhava para o lado á procura de Klaus, ele ainda não havia voltado e meu corpo anciava pelo dele, me levantava e olhava pela janela e depois custava á pegar no sono novamente, ás vezes passava noites em claro... Esperando uma pessoa que não ia voltar.

Vários clientes de Klaus vieram me visitar durante a semana e saberem como eu estava, essa era a pergunta: Como você está? Apenas dava um leve sorriso e dizia : "Vou melhorar..." Yurika vinha várias vezes na semana, me fazia compania e ficávamos a tarde inteira conversando...

- Eu... Prefiro acreditar que Klaus não morreu... - comentei dando um leve gole na caneca de chá quente que ela havia preparado para nós duas, em uma tarde fria no fim da semana. - Acho que... é a única forma de não encarar a realidade, prefiro pensar que ele está viajando e que um dia vai cruzar aquela porta com um sorriso nos lábios, cabelos atrapalhados pelo vento e barba por fazer e de braços abertos em um abraço...

Chorei, como nunca havia chorado... Pela primeira vez chorei a morte de Klaus, já fazia duas semanas que ele havia morrido e desde então não chorara a morte dele, não acreditava, não aceitava que aquilo estava acontecendo.

Yurika me abraçou, me abraçou bem forte e retribui seu abraço me sentindo um pouco confortável, chorei, desesperei, sem ter vergonha de está chorando na frente de uma pessoa que não conhecia tão bem assim... Ela entendeu perfeitamente e ficou em silêncio, sem palavras do tipo : "Ele era uma boa pessoa" ou "Foi porque Deus quis", palavras que pessoas te dizem para consolar em momentos como esse mas que na verdade não resolvem nada.

Descarreguei toda minha tristeza daquelas duas semanas ali, com Yurika, a realidade estava vindo agora, e já era hora de aceitar que Klaus não retornaria, que eu nunca veria aquele sorriso novamente, nem ouviria sua risada nem sentiria sua boca na minha, e tudo aquilo me doía, me fazia falta e eu não conseguia aceitar o fato de não ter dito EU TE AMO quando pude...

Até hoje, a imagem dele sorrindo, meu nó na garganta em dizer essas palavras á ele ficam em minha cabeça e me assombram á noite... Digamos que não entrei em depressão, mas decaí bastante. Fumei mais cigarros por dia voltando ao velho hábito de comprar mais os de menta do que os de cereja. Voltei á beber e passar minhas noites na estação de metrô , sentada no hall de entrada.

Diversas vezes me perguntei: E agora? O que será de você "L"? Você tinha uma vida que julgava quase perfeita, um homem ao seu lado que te amava e te apoiava, um trabalho de que gostava, uma casa, planos futuros, e agora... Tudo havia evaporado como a chuva da calçada e eu estava novamente perdida no mundo, como me encontrei antes de rever Klaus...