Um ano antes de meus pais morrerem me lembro vagamente de uma tarde no final do inverno onde eu e meus irmãos conversávamos no quintal de casa e brincávamos com nosso cachorro; Tom. Falávamos sobre nossos planos, eu queria ser médica quando crescesse, queria ter uma família, filhos, um cachorro como Tom e manter um vinculo com meus irmãos. Atlze queria ser Engenheiro e Detlef empresário.
Eu com 11 anos... Acho que a unica coisa que permaneceu a mesma foi o meu tamanho (sempre fui pequena) porque TUDO mudou, tudo saiu do lugar, nossos país não estavam mais conosco, nosso cachorro ficou em nossa antiga casa e nos distanciamos drasticamente depois disso... Minha carreira de médica? Bom, isso mudou bastante porque hoje em dia nem pensaria em seguir esse tipo de profissão, mas de fato o que importa é que nunca mais sonhamos igual sonhávamos antes, não conversamos mais igual conversávamos antes alias, eu nem vejo meus irmãos faz um bom tempo. Se eles estavam em casa ou não é uma coisa, mas eu estava indo para lá do mesmo jeito.
Apesar de tudo aquela rua me dava saudades, é engraçado como tenho saudades de tudo que já passei, inclusive das coisas mais bobas possiveis. Me aproximei da porta da casa e ouvi conversas lá dentro, era a voz de Detlef, gritos, era Atlze. Abri ruidosamente a porta revelando a imagem do hall, os móveis estavam totalmente fora do lugar desde que eu fui embora dali e por incrivel que pareça estava tudo limpo.
- L! - Atlze gritou com um sorriso no rosto correndo para me abraçar. O abracei bem forte com lágrimas penduradas nos olhos, que saudades de você irmãozinho, as palavras não sairam de minha boca.
- O que você tá fazendo aqui? - a voz que Detlef parecia perigosa e cortava o ar como um trovão. O que? O que tava acontecendo? O que eu fiz?
- Detlef, para com isso - Atlze olhou de uma forma assustada para nosso irmão mais velho.
- Tudo bem... Ahn... O que foi? - comecei a ficar mais preensiva me soltando do abraço de Atlze e cruzando os braços em cima do peito.
- O que foi? Como o que foi? Tá ficando LOUCA Liesel? - Detlef já estava gritando, os olhos dele estavam vermelhos igual fogo e eu podia ver uma veia pulsando em sua têmpora.
- Ele tá drogado? - perguntei de forma calma para Atlze, de fato minha calma irritava Detlef. Atlze fez que sim á minha pergunta, ahn, que ÓTIMO, meu irmão agora se droga.
- Você aparece aqui como se nada tivesse acontecido, você some no mundo com aquele imbecil do Klaus e volta de uma hora pra outra? - ele começou me parecer hostil e eu dei um passo para trás, a maneira como ele se referiu á Klaus fez meu sangue ferver, mas precisava de muito mais que isso para me tirar do sério. - Você não tem juizo Liesel, você nunca teve, você age como uma rebelde sem causa e acha que é dona do seu próprio nariz e acha que pode aparecer depois de mais de um ano?
- Você tá nervoso Detlef, não dá pra conversar com você assim. - tinha um certo tom de deboche e desprezo em minha voz, apesar de saber que Detlef estava drogado e que nada que ele falava era de total sanidade, suas palavras me machucavam. Atlze olhou para mim suplicando para que eu não fizesse nada, tentei manter mais ainda a calma.
- Sua......! - Detlef levantou a mão para me bater na cara, mas antes que sua mão chegase em meu rosto Atlze o segurou.
- VOCÊ TÁ FICANDO LOUCO CARA? VAI BATER EM NOSSA IRMÃ?! - Atlze gritava com Detlef e aquela situação toda me desconfortava, tentei me manter o mais longe possivel do alcance de Detlef enquanto Atlze tentava tranquiliza-lo.
- Atlze, foi mal, não devia ter aparecido aqui, outra hora a gente se vê ta legal? - fui saindo pela porta mas Atlze segurou minha mão me fazendo parar.
- Não Liesel, você fica. - Atlze disse de uma forma séria e tranquilizadora, olhei para ele e me arrependi de não ter procurado-o antes, me lembrei de como éramos quando crianças, de como nos dávamos tão bem.
Detlef saiu enfurecido pela porta pisando forte pela rua á fora. Atlze fechou a porta e me mandou sentar em um sofá aparentemente novo no hall, a casa ainda tinha cheiro de poeira e cigarro com uma leve pitada de maconha.
- Desde quando? - perguntei
- Ele ainda fuma baseado, mas ele tá ficando nervoso... Desdaquela época uai! - disse Atlze - não tá sentindo o cheiro não?
- É... eu to... Olha, foi mal mesmo, não queria causar essa confusão - disse realmente arrependida.
- Não Liesel, não foi sua culpa... Ele tá muito ruim mesmo. E foi bom você ter aparecido, faz tanto tempo que não temos noticias suas...
- É... aconteceram várias coisas comigo... E... bom, não devia ter saído de casa do jeito que sai...
- Não... Não... NÃO MESMO. Mas... A vida é sua né... ? Nunca fomos bons irmãos com você desde que papai e mamãe morreram.
- Pois é... O que aconteceu com a gente hein Atlze? A gente era muito unido... E... Quando era pra ficarmos mais unidos nos distanciamos... Perdemos o rumo... Não sei!
- É... - Atlze comentou pensativo, tive a impressão que ele estava se lembrando dos velhos tempos de criança. - Sabe Liesel, o Detlef gosta muito de você, pode até parecer que não, porque vocês sempre brigaram mas... Ele... Ah! Você sabe como ele é.
- Sei... - mas havia me esquecido, pensei.